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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ENTREVISTA - José Garrido relembra o "dream team" do Sporting que conquistou para Portugal a primeira prova europeia de hóquei patins

José Garrido, com as cores do seu Sporting
Pode ir longe na estrada do tempo, mas jamais irá cair na berma do esquecimento, tal foi a sua importância não só para a história do hóquei em patins português, como do próprio desporto nacional. Falamos da épica caminhada da equipa do Sporting Clube de Portugal na edição de 1976/77 da então Taça dos Clubes Campeões Europeus - hoje denominada de Liga Europeia. Perdão, da equipa do Sporting não, do dream team (equipa de sonho) dos leões de Alvalade, daquela que nos dias de hoje é recordada como a equipa maravilha do hóquei patins... planetário! Não estaremos a exagerar, longe disso. Na realidade esta equipa transportou a modalidade para a dimensão do espetáculo, graças ao virtuosismo individual de jogadores como Sobrinho, Chana, Ramalhete, Júlio Rendeiro, ou o mestre dos mestres, António Livramento. Se de futebol estivéssemos a falar, diríamos que se tratou de uma equipa de galáticos, de autênticos magos do stick e dos patins. Além de interpretar o hóquei em patins com uma qualidade ímpar, aquela lendária equipa do Sporting conquistou um lugar na história por ter sido a primeira a trazer para solo português um troféu continental ao nível de clubes. Já lá vão 37 anos, mas não se esquece, jamais. E porque o Museu Virtual do Desporto Português tem por missão guardar para a eternidade os feitos - e os seus protagonistas - do desporto nacional, eis que recebemos hoje a visita de um ilustre membro da equipa maravilha do Sporting dessa inesquecível época de 76/77. José António Pereira Garrido, ou simplesmente, Garrido, fez, a nosso convite, uma viagem no tempo para recordar - ainda que em breves palavras - os dias de glórias vividos de leão ao peito, e muito em particular a caminhada triunfal na prova rainha do hóquei patinado europeu. O stick é seu Garrido. 

Museu Virtual do Desporto Português (MVDP): Como qualquer história também a do Garrido teve um início...
Garrido (G): ... Sim, a minha história começa quando eu tinha 9 anos de idade, altura em que na rua aprendi a equilibrar-me nos patins que o meu pai me tinha oferecido. Lembro-me que os usava presos a umas galochas (!). Como vivia em Benfica (nota: Garrido é natural de Lisboa, onde nasceu a 8 de janeiro de 1957) dirigi-me à secção de hóquei em patins do Clube Futebol Benfica, o popular Fófó, no sentido de ali, no clube do meu bairro, começar a praticar a modalidade um pouco mais a sério. Para minha grande desilusão fui recusado! Deram-me a justificação de pretenderem integrar miúdos com mais experiência...

MVDP: ... Mas não se deu por vencido logo à primeira...
G: ...Não. Aos 10 anos, acompanhado pelo meu pai, fui treinar ao Sporting, que era, e é, o meu clube. Fiquei, e comecei a treinar naquele mesmo dia. Recordo que o treinador era o Luís Barata, e após dois meses de treinos tornei-me jogador federado. Estive dois anos na equipa de iniciados, e depois de uma época como juvenil passei diretamente para a equipa de juniores. Em todos estes escalões ganhei títulos, quer distritais, quer nacionais. Aliás, foi enquanto atleta júnior que fui chamado à seleção nacional da categoria, tendo sido campeão europeu em dois anos seguidos, em 1975 e em 1976, sendo que o primeiro título foi alcançado em Darmstadt, na Alemanha. João de Brito era o selecionador nacional dessa altura. Um ano mais tarde voltei a ser campeão europeu, desta feita em Barcelos, com Luís Barata na qualidade de selecionador. Em 1977 subir a sénior, integrando aquela que já era a super equipa de hóquei patins daqueles anos.
A célebre equipa do Sporting que em 1977 conquistou de forma brilhante a Europa do hóquei em patins (Garrido é o primeiro jogador da fila de cima a contar da direita para a esquerda)
MVDP: Chegou ao patamar sénior precisamente na época em que o Sporting encantou o planeta do hóquei em patins com a conquista da Taça dos Campeões Europeus, a primeira eurotaça que viajou para Portugal, no que a hóquei patinado diz respeito. É caso para dizer que o Garrido não poderia ter tido melhor estreia no escalão sénior.
G: Sim, em 1977, no meu primeiro ano de sénior, integrei aquela super equipa que a nível nacional ganhou tudo o que havia para ganhar. Posso dizer que encontrei um ambiente fantástico naquele balneário. Tive o prazer de conviver com grandes hoquistas e sobretudo com grandes homens que me ajudaram a formar-me não só como jogador como também como ser humano. Como referiu na pergunta, este primeiro ano de sénior coincidiu com a conquista europeia, a primeira e única da minha carreira - ao nível de clubes - e sem dúvida o título mais saboroso que obtive. Recordo-me, em particular, da inesquecível chegada a Lisboa - no regresso de Espanha, após ter conquistado o título no rinque do Villanueva - onde uma multidão nos esperava.

