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terça-feira, 9 de julho de 2019

A estreia "desnorteada" da Seleção Nacional de futebol


Foi sob o signo do puro amadorismo e – de algum – desconhecimento global do jogo que a Seleção Nacional fez o seu batismo na alta roda do futebol internacional. Uma efeméride ocorrida há mais de 90 anos (!) no longínquo 18 de dezembro de 1921. Nesse histórico dia um grupo de notáveis atletas e timoneiros na implantação do belo jogo no nosso país defendeu pela primeira vez o “emblema” das quinas num “match” internacional, tendo como madrinha desse batismo a vizinha e poderosa Espanha.
Madrid e o estádio do Atlethic de Madrid – assim se chama o atual Atlético madrileno por ter sido fundado por bascos – testemunharam esse momento histórico do futebol luso. E tal como em outros tantos episódios da vida da nossa seleção também aquele Espanha – Portugal seria envolvido em polémica e quezílias desde o primeiro instante. A marcar a gigante onda de descontentamento a “política” da convocatória. Um dos maiores ases do pontapé da bola da altura, o belenense Artur José Pereira, recusou representar a nossa equipa pelo facto do seu irmão Francisco Pereira e o seu companheiro de equipa Alberto Rio não terem sido chamados.

Mas a polémica maior deu-se entre as cidades do Porto e de Lisboa. A começar pela recolha de fundos que a União Portuguesa de Futebol (organismo antecessor da atual Federação Portuguesa de Futebol) quis implementar com a disputa de um “match” entre as seleções das duas maiores cidades do país com o intuito de custear a viagem do combinado nacional a Madrid. A Associação de Futebol do Porto recusou desde logo esse jogo de angariação de fundos pois sabia de antemão que a Seleção Nacional iria ser composta por jogadores de Lisboa! E não andaria muito longe da verdade…
Portuenses que foram mais longe ao ameaçar o organismo máximo do futebol português que não permitiriam que nenhum jogador seu filiado participasse nesta estreia internacional de Portugal. Houve contudo um jogador que não acatou a ordem da entidade portuense, tendo viajado para a capital do país à revelia dos dirigentes nortenhos para se juntar à seleção nacional… que para os portuenses não era mais do que uma seleção de Lisboa! Artur Augusto era o nome do “desertor”, um homem que apesar de defender as cores do FC Porto era natural de Lisboa (!)

Ainda atiçados pela “guerra Norte-Sul” que se instalara em torno da estreia portuguesa além fronteiras os jornais do Porto lançavam provocações e lamentos sobre os seus “amigos” do sul. A revista Sporting, por exemplo, escrevia: «É para lamentar e até encher-se de pesar a alma de todos aqueles que amam o desporto e a sua terra, torrão abençoado e digno de melhor sorte, levado pela ambição, pela vaidade de meia dúzia de criaturas onde morreu o sentimento da mais elementar dignidade, a fazer-se representar em terras estranhas, fora do solo que amamos, por elementos cujos nomes foram escolhidos por simpatia, demonstrando à evidência um desconhecimento profundo de patriotismo, ligado ao maior desprezo pela causa pela qual tanto trabalhos…»

Quezílias à parte Portugal lá partiu para Madrid com um grupo de homens a quem muito o futebol nacional deve o ser. Nomes míticos como Ribeiro dos Reis, Jorge Vieira, ou o grande mestre Cândido de Oliveira fizeram parte desta primeira grande aventura. Nomes que mesmo estando possuídos de uma alegria e vontade desmedidas em levar futebolisticamente o nome de Portugal bem longe – e haveriam de consegui-lo com o passar dos anos – não foram capazes de impedir uma derrota na estreia no palco internacional deste desporto que ia já enlouquecendo multidões um pouco por todo o Mundo.
3-1 a favor da poderosa Espanha num campo pelado, duro e muitíssimo estreito (queixaram-se os portugueses) foi o resultado final deste batismo internacional para as nossas cores. Curiosidade do acaso foi o facto do golo luso ter sido apontado pelo irmão do único jogador que não pertencia a Lisboa (!)… esse mesmo, Artur Augusto, cabendo a Alberto Augusto a honra de apontar o primeiro golo da história da Seleção Nacional, na sequência de uma grande penalidade, batendo o mítico guarda-redes espanhol “Don” Ricardo Zamora.

No Porto a derrota seria recebida com ironia… «a ansiedade dos desportistas portuenses em conhecer o resultado do desafio de Madrid foi satisfeita pelas 6 horas da tarde quando os nossos placards noticiaram que a Espanha tinha vencido o onze de Lisboa por 3-1. O resultado bastante honroso que o telégrafo nos anunciava era de molde a entusiasmar pessimistas e otimistas…»
Nota: Na fotografia o histórico “onze” que defrontou a Espanha nesse eterno dia 18 de Dezembro de 1921

quinta-feira, 21 de março de 2019

(Algumas) Histórias da Golden Era (anos 20) do polo aquático português


Cascais, assistiu à primeira demonstração
de polo aquático em Portugal, no ano de 1907

Num país – como o nosso - louco por futebol é natural que o tempo de antena para outras modalidades seja diminuto, ou muitas vezes, inexistente. Modalidades há cujo encanto tarda em conquistar plateias maiores… em exibir-se em palcos de destaque. O exemplo do pólo aquático bem pode ser encaixado neste cenário, já que no presente é uma modalidade que se passeia bem longe das luzes da ribalta do nosso desporto.
Contudo, nem sempre foi assim. Houve uma década em que o polo viveu, digamos que, a sua Golden Era em território nacional. Entusiasmo, competitividade, qualidade, acesa rivalidade e acima de tudo mediatismo, foram ingredientes que tornaram o polo aquático em Portugal um fenómeno de popularidade nos anos 20 do século passado.
Viajemos pois a bordo da máquina do tempo até esse período da História, para reviver alguns capítulos que marcaram a melhor fase do polo nacional.

