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sexta-feira, 17 de março de 2017

Há 40 anos o Sporting rugia mais alto no principal palco do corta mato europeu

Aniceto Simões, Carlos Lopes, Fernando Mamede
e Carlos Cabral seguram a primeira TCE
que viajou para Portugal
Cumpre-se neste ano de 2017 o 40º aniversário da primeira vitória do Sporting na Taça dos Clubes Campeões Europeus de corta mato (no setor masculino). Primeira dos leões e de um clube português, há que sublinhá-lo. Feito ocorrido em Palência (Espanha), no dia 6 de fevereiro de 1977, altura em que quatro leões entraram para a história do atletismo nacional ao conquistarem um até então inédito troféu continental que desde a sua criação (em 1962) havia sido amplamente dominado por equipas belgas e inglesas, com uma ou outra intromissão de combinados alemães e espanhóis. De uma forma mais precisa há que recordar que a Taça dos Campeões Europeus (TCE) de Corta Mato até 1977 havia sido ganha pelos belgas do Liègeois (entre 1970 e 1974), do Saint Gillooise (1964), pelos ingleses do Portsmouth (1965 e 1966), do Derby County (1962 e 1963), do Staffs Stone (1967), pelos alemães do Darmstadt (1969) e pelos espanhóis do Palência (1975 e 1976). No plano individual, Phillipp Lutz, atleta oriundo da então República Federal da Alemanha, era aquele que mais vitórias havia conquistado nesta competição: três (uma ao serviço do Darmstadt e duas com as cores  do Liègeois).
Estatísticas à parte e voltando à efeméride que hoje fazemos eco aqui no Museu, recordamos que a TCE de 77 teve como caminhos a cidade espanhola de Palência, precisamente o berço da equipa que havia vencido as duas edições anteriores e que partia como grande favorita à conquista do tri. Porém, a concorrência falou mais alto, ou neste caso, rugiu mais alto, atendendo a que o Sporting - que participava pela primeira vez na competição - cortou a meta em primeiro. E fê-lo através de um dos maiores atletas portugueses de todos os tempos, por intermédio daquele que é provavelmente o Deus do atletismo luso, Carlos Lopes de seu nome. Juntamente com Fernando Mamede, Aniceto Simões e Carlos Cabral, ele deu vida a uma lendária equipa arquitetada por outro génio da modalidade: professor Mário Moniz Pereira. Equipa que chegou a Palência com 28 títulos de campeão nacional de corta mato no bolso (!) e com legítimas aspirações a trazer pela primeira vez para Portugal o pomposo título. Os leões cedo mostraram esse desejo ao controlarem a prova do princípio ao fim. Carlos Lopes chamou a si de pronto papel de protagonista da corrida, assumindo desde o tiro de partida a liderança, a qual não mais largou até cortar a meta em primeiro lugar. Os restantes atletas leoninos em prova, Fernando Mamede, Aniceto Simões e Carlos Cabral, terminaram a corrida respetivamente nos 6º, 8º e 26º lugares. Para Carlos Lopes este era o segundo título internacional de corta mato consecutivo, já que um ano antes ele havia vencido (com as cores de Portugal) o Campeonato do Mundo que se realizou em Chepstow (País de Gales).

Carlos Lopes
O triunfo do Sporting em Palência abriu portas para uma era gloriosa deste emblema na TCE de corta mato, já que até 1994 os leões conquistariam a prova em mais 13 ocasiões (!), facto que lhes permite liderar a lista de clubes que mais vezes subiram ao trono do corta mato continental, 14 no total (nos anos de 1977, 1979, 1981, 1982, 1983, 1984, 1985, 1986, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993 e 1994), seguido de longe pela equipa espanhola da Adidas (8), dos belgas do Liègeois e dos portugueses do Maratona (ambos com 6).
No plano individual, Carlos Lopes ajudou o Sporting a conquistar metade - ou seja sete - das TCE de corta mato que o clube alberga no seu museu, sendo que em três delas (1977, 1982 e 1985) terminou a prova no primeiro lugar. Também Fernando Mamede esteve em sete dessas conquistas, terminando em 1º lugar por duas ocasiões (1981 e 1983). Já Aniceto Simões participou nas três primeiras conquistas europeias dos lisboetas, alcançando como melhor posição um 7º posto, ao passo que Carlos Cabral somente participou na célebre conquista de 77.
Para terminar, e continuando o rol de memórias estatísticas, há que referir que o atleta que mais ocasiões subiu ao 1º lugar do pódio nesta TCE de corta mato masculino foi Domingos Castro, em cinco ocasiões, sendo aliás o atleta mais titulado no plano individual desta competição que já leva 55 edições.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Tiro certeiro na prata olímpica!