O duelo na piscina do Voltregá
MVDP: Apesar de aquele Sporting ter uma equipa do outro mundo a caminhada para o título foi dura, como comprova a meia final diante do campeão da Europa em título, o Voltregá.
G: A primeira mão da meia final foi jogada em Espanha, ao ar livre, e à chuva! Nós propusemos jogar quando a chuva abrandasse ou então no dia seguinte, o que não foi aceite pela equipa da casa. A bola praticamente não rolava e nós ficavámos em zonas pontuais - do rinque - prevalecendo o passe.
Perdemos por 5-2. Em Lisboa vencemos por 8-3 diante de um pavilhão cheio. Na final jogámos a primeira mão em Lisboa, e recordo-me que não cabia um alfinete na Nave de Alvalade. Curiosamente, quatro horas antes do início do jogo toda a equipa foi lanchar a uma churrascaria que havia na zona do Campo Grande e o pavilhão já estava lotado! Vencemos por 6-0.
Em Espanha, na segunda mão, o Sporting fez-se acompanhar por muitos adeptos e voltámos a vencer, desta vez por 6-3, depois de entrarmos a perder por 0-2.
Nesse jogo, o Livramento, o Chana, e o Ramalhete fizeram um jogo brilhante, ao ponto de os próprios adeptos espanhóis nos aplaudirem de pé no final.

Garrido, na atualidade
MVDP: Por falar em António Livramento, o que recorda dessa lenda do hóquei em patins mundial?
G: Não existem palavras para descrever o António Livramento, o melhor jogador do Mundo de todos os tempos. Era acima de tudo um grande ser humano, e mesmo sabendo que era o melhor hoquista do planeta mantinha-se humilde, e sempre pronto para ajudar os colegas. Ainda em relação aquela grande equipa do Sporting não posso deixar de salientar dois outros grandes nomes do clube. O primeiro, o nosso treinador, o Torcato Ferreira, e o segundo um grande senhor, um grande presidente, o senhor João Rocha, que nos levou a alcançar todos esses feitos.

MDVP: Para terminar esta breve visita ao Museu Virtual do Desporto Português, continua ligado à modalidade?
G: Depois de sair do Sporting defendi as cores do Belenenses, Sesimbra, Sanjoanense, e o Campo de Ourique, onde dei por encerrada a minha carreira. Hoje, continuo a jogar ao nível de veteranos, só para matar saudades dos velhos tempos.

VÍDEO: VILlANUEVA - SPORTING (2ª mão da final da Taça dos Campeões Europeus de 1977)
                                     

terça-feira, 8 de julho de 2014

Nicolau e Trindade, os mestres na arte de pedalar que deram vida à rivalidade entre Benfica e Sporting

José Maria Nicolau (Benfica)
e Alfredo Trindade (Sporting)
Nasceu dentro de um campo de futebol mas foi graças ao ciclismo que atingiu a gigantesca dimensão patenteada nos dias de hoje. Esta é uma visão sustentada por muitos historiadores desportivos lusitanos, para quem a eterna, intensa, e apaixonante rivalidade entre Benfica e Sporting viu a luz do dia graças às corridas de bicicletas travadas nos princípios da década de 30 do século passado, muito por culpa de duas das maiores figuras do ciclismo nacional, Alfredo Trindade e José Maria Nicolau. Ambos naturais do Cartaxo eles edificaram nas estradas - quase medievais - do Portugal de então duelos intensos e apaixonantes, duelos que chegariam ao patamar do misticismo do desporto nacional, duelos que levaram os nomes de Benfica e Sporting aos cantos mais escondidos do país. Eles foram os heróis de uma época em que as grandes festas desportivas - ou os grandes eventos - eram quase um exclusivo das grandes cidades - Lisboa, Porto, ou Coimbra - deixando as pequenas povoações - sobretudo as do interior - órfãs da emoção e entusiasmo que o fenómeno desportivo emana. E aqui há pois que fazer uma vénia ao ciclismo, a modalidade responsável por levar a festa do desporto, as emoções do desporto, aos recantos mais longínquos daquele Portugal de início de século. A chegada de uma corrida velocipédica a uma qualquer aldeia ou vila do interior dava quase aso a honras de feriado municipal! O ciclismo galvanizava o povo, que apinhava as bermas das estradas por onde a caravana serpenteasse, na ânsia de ver os heróis do pedal. Nicolau e Trindade foram durante anos as personagens principais desta onda de entusiasmo, foram eles os responsáveis pelo crescimento - em termos de adeptos - de Benfica e Sporting um pouco por todo o território nacional, e na opinião de muitos a popularização - como hoje a conhecemos - do dérbi eterno a eles se deve.