Ainda antes de ancorarmos no início da década de 20, há que primeiro recordar a chegada do polo aquático a Portugal, algo que, de acordo com os historiadores, aconteceu em 1907, pela mão de marinheiros ingleses que aqui trabalhavam. Relatos apontam que a primeira aparição oficial do polo em solo – ou melhor, em mar – nacional ocorreu em Cascais, a 13 de outubro do citado ano, quando no âmbito de um festival náutico esse grupo de marinheiros deu vida ao que muitos de pronto apelidaram de… andebol de água!
Com este arranque, o polo aquático tornava-se assim na segunda modalidade coletiva a ser introduzida em Portugal… a seguir ao futebol.
Contudo, este match experimental não cativou logo a nação, demorando cerca de uma década a afirmar-se cá pelo burgo. 

Foi na região de Lisboa que a modalidade viria a desenvolver-se em meados dos anos 10. Há escritos que apontam que na Doca do Espanhol e na Doca de Santo Amaro se desenrolavam por esta altura grandes jogos de polo aquático, aos quais assistiam numerosas pessoas.
É também em 1915 que é fundado aquele que muitos consideram ser o clube que deu um grande impulso à modalidade, o Sport Algés e Dafundo. Inúmeras páginas históricas foram escritas por este emblema na sequência de acalorados e épicos duelos travados a sul com o rival (de então) Sporting e mais a norte com o FC Porto. ´
E igualmente na reta final dos anos 10 que começam a realizar-se os primeiros campeonatos regionais: primeiro em Lisboa (1915) e depois no Porto (1921).
O interesse em torno do polo ultrapassa nos anos 20 as duas maiores cidades do país, estendendo-se até à Pérola do Atlântico, vulgo, a Madeira.
Graças à sua condição geográfica, a ilha torna-se igualmente num animado centro do polo aquático, criando mesmo um campeonato próprio, isto é, à margem do campeonato nacional, cuja primeira edição acontece em 1922.

Lisboa: palco das primeiras batalhas lendárias

Sporting, campeão nacional em 1922
Pode dizer-se que os primeiros duelos de polo aquático empolgantes e acesos – com uma dose de picardia e dureza à mistura – aconteceram em Lisboa e foram protagonizados pelo Algés e pelo Sporting, as duas grandes potências da época. Os leões criaram a secção de polo aquático em 1917, precisamente no mesmo ano em que é fundada a Liga Portuguesa dos Clubes de Natação, organismo que haveria de tutelar os primeiros campeonatos regulares (regionais e nacionais) no país.
Mas é no início dos anos 20 que o polo leonino ganha projeção com a chegada de alguns reforços de peso, oriundos do Clube Naval de Lisboa, entre outros, Joaquim Oliveira Duarte. Este médico e oficial da Marinha foi nadador, remador, futebolista, e atleta de polo aquático (era guarda-redes) de um clube do qual anos mais tarde viria a ser presidente!
Aliás, grande parte da equipa do Sporting em 1921 era multifacetada no plano desportivo, senão vejamos: António Silva também jogava rugby; Francisco Leote praticava também atletismo e rugby; Mário Garcia jogava rugby e hóquei em campo; Emile Renou era campeão nacional de salto em altura; e Guilherme Coopers era um craque em saltos para a água, onde chegou a ser campeão nacional.

Foram estes homens que estiveram na génese do reinado do leão no polo aquático regional e nacional em diversos períodos na golden era da modalidade.
Reinado que tem início em 1922, com o Sporting a levar a melhor no Campeonato de Lisboa sobre o Casa Pia e o Algés e Dafundo, as outras equipas que compunham este “triangular” disputado nos meses de julho e agosto. Os verde-e-brancos venceram os quatro jogos disputados, vingando assim a amarga derrota nesta competição averbada no ano anterior diante do seu eterno rival no seio desta modalidade, o Algés.
Ao vencerem o regional lisboeta de forma destacada com 8 pontos, mais 5 que o Algés, que partiu para a 6.ª e última jornada da prova para defrontar o Sporting já ciente de que não iria revalidar o título da temporada transata, os leões classificaram-se para a final do Campeonato Nacional, que iria ser disputada com o campeão do Porto, o Clube Escola Náutica.
Final que decorreu em Viana do Castelo. E que final haveria de ser!
Ao intervalo o Sporting vencia os portuenses por claros 3-0, graças a golos de Emile Renou (2) e Mário Garcia. E eis que para a segunda parte aconteceu algo… insólito! Os campeões do Porto resolveram não comparecer na quadra desenhada no Rio Lima, ao que parece porque não conseguiam agarrar bem a bola, alegando que esta estava encerada e que para a manusear os jogadores do Sporting haviam untado as mãos com cola! E assim a vitória foi atribuída ao Sporting que conquistava o primeiro de quatro títulos nacionais alcançados nesta década.