Concentração, apurados conhecimentos técnicos, e claro, uma excelente pontaria, serão três das principais qualidades essenciais a ter em conta num bom atirador. Qualidades que nasceram com Armando Marques, quiçá o melhor atleta português de tiro de todos os tempos, ou pelo menos aquele que em mais ocasiões transformou o seu talento nato no manuseamento de armas em... títulos. Muitos títulos, para sermos mais precisos, sendo que alguns deles fazem parte do livro de ouro do desporto português. Mas já lá chegaremos.

Armando Marques nasceu a 1 de maio de 1937, em Algés, e desde muito novo se deixou encantar pelas armas de caça, muito por influência de seu pai, um apaixonado pela caça. Não foi pois de admirar que aos 9 anos de idade o jovem Armando desse - em jeito de passatempo - os primeiros tiros na companhia do seu progenitor. Mais a sério, e numa altura em que cumpria o serviço militar, participou nas primeiras provas, onde arrecadaria as primeiras medalhas da sua ímpar e gloriosa carreira.
Os títulos - em todas as disciplinas do tiro! - foram-se sucedendo com naturalidade, e seria com igual naturalidade que em 1964 alcançou o sonho de qualquer atleta planetário - seja qual for a modalidade -, o mesmo é dizer, participar nos Jogos Olímpicos. Tóquio, a capital japonesa, acolheu as Olimpíadas de 64, tendo a prestação de Armando Marques ficado um pouco aquém do seu talento e qualidade, já que não foi além de um 18º lugar na especialidade de fosso olímpico. Voltaria ao grande palco do desporto global em 1972, nos Jogos de Munique, onde na mesma especialidade ficou um lugar abaixo do obtido em Tóquio oito anos antes.

Prestações um tanto ao quanto modestas, atendendo ao facto de estavámos perante um atirador de alto gabarito, que terão pesado na altura de Armando Marques (na época atleta do Sporting Clube de Portugal) entrar em cena nos Jogos Olímpicos de 1976, realizados na cidade canadiana de Montreal. Nesta sua terceira aparição olímpica Marques nem sequer era apontado como candidato a ficar entre os 10 primeiros da especialidade de fosso olímpico, não só pelos seus anteriores desempenhos olímpicos mas sobretudo porque entre os 80 participantes figuravam alguns dos nomes mais sonantes do tiro da época, caso do norte-americano Donald Haldeman.

Contudo, no desporto nem sempre a teoria se confirma na prática, e o português Marques alcançou a merecida consagração internacional numa prova que se viria a revelar muito complicada para os atiradores em ação. Tudo porque a prova de fosso olímpico de 76 foi disputada sob condições climatéricas bastante adversas, pautadas por chuvas intensas e ventos fortes, condições essas que se viriam a refletir na performance da esmagadora maioria dos atiradores, inclusive do próprio Haldeman, que na primeira jornada obteve uma paupérrima pontuação de 190 pratos! Perante tais adversidades a luta pelo ouro olímpico foi muito disputada, sendo que para surpresa de todos Armando Marques estava no final da jornada inaugural do fosso olímpico a apenas dois pratos do líder!

O atirador português, que na altura contava com 39 anos de idade, e que profissionalmente dirigia uma casa de pneus, já que o tiro era uma paixão meramente amadora praticada nos tempos livres, entrou com tudo, como se diz na gíria desportiva, para a derradeira jornada da competição, tendo alcançado o segundo lugar do pódio final, ficando a apenas um prato da medalha de ouro (Marques contabilizou um total de 189 pratos), alcançada precisamente pelo norte-americano Donald Haldeman.
A medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 76 foi sem margem para dúvidas um momento de... ouro para o atleta português, que desta forma alcançava o maior feito desportivo da sua longa e rica carreira. Um feito que em Portugal foi festejado efusivamente, sendo até aos dias de hoje a única medalha olímpica conquistada pela nação lusitana no tiro. Armando Marques continuou no ano seguinte com a pontaria afinada, e no Campeonato do Mundo de Tiro, disputado em Antibes, subiu de novo ao pódio, após ter alcançado um novo segundo lugar. Ficava assim comprovado que a medalha olímpica de 76 não havia sido obra do acaso.

Em termos nacionais o atirador apresenta um currículo para lá de impressionante, sendo de destacar os 14 títulos de campeão nacional individual de fosso olímpico (em 1964, 1969, 1970, 1971, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976, 1977, 1978, 1979, 1981, e 1982), 9 ceptros nacionais individuais em prancha (alcançados em 1967, 1968, 1969, 1970, 1973, 1977, 1978, 1979, e 1980), 2 campeonatos nacionais individuais de fosso universal (em 1963, e 1964), 4 campeonatos nacionais individuais de skeet olímpico (em 1969, 1974, 1978, e 1980), 2 Taças de Portugal de tiro em voo (em 1968, e 1978), ou uma Taça de Portugal em prancha (1967). Currículo invejável que lhe valeu algumas condecorações estatais, casos da Medalha de Mérito Desportivo, ou a Ordem de Cavaleiro do Infante.

Legenda das fotografias:
1-Armando Marques com a... pontaria afinada
2-Exibindo a medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos de 1976