O baixinho e franzino Trindade
e o gigante e robusto Nicolau
Mais do que rivais, mais do que astros na arte de pedalar, eles eram sobretudo amigos, grandes amigos. Nasceram, como vimos, no mesmo concelho, o Cartaxo, no ano de 1908, separados apenas por nove meses de diferença. Apesar de mais velho que o seu conterrâneo, Trindade (que nasceu no dia 3 de janeiro) abraçou o ciclismo depois de Nicolau (que veio ao Mundo a 15 de outubro). José Maria Nicolau iniciou a sua aventura velocipédia em 1928 - curiosamente um ano depois da ocorrência da primeira edição da Volta a Portugal - no Carcavelinhos, ao passo que Trindade começou a correr em 1931 na pequena coletividade lisboeta do União do Rio de Janeiro (com sede no Bairro Alto). Apesar de terem semelhanças ao nível de berço, de Bilhete de Identidade, e de terem sido ambos talentos natos na arte de pedalar, Trindade e Nicolau eram a antítese um do outro em termos de estrutura física. O primeiro era baixinho, franzino, ao passo que o segundo era alto, robusto, uma força da natureza. Nada que os impedisse, cada um à sua maneira, de escrever algumas das páginas mais deslumbrantes da história do ciclismo nacional, sobretudo na prova rainha do calendário velocipédico português, a Volta a Portugal.

Uma das muitas batalhas épicas travadas
entre os dois ciclistas com
as camisolas dos emblemas da capital
O primeiro duelo mítico entre os dois lendários corredores aconteceu na segunda edição da Volta, em 1931. Na altura, Nicolau vestia já a camisola do Benfica, clube para o qual havia entrado dois anos antes, ao passo que Trindade - como já vimos - fazia a sua estreia na alta roda do ciclismo nacional com as cores do União do Rio de Janeiro. Eles seriam os protagonistas de um pelotão composto por 29 corredores que no dia 6 de setembro desse ano partiu desde a Cova da Piedade até Setúbal numa tirada de 40km, a qual seria ganha pelo ciclista do Benfica. Ao longo da prova a robustez física e coragem infindável de Nicolau travou acesos e épicos duelos com a frágil mas batalhadora figura de Trindade, discutindo taco a taco a vitória na Volta até à última etapa, que ligou as Caldas da Rainha ao Estoril. Ali, a nação benfiquista entrou em delírio, graças à vitória final de Nicolau (vencedor de sete etapas nesta edição), que assim vencia a primeira Volta a Portugal da sua nobre carreira, com uma vantagem de 29 segundos sobre o amigo e rival Trindade - que seria segundo posicionado - na classificação geral.