Madeira: um caso à parte

Império, que em 1922 venceu o Campeonato da Madeira
É a 22 de agosto de 1922 que na Madeira é criada a Liga Madeirense de Desportos Aquáticos (LMDA). Neste dia, representantes do Clube Sport Marítimo, Clube Desportivo Nacional, União Football Club e o Clube Sports da Madeira reúnem-se na sede desta última coletividade para fundar a citada liga cuja missão passava pelo promoção e organização de modalidades aquáticas na ilha, entre outras, o polo aquático. Esta espécie de federação regional teve como grande mentor Álvaro Reis Gomes.
Definidos e estruturados os estatutos deste organismo, arranca neste mesmo ano o primeiro campeonato da Madeira de waterpolo – nome pelo qual era na época designada a modalidade no nosso país. Prova que seria disputada pelo Clube Sport Marítimo, Grupo Desportivo Nacional, Club Sports da Madeira, Império Foot-ball Club e União Foot-ball Club.

E tal como no continente os embates de polo aquático na ilha eram extremamente competitivos, sendo exemplo disso a primeira edição do regional madeirense, que chegou ao final com Marítimo e Império empatados em termos de pontuais. O tira-teimas foi marcado para a Baía da Pontinha, no Funchal, onde o Império haveria de se tornar no primeiro campeão madeirense após derrotar os maritimistas por 3-1. Os relatos desse jogo apontam para uma afluência massiva de público... pagante, tendo a receita sido de 53 escudos.
A liga cresceu nos anos que se seguiram, tendo sido criados os campeonatos das segundas e das terceiras categorias, tal era o elevado número de praticantes da modalidade. O declínio dá-se por volta de 1928, porque de repente começou a haver um desinteresse dos clubes em participar nas provas da LMDA, muito por culpa da acentuada expansão do... football!

De volta ao Continente... com finais (1923 e 1924) envoltas em polémicas

Duelo entre Algés e Sporting, em 1923
O polo aquático desde a sua implementação em Portugal que era olhado como um desporto algo violento. Eram normais as quezílias entre atletas dentro de água, sem que o árbitro se apercebesse do agressivo contacto físico que quase sempre existia, sobretudo nos jogos mais decisivos, como por exemplo o Sporting – Algés de 1923, que iria decidir o título regional lisboeta desse ano. Os dois maiores emblemas da capital terminaram o campeonato com o mesmo número de pontos, sendo que ambos os jogos realizados entre eles terminaram empatados (2-2 e 1-1), pelo que houve necessidade de a 30 de setembro de 1923 ser disputada uma espécie de negra para decidir o campeão.
A violência entre jogadores nos confrontos Sporting – Algés, ou vice-versa, era uma constante. E na finalíssima, digamos assim, esta tendência voltou a confirmar-se. Exemplo disso foi um jogador do Algés que se encontrava fora da água após ter sido suspenso temporariamente pelo árbitro, ter subitamente voltado a entrar na quadra para agredir barbaramente um jogador leonino, no caso Henrique Teles. Após o período de suspensão ter terminado o jogador agressor do Algés voltou ao jogo como se nada tivesse acontecido, facto que motivou o protesto dos sportinguistas. Como o árbitro permitiu a reentrada do dito jogador, o Sporting resolveu abandonar o encontro e assim entregar o título de Lisboa numa bandeja ao Algés, que simultaneamente e sem opositor a norte foi igualmente considerado campeão nacional.
Estes foram os primeiros títulos conquistados por este emblema quer no plano regional, quer no nacional. Algés que assim enriquecia o seu palmarés, juntando estas duas conquistas à “Taça Maria Emília”, arrecadada em 1916 num torneio realizado na Praia da Cruz Quebrada, e que constituiu a primeira vitória relevante do waterpolo deste clube.
Por esta altura, o regional lisboeta já era disputado em três categorias, facto que atestava a popularidade da modalidade.

Um ano volvido e nova polémica fora de água permitiu ao Algés revalidar os dois ceptros. A 1.ª categoria do regional lisboeta foi disputada unicamente pelos dois velhos inimigos durante o mês de outubro. E depois de um empate a uma bola no primeiro encontro a polémica estoirou no segundo jogo.
Tudo porque numa altura em que o Sporting vencia por 1-0 o cronómetro do jogo simplesmente desapareceu! Enquanto isto, os jogadores das duas equipas brindavam o número público com cenas de pancadaria. A Liga Portuguesa dos Amadores de Natação decide então suspender a partida de modo a abrir um inquérito enquanto anunciava um terceiro jogo. O Sporting discordou e decidiu retirar a sua equipa da prova e assim oferecer pelo segundo ano consecutivo os títulos regional e nacional ao seu rival.

1926: ano de estreias e de reconquistas

Hermano Patrone, tem o seu nome perpetuado
numa alameda em Algés
Após um ano (1925) de interregno, fruto de muitas faltas de comparência, eis que em 1926 o waterpolo volta a fervilhar. É por esta altura, aliás, que para o Algés entra aquele que ainda hoje é considerado um dos maiores jogadores portugueses da História: Hermano Patrone. É igualmente neste ano que em Lisboa tem lugar o primeiro jogo internacional de uma seleção nacional de polo aquático, tendo o combinado luso sido derrotado pelos vizinhos espanhóis por 2-1. Entretanto, na Doca de Santos, na Doca do Espanhol, ou na Praia de Algés continuam a realizar-se escaldantes e emotivos matchs em condições... artesanais: um retângulo flutuante onde se desenrolavam os jogos que se deslocava constantemente pela força do vento e das ondas. Nas extremidades do retângulo duas balizas suspensas por bidões! Era assim o waterpolo nacional na sua Golden Era.

E se em 1923 e 1924 o Sporting protestou os duelos decisivos contra o Algés, desta vez foram estes últimos a fazer birra pelo facto de os leões apresentarem ao longo do Campeonato de Lisboa um jogador (Esteban Torok) que não era português. O Algés comandou o coro de protestos, no qual estavam incluídos outros emblemas da capital (e redondezas). Aliás, o regional de 1926 ficou marcado pelo número elevado de participantes no campeonato de 1.ªs categorias, pois além de Algés e Sporting também competiram o Vitória de Setúbal, o Clube Internacional de Football (CIF), o Pedrouços (nada a ver com a localidade da Maia) e o Nacional (que veio fazer uma perninha ao continente).
O protesto do Algés fez com que este clube não comparecesse no derradeiro e decisivo encontro do campeonato, entregando desta forma o título ao Sporting, onde pontificavam agora nomes como Coelho da Costa, Salazar Carreira, ou Jaime Montalvão. O título regional permitiu aos sportinguistas disputarem o título nacional em Aveiro, diante do campeão do Porto, naquele ano o Comercial. A supremacia dos clubes do sul continuava a ser evidente, como comprova o resultado final de 4-0 a favor dos leões.

Águas turbas no plano regional em 1927

Não era apenas a violência em muitos jogos que caracterizava o waterpolo luso por estes dias, era igualmente a discórdia entre clubes e demais entidades. Prova disso é que em 1927 os principais clubes de Lisboa, tendo à cabeça o Algés, decidem criar um novo organismo que tivesse como função a tutela da modalidade, fazendo assim frente à Delegação de Lisboa da Liga Portuguesa de Natação, que tinha como um dos seus poucos aliados o... Sporting.
Esta fidelidade concedeu aos leões mais um título regional, uma vez que o campeonato lisboeta continuava a ser tutelado pela Liga. Desta vez a polémica não se deu dentro de água, onde os sportinguistas não tiveram rivais, mas sim na secretaria. Polémicas à parte, a Doca de Alcântara iria receber em novembro de 1927 a final do campeonato nacional entre Sporting e o campeão do Porto, o Nun' Álvares. Venceram os lisboetas, por claros 5-0, mantendo assim a supremacia do waterpolo sulista no plano nacional.

FC Porto contraria tendência sulista

FC Porto, conquistou para o Norte em 1928
o primeiro título nacional
Porém, no ano seguinte o cenário iria mudar, muito por causa da ação de uma lendária equipa do FC Porto, que entretanto começava a despontar nos jogos realizados no Rio Douro. No dia 30 de setembro de 1928, José Pinto, Luís do Canto Monis, José Sequeira Jr., Florentino Ramalho, Florentino Mota, João Pedro Brenha, António Augusto Antunes e César Machado ascendem à categoria de heróis após derrotarem na sua Cidade os campeões de Lisboa, o Sporting, e oferecerem o primeiro título nacional ao norte do país.
Enquanto isso, na capital continuava a luta pelo controlo da modalidade entre a Federação e a Liga. É também neste ano de 1928 que começa a ser erguida a primeira catedral do polo aquático e da natação em Portugal, isto é, a primeira piscina na verdadeira ascensão da palavra. Trata-se da piscina do Algés e Dafundo, que nos anos que se seguiram tantos e tantos campeões viria a formar... sobretudo na natação, porque o fervor do polo aquático começava a abrandar.

A tentativa frustrada da fusão entre Federação e Liga em Lisboa marcou o ano de 1929. Um ano em que o Sporting (que com esta divisão entre organismos continuava a ser tranquilamente o campeão do regional lisboeta) vingou diante do FC Porto a derrota no ano anterior, recuperando o ceptro nacional após vitória em dia de feriado (5 de outubro) por 2-1.
Depois de um notável fulgor em finais da década anterior que se viria a confirmar na primeira metade dos anos 20, o polo começava a perder notoriedade à medida que se aproximava a década de 30.
E isto numa altura (1930) em que finalmente a sul do país se levantava a bandeira branca em sinal de paz – e concordância – entre Federação e Liga, que ao fundirem-se num só organismo voltaram a trazer tranquilidade e interesse ao Campeonato de Lisboa.