Rivais, mas amigos, tanto na estrada
como na vida
Um ano depois deu-se a desforra, Trindade venceu a Volta. Ainda com as cores do clube do Bairro Alto o pequeno, mas endiabrado, ciclista levou a melhor sobre o seu eterno rival por apenas três segundos de diferença. 56 ciclistas voltaram a partir da Cova da Piedade rumo a Setúbal numa primeira etapa onde logo se viu que a discussão pela vitória final iria ser entre Trindade e Nicolau. Ao longo das 19 etapas o duelo entre ambos animou uma corrida que pela primeira vez ultrapassou as fronteiras do território nacional, ao efetuar uma passagem por Vigo, onde Alfredo Trindade conquistava uma das suas quatro vitórias de etapa alcançadas ao longo da Volta de 32. José Maria Nicolau ainda vestiu da amarelo até à sétima etapa, vindo a perder - até final - a camisola mais desejada da corrida para Trindade na tirada número oito, que ligou Elvas a Castelo Branco. Rezam as crónicas que o triunfo final de Trindade se ficou a dever ao azar extremo de Nicolau. Uma queda do ciclista do Benfica na etapa número nove, que ligou Castelo Branco a Viseu, fê-lo perder terreno para o corredor do União do Rio de Janeiro, que concluiu essa tirada com 17 minutos de vantagem sobre o seu conterrâneo. Porém, a garra e determinação de Nicolau viriam ao de cima nas etapas seguintes, tendo o corredor recuperado algum tempo no decorrer da prova, fruto de algumas vitórias em etapas (conquistou 11 triunfos nas 19 etapas da Volta de 32). Porém, e como diz o velho ditado, um azar nunca vem só, e na etapa final (que ligou o Bombarral a Lisboa), com a Volta ao rubro no que toca à incógnita quanto ao seu vencedor, uma nova queda de José Maria Nicolau desfez as dúvidas quanto ao campeão, e mesmo ganhando essa derradeira etapa o corredor do Benfica não conseguiu anular os três segundos de desvantagem em relação a Alfredo Trindade, que assim vencia a primeira Volta a Portugal da sua carreira.

Nicolau e Trindade posam
para a fotografia junto de uma
das grandes divas do cinema
lusitano: Beatriz Costa
Já com a camisola do Sporting como manto sagrado Alfredo Trindade tornou-se - no ano seguinte - no primeiro ciclista a bisar naquela que era já a prova rainha do ciclismo português. A Volta de 1933 foi talvez aquela em que a luta acérrima entre os dois ciclistas menos se fez notar, já que logo na segunda etapa - que ligou Lisboa a Santarém - Nicolau adoeceu e foi forçado a desistir, estendendo desta forma a passadeira ao pequeno corredor do Sporting (vencedor de oito etapas nesta edição), o qual iria terminar a prova no primeiro posto com uma vantagem abismal de 44 minutos (!) sobre o segundo colocado, o seu companheiro de equipa Ezequiel Lino.
Na Volta do ano seguinte os papéis inverteram-se, ou seja, o azar bateu à porta de Trindade, forçado a abandonar a corrida na terceira etapa (Faro-Évora) após uma aparatosa queda que o iria levar ao hospital. Sem adversários capazes de travar a sua genialidade, Nicolau ficou à vontade para conquistar a sua segunda Volta a Portugal, terminando a última etapa com uma vantagem de 18 minutos na classificação geral sobre o sportinguista Ezequiel Lino.
Este seria o derradeiro capítulo da mítica dupla no seio da Volta a Portugal, embora na edição de 1935 tivessem ambos integrado o pelotão na partida da Cova da Piedade, acabando os dois por desistir no decorrer da prova. Contudo, a empolgante fábula de Trindade e Nicolau não se resumiu à prova rainha do ciclismo luso, muito pelo contrário. Clássicas como Porto-Lisboa, Porto-Vigo, ou Lisboa-Coimbra, testemunharam emocionantes capítulos da génese do fervoroso dérbi Benfica-Sporting.
Abandonaram ambos as lides do ciclismo - enquanto praticantes - no final da década de 30, tendo ambos enverdado posteriormente pela carreira de treinadores. Facto curioso é que o leão Trindade era o treinador do Benfica quando o maior mito da história do clube - no que concerne a ciclismo - faleceu na sequência de um acidente de viação, em agosto de 1969. Oito anos mais tarde foi a vez de Trindade pedalar rumo à eternidade, onde por certo continua a travar apaixonantes duelos com o seu amigo Nicolau.