Pela primeira vez o Benfica participou na prova, que seria ganha pelo Algés, que no encontro decisivo derrotou o velho inimigo de Alvalade por 2-1. Sem rival a norte, o Algés sagrar-se-ia novamente campeão nacional.
É a partir deste ano que muitos clubes começam a ignorar o polo aquático, a abandonar os campeonatos regionais e consequentemente os nacionais, e a modalidade perde expressão. Desde logo popularidade, já que órfão de jogos (com interesse) o público começa a afastar-se. A própria comunicação social começa a ignorar o polo aquático que a partir daqui atravessa uma longa travessia no deserto no que a campeonatos nacionais diz respeito, pese embora em 1952 a nossa seleção tenha atingido o seu momento de glória no âmbito desta modalidade: a presença nos Jogos Olímpicos.
Só nos finais dos anos 70, o polo aquático voltaria a ganhar algum dinamismo em termos nacionais, com o regresso dos campeonatos nacionais, em 1985, mas sem o fulgor da Golden Era dos anos 20.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Flashes Biográficos (1)... Dário Canas

DÁRIO CANAS (Tiro): Iniciamos hoje uma nova rubrica no Museu Virtual do Desporto Português, onde na qual, e de forma breve, se pretende traçar o registo biográfico dos nomes que fizeram - ou fazem - parte da história desportiva de Portugal. A partida é dada com uma figura do tiro, uma ilustre figura, melhor dizendo, não só pelo seu trajeto desportivo na modalidade como de igual modo pelo relevo alcançado nas áreas da política e do associativismo vida política e social. Dário Canas é o nome deste cidadão nascido em Lisboa na década de 80 do século XIX - mais concretamente a 29 de fevereiro de 1884 - que no início do século seguinte se viria a revelar como um dos mais virtuosos atiradores nacionais, talento que o iria levar em duas ocasiões ao palco principal do desporto global, o mesmo será dizer, os Jogos Olímpicos. Dário Canas é também um nome mítico de um dos emblemas mais antigos de Portugal, o Ginásio Clube Português (GCP), fundado em 1875. Clube eclético e dinâmico que em 1902 organizou uma das primeiras grandes competições de tiro no nosso país, a I Cruzada de Tiro Nacional, que viria a consagrar Canas como o primeiro civil a conquistar o diploma de atirador de 1ª classe. Empresário agrícola de profissão, Dário Canas viu-lhe ser reconhecida a sua mestria de exímio atirador no verão de 1920, altura em que integra a delegação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Juntamente com Hermínio Rebelo, António dos Santos, António Andréa Ferreira, António da Silva Martins e António Montez ele foi um dos atletas que compôs a equipa nacional de tiro que pela primeira vez levou a modalidade a uma Olimpíada. Facto que o fez entrar, uma vez mais, para a história do GCP, já que ao lado de Frederico Paredes, João Sasseti, Jorge Paiva e Henrique da Silveira (todos atletas de esgrima) levou pela primeira vez o nome deste clube aos Jogos. Na cidade dos diamantes, como é mundialmente conhecida Antuérpia, Canas participou em cinco disciplinas de tiro, nomeadamente na de Carabina 300 a 600 metros por equipas, onde obteve um 11º lugar num total de 14 nações participantes; na de Carabina 300 metros Deitado também por equipas, não indo além do 15º e último lugar da classificação final; na de Carabina 300 metros de Pé novamente em equipas em que foi 11º posicionado num total de 15 combinados; na disciplina de Carabina 600 metros Deitado por equipas onde não foi além de um 14º e último lugar na geral; e na prova coletiva de Revólver a 30 metros, em que se quedou pelo 8º e último lugar da classificação geral. Não foi, como os resultados indicam, uma prestação brilhante da equipa nacional, valendo, no entanto, o facto de ter competido com os melhores atiradores do planeta daquela época. Quatros anos volvidos a equipa nacional de tiro voltou aos Jogos, desta feita realizados em Paris, tendo Dário Canas integrado o leque de exímios atiradores portugueses. Na Cidade Luz participou apenas em duas provas, sendo que em uma delas atuou de forma individual, a sua única aparição olímpica na variante singular, em que alcançou o 61º posto na prova de arma livre. Na mesma disciplina mas na variante coletiva foi 17º num total de 18 equipas.
A sua ligação ao desporto, e ao tiro em particular, estendeu-se ao dirigismo associativo. Entre 1932 e 1937 foi membro do Comité Olímpico Português, tendo ainda desempenhado funções de presidente da Federação Nacional de Tiro e vice-presidente do GCP. Noutros campos o seu nome fica ligado à atividade agrícola, onde na qual foi um dedicado e vincado empresário, tendo em 1952 sido co-fundador da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Leite, da qual foi presidente de Direção e da Assembleia Geral. Neste mesmo ano fundou ainda a Companhia Agrícola de Compra e Venda de Loures, município este onde na área política entre 1933 e 1949 desempenhou funções de presidente da Câmara Municipal. Ainda no plano político - outra área onde se destacou - foi membro da Assembleia da República na I e na II Lesgislatura (entre 1935 e 1942) tendo como área de intervenção a Educação Física e Desportos, ficando aqui célebre pelo facto de ter ajudado à reorganização da Educação Física no ensino secundário. Faleceu a 3 de junho de 1966.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Os "6 mosqueteiros" de Amesterdão

Se em 1924 contaram-se os tostões para levar uma delegação portuguesa aos Jogos Olímpicos, em 1928 houve fartura - monetária, pois claro - para alimentar os atletas lusos no seio da maior competição desportiva do planeta. Em Amesterdão - cidade onde decorreram as Olimpíadas de 28 - Portugal fez-se representar por um total de 29 desportistas, oriundos de 8 modalidades diferentes, entre as quais a esgrima, que procurava a merecida coroação internacional para a geração dourada da esgrima lusitana.

Quase todos militares de profissão os talentosos esgrimistas nacionais haviam estado muito perto de alcançar uma medalha nas duas edições anteriores dos Jogos, em 1920 (Antuérpia) e 1924 (Paris), tendo em ambas ficado... no quarto lugar, a um pequeno passo da medalha de bronze!

Com arte, engenho e sobretudo muita experiência acumulada os portugueses partiram para Amesterdão com a ambição de conquistar a tão sonhada medalha olímpica, e ali chegados não desiludiram quem neles apostou, tendo alcançado - novamente - a final na prova de espadas por equipas, sendo derrotada pela França (7-9) e pela Itália (6-9). Mas, desta feita, e contrariamente às duas edições anteriores, a competição foi desenrolada em sistema de poule, tendo o triunfo sobre a Bélgica (8/20 toques - 8/21 toques) feito com que os portugueses conquistassem, finalmente, a medalha olímpica, neste caso concreto, a medalha de bronze (a Itália ficou com o ouro e a França com a prata), facto que assinala - até hoje - o momento mais alto da esgrima portuguesa.

Para sempre ficarão pois gravados a letras de ouro os nomes dos seis mosqueteiros que subiram ao 3º lugar do pódio olímpico nesse memorável ano de 1928: Paulo d'Eça Leal, Mário Noronha, Jorge Paiva, Henrique Silveira, Frederico Paredes, e João Sasseti. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

As voltas da primeira... Volta

Em 2013 assinala-se a 75ª edição da prova rainha do ciclismo português: a Volta a Portugal em Bicicleta. É nos dias de hoje um dos eventos desportivos mais mediáticos da nação lusitana, agregando ao seu redor milhares de populares que todos os anos inundam as estradas nacionais na ânsia de vibrar com as pedaladas dos heróis velocipédicos. Um cenário que se vislumbra desde 1927, o ano em que tudo começou, o ano em que nasceu oficialmente a Volta a Portugal em Bicicleta.

A popularidade grangeada pelo ciclismo em Portugal remonta, no entanto, a algumas décadas antes do ano em que a Volta viu a luz do dia. Já em finais do século XIX a modalidade era bastante apreciada pelos portugueses, talvez devido ao facto de um dos primeiros grandes nomes do ciclismo internacional ter sangue lusitano. José Bento Pessoa, de seu nome, nascido na Figueira da Foz, em 1874, e que em maio de 1897 entrava para os anais da história após ter batido o recorde mundial de pista dos 500m numa prova internacional ocorrida durante a inauguração do velódromo de Chamartin, em Madrid. Este e outros feitos do atleta figueirense ganharam eco no nosso país, e já em pleno século XX surgiam com grande frequência provas de ciclismo em solo lusitano. O primeiro grande evento foi quiçá o Porto-Lisboa, que conheceu a sua primeira edição em 1911, ganha pelo francês Charles George, na época corredor do Louletano.

E precisamente de França chegavam histórias da grande corrida que anualmente concentrava as atenções do povo gaulês, o Tour, certame que reunia os melhores corredores do Mundo, e que na altura muitos dos filósofos desportivos diziam ser já o segundo maior evento desportivo do planeta, logo a seguir aos Jogos Olímpicos!
Perante estes e outros factos foi com naturalidade que surgiu a ideia de criar uma grande prova de ciclismo que tocasse os quatro cantos de Portugal, à semelhança do que se fazia em França.
Quanto ao pai da ideia ainda hoje a dúvida persiste quanto ao seu nome. Para muitos historiadores do ciclismo o jornalista Raúl de Oliveira foi o mentor da Volta. Na época a trabalhar no (jornal) Sport de Lisboa Oliveira deslocou-se em 1917 até França, integrado no Regimento de Transmissões que partiu para a I Guerra Mundial. Enquanto permaneceu em território francês maravilhou-se com o Tour, que acompanhou de perto, e na hora de regressar a Portugal lançou para o ar a ideia de criar uma prova semelhante por estas bandas. Para outros historiadores Raúl Oliveira foi apenas um dos três Oliveiras que esteve na génese da Volta a Portugal. Nesta segunda versão um homem do futebol é tido como o mentor da ideia, Cândido de Oliveira, de seu nome, enquanto Raúl de Oliveira e Mário de Oliveira - estes três homens para além do apelido tinham em comum o facto de serem jornalistas - são apontados como os concretrizadores da ideia de mestre Cândido. Bom, progenitores da ideia à parte o que é certo é que edificar a Volta a Portugal não foi uma tarefa fácil. Raúl de Oliveira, que quando regressou a Portugal foi chefiar a redação de Os Sports, pertença do Diário de Notícias, insistiu que o seu jornal deveria organizar uma competição semelhante ao Tour de França. Vendo a sua sugestão cair por diversas ocasiões em saco roto, decide ele próprio aplicar o prémio da lotaria que havia ganho na organização de uma prova velocipédica, bem mais modesta e pequena que o Tour, é certo, mas que haveria de mudar mentalidades!

Corria então o ano de 1923 quando Raúl de Oliveira criou a 1ª Volta a Lisboa, certame que seria coroado de êxito. Perante isto o administrador do Diário de Notícias, Beirão da Veiga, ficou finalmente convencido quanto à hipótese de ser organizada - pelo seu jornal - uma prova semelhante ao Tour francês, e assim em 1927 ia para a estrada a 1ª Volta a Portugal em Bicicleta.

A Volta a Portugal sai para a estrada

País pobre, Portugal não reunia na época as melhores condições para a realização de uma prova de estrada de longa duração como a que se pretendia erguer. As ligações entre as cidades eram paupérrimas, estradas de terra batida, muitas delas sem condições para circular um carro de bois quanto mais uma bicicleta. Mesmo assim a 26 de abril de 1927 os 38 ciclistas participantes fazem-se à estrada para dar início a uma longa aventura.

Com 18 etapas traçadas a prova teve início e fim em Lisboa, e desde cedo se assistiu a um emocionante duelo entre dois dos melhores corredores da época, António Augusto de Carvalho (que defendia as cores do Carcavelos) e Quirino de Oliveira (do Campo de Ourique). Este último ciclista venceu a etapa inaugural, que ligou Cacilhas a Setúbal, numa distância de 40,4km (a etapa mais pequena da Volta de 1927). A etapa seguinte - Setúbal-Sines (114,6 km) - seria ganha por Augusto de Carvalho, que assim retirava a camisola amarela ao seu rival do Campo de Ourique. Porém, Quirino de Oliveira estava numa forma estupenda, tendo vencido as seis etapas posteriores - Sines-Odemira (49,2km), Odemira-Portimão (86,2km), Portimão-Faro (65,8km), Faro-Beja (154,7km), Beja-Évora (82,2km), e Évora-Portalegre (122,3km) - e reconquistado assim a camisola mais desejada da prova.

E desta forma se manteve até ao momento em que o azar lhe bateu à porta. Antes, na 9ª etapa, que ligou Portalegre a Castelo Branco (numa tirada de 106,6km), o benfiquista Santos Almeida intrometeu-se na luta entre Carvalho e Quirino, ao cortar a meta em primeiro na chegada à capital da Beira Baixa. Na etapa seguinte, que ligou Castelo Branco à Guarda (112,9km), na qual foram experimentados os duros obstáculos da Serra da Estrela, Quirino de Oliveira sofreu um revés ao ficar sem o selim da sua bicicleta, galgando quilómetros e quilómetros (em subidas e descidas!) somente apoiado nos pedais! Tarefa heróica que seria premiada com mais uma vitória de etapa e mais do que isso Quirino continuava de amarelo. Poucos duvidariam que a mágica camisola pudesse fugir ao corredor do Campo de Ourique. Mas o azar teimava em acompanha-lo no percurso que muitos apontavam como vitorioso.

Na 11ª etapa, que ligou Guarda a Torre de Moncorvo (106,2km) o líder da prova tem uma queda aparatosa, facto que não só o impede de vencer mais uma etapa (da qual Santos Almeida saíria de novo vencedor) mas sobretudo porque o faz perder a camisola amarela para o seu principal rival, Augusto de Carvalho.
Antes do primeiro dia de descanso o ciclista do Carcavelos cimentou a sua liderança ao vencer as 12ª e 13ª etapas, respetivamente Torre de Moncorvo-Bragança (128,3km), e Bragança-Vidago (118,2km).

Após a 14ª etapa, que ligou Vidago a Braga (115,1km), ganha pelo camisola amarela, Quirino de Oliveira como que disse definitivamente adeus à vitória na Volta. Na 15ª etapa, entre Braga e Porto, numa distância de 113,7km, o ciclista do Campo de Ourique perdeu imenso tempo, e o braço de ferro pela vitória na prova passou protagonizado por Augusto de Carvalho e... Nunes Abreu. O ciclista do Leixões não só venceu a etapa cujo final ocorreu na cidade do Porto como também passou a envergar a... camisola amarela. Isto porque o azar voltava a bater à porta dos líderes, e depois de Qurino de Oliveira o ter sentido na pele na 11ª etapa foi agora a vez de Augusto de Carvalho provar do seu veneno.

Na ligação entre Braga e o Porto o corredor do Carcavelos teve uma avaria na sua bicicleta, perdendo desde logo imenso tempo, e mais teria perdido não fosse um popular que se encontrava na berma da estrada ver os corredores passarem ceder-lhe a sua pasteleira que o possibilitaria de concluir a etapa!
O reinado de Nunes Abreu seria muito curto, já que na tirada seguinte (Porto-Coimbra, numa distância de 117,2km) António Augusto de Carvalho recuperou o 1º lugar da classificação geral, não mais o largando até à etapa final, que ligou Caldas da Rainha a Lisboa (100km).

À chegada a Lisboa os corredores foram recebidos como heróis por um mar de gente que inundava a Avenida da Liberdade, onde a meta havia sido instalada. Levado em ombros pela multidão António Augusto de Carvalho (natural de Sintra) seria então coroado como o primeiro rei da Volta a Portugal em Bicicleta.

Legenda das fotografias:
1-António Augusto de Carvalho, o vencedor da 1ª Volta a Portugal em Bicicleta
2-O corredor nascido em Sintra (aqui levado em ombros pelos populares) terminou a prova com o tempo total de 79h08m00s, mais 9 minutos e 31 segundos que o 2º classificado, Nunes de Abreu
3-Os três primeiros classificados (da esquerda para a direita): Quirino de Oliveira, Augusto de Carvalho, e Nunes de Abreu. 38 ciclistas participaram nesta edição inaugural da Volta, mas apenas 26 terminaram a prova!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A atribulada conquista da primeira medalha olímpica

Foi nos "braços" da deslumbrante Paris que Portugal sentiu pela primeira vez o perfume de uma medalha olímpica. 1924 foi ano desse momento mágico do desporto lusitano, o ano em que um grupo formado por cavaleiros do exercito e cavaleiros civis conquistou então para o nosso país a primeira medalha no seio daquele que era já considerado por muitos como o maior evento desportivo do planeta: os Jogos Olímpicos.

Mas como é apanágio da nação portuguesa este foi um feito que esteve longe de ser alcançado com tranquilidade, digamos assim. Na entrada para os anos 20 do século passado Portugal vivia mergulhado numa grave recessão económica - onde é que já ouvimos isto! -, a moeda desvalorizava a pique ao mesmo tempo que o número de pedintes disparava como uma flecha nas artérias das principais urbes da nação. Cenário arrepiante que não impedia o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Pontes, de sonhar em levar a missão lusitana ao grande palco de desporto mundial.

Não foi contudo uma tarefa fácil, até porque o país estava de bolsos vazios, e a maior parte dos governantes não via com bons olhos dispensar os poucos recursos que dispunha para custear a deslocação portuguesa a Paris. José Pontes não desistiu, bateu a todas as portas que viu pela frente na tentativa de juntar os 300 contos calculados pelo COP no orçamento para tornar o sonho Paris uma realidade. Pediu "aqui e ali", suplicou a políticos que não virassem a cara ao sonho olímpico português, e do Ministério da Instrução acabou por receber uma ajuda de 110 contos. Não chegava. Fizeram-se peditórios, e a boa vontade do Presidente da República de então, Teixeira Gomes, acabou muito a custo por resolver a questão, ao colocar do seu próprio bolso o dinheiro que faltava para Portugal ir a Paris. Ao contrário do que sucedeu em 1900 Paris acolheu os Jogos Olímpicos com outra atitude, encarando-os de um modo mais sério... e pomposo.

Construíram-se novas infraestruturas, com realce para o magnífico Estádio des Colombes, e a piscina de Tourelles. Pela primeira vez na história do evento era edificada uma aldeia olímpica, um espaço reservado para alojar os atletas participantes. Não foram portanto poupados esforços, e francos (!), para que a bela Paris limpasse a má imagem deixada durante os Jogos Olímpicos de 1900. E Portugal lá estava, de bolsos vazios, mas lá estava, entre os melhores atletas do Mundo. A ambição de elevar o nome da nação bem alto era partilhada pela missão lusitana, onde se viria a destacar um grupo de quatro cavaleiros, constituído pelo capitão Mouzinho de Albuquerque, o tenente Hélder Martins, Anibal Borges de Almeida, e Luís Margaride, quatro nomes que no hipismo haveriam de fazer história. Atribulada,seria no entanto esta façanha, como aliás havia sido a presença lusitana na capital francesa.

Hebraico, o famoso cavalo do melhor cavaleiro português da altura, Mouzinho de Albuquerque, adoecera pouco antes do início dos Jogos, pelo que teve de ser alimentado a açúcar até às vésperas da prova, privando-se da habitual ração que lhe conferia a energia suficiente para vencer os obstáculos. Outro dos cavalos do contingente luso havia sido... emprestado (!) por um abastado e solidário homem português, Reinaldo Pinto Bastos, de seu nome, que em prol da pátria cedeu o seu precioso animal. Mas, mesmo com todas estas adversidades Portugal surpreendeu tudo e todos ao conquistar o 3º lugar na prova de obstáculos.

Entre 50 concorrentes à partida 34 conseguiram terminar a dura prova, e o conjunto luso fê-lo no 3º lugar, com um total de 53 pontos somados, mais três do que a Suíça, ao passo que a Suécia ficou no 1º posto com um total de 42,5 pontos. Com este magnífico resultado Portugal conquistava a MEDALHA DE BRONZE, A SUA PRIMEIRA MEDALHA OLÍMPICA DA HISTÓRIA. E a cor da medalha até podia bem ter sido outra, caso o lendário Hebraico não tivesse adoecido dias antes do início da prova, conforme lamentaria posteriormente o grande cavaleiro português Mouzinho de Albuquerque, um dos artesãos desta inesquecível epopeia lusitana.

(Nota: em cima a histórica fotografia dos conquistadores da não menos histórica medalha de bronze em Paris: da esquerda para a direita: Luís Margaride, Mouzinho de Albuquerque, Manuel Latinos (chefe de equipa), Anibal Borges de Almeida, e Hélder Martins).