Vídeo: EXCERTO DO DOCUMENTÁRIO: 
ALFREDO TRINDADE VS JOSÉ MARIA NICOLAU

quinta-feira, 28 de março de 2013

O "doutor" das damas lusitanas

Modalidade de cariz intlectual, o jogo das damas tem - em Portugal - atraído a si um elevado número de praticantes, que nas décadas mais recentes colocaram este jogo de tabuleiro em altos patamares de popularidade. Têm sido pois muitas as competições ocorridas em solo lusitano, onde largas dezenas de jogadores vindos dos quatro cantos do país travam entre si emocionantes e intensos duelos, mas um desses damistas tem-se destacado entre os demais.  
No mundo das damas é tratado por “doutor”, uma designação que o próprio desconhece a razão de existir, mas que ao olharmos de relance para o seu rico e extenso palmarés se fica facilmente a perceber o porquê da atribuição de um título tão pomposo. Vaz Vieira, ou melhor, “doutor” Vaz Vieira, assim é que é, considerado de forma unânime no “planeta” das damas como o melhor jogador português de todos os tempos. Com ele cruzei-me há tempos num dos muitos opens que já leva na sua longa e gloriosa carreira, e numa breve troca de palavras pude ficar a conhecer ao pormenor o historial desta lenda - já ganhou por direito próprio esse estatuto - nascida há 69 anos (no ano de 1943) em Guimarães, mas que de há umas décadas a esta parte faz de Coimbra o seu lar. 

No desfiar da nossa conversa recordou o passado, o seu passado glorioso ao serviço de uma modalidade pela qual se apaixonou ainda menino, numa altura em que os lares portugueses estavam ainda despidos das novas tecnologias – com a televisão e os computadores à cabeça – e como tal os serões em família eram passados com a saudável e alegre disputa de jogos tradicionais, como o rami, o abafa, o xadrez, ou as damas. A modalidade que o tornou célebre foi-lhe apresentada pelo pai, também eles um grande jogador, o pai que o fazia chorar sempre que o vencia, e logo depois o espicaçava com o seu triunfo. Mas como em tudo na vida Vaz Vieira é uma pessoa persistente, foi aprimorando a sua técnica mental de jogo, e chegou a uma altura em que o próprio progenitor já não o vencia. 

Ainda deambulando pelo passado viajou até Moçambique, onde viveu grande parte da infância, junto dos seus pais, e onde vivenciou outra paixão desportiva, o futebol. Ao serviço do Benfica de Lourenço Marques foi mesmo campeão provincial, tendo mais tarde aquando da sua vinda para a metrópole integrado a equipa de juvenis da Académica de Coimbra, onde foi treinado pelo lendário mestre José Maria Pedroto. Por Coimbra ficou. Estudou na mítica universidade da cidade do Mondego, a mesma universidade onde desenvolveu a sua carreira de docente, e orientador de estágios. Em Coimbra casou, sem nunca esquecer a paixão de infância pelas damas, aliada à paixão entretanto travada com a Briosa.

Nas damas tornou-se então o campeão dos campeões. Ao longo de décadas somou títulos atrás de títulos. 
Venceu 10 campeonatos nacionais seguidos, ao que se seguiu uma paragem de outra dezena de anos por motivos de saúde, e quando voltou novamente à ação foi de novo campeão! Detém um impressionante registo - até à data - de 86 vitórias em opens nacionais, número que nenhum outro damista se atreveu sequer a ameaçar. 
No plano associativo foi um dos fundadores da Federação Portuguesa de Damas, em 1980, onde hoje assume a função de presidente da mesa da Assembleia Geral. Do seu currículo constam ainda dois pomposos títulos de campeão do Mundo de damas clássicas, e muitos outros títulos conquistados em épocas em que a federação ainda não havia visto a luz do dia.

Impressionante, de facto. O segredo deste sucesso? Responde que é o trabalho, aliado ao gosto pela modalidade, de jogar somente pelo prazer, pelo prazer de jogar e não jogar pelo prazer de ganhar. 
Para si as damas são um desporto de grande beleza, nas suas palavras poucos jogos haverão com a beleza deste, capaz de proporcionar combinações fantásticas, um jogo onde se podem construir problemas com muito poucas peças, e problemas com muitas pedras e com dificuldade extrema. 
O fim da carreira ainda bem longe, pois continua enamorado por este jogo, deixando os títulos e as vitórias de lado, até porque há muito que já não é isso que o motiva a continuar.

Vídeo: Mestre Vaz Vieira durante um jogo 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O pai do surf português

Geograficamente presenteado com mais de 1200 km de costa marítima, Portugal cedo tirou proveito desta riqueza natural para se evidenciar nas modalidades desportivas praticadas em alto mar, com realce para a vela, sendo que nunca é por demais recordar que em 1856 foi fundado pelo rei D. Pedro V o primeiro clube da Península Ibérica dedicado às regatas. Vela que com o passar dos anos haveria de tornar-se - como temos vindo a fazer eco em anteriores visitas ao Museu Virtual do Desporto Português - num autêntico alfobre de campeões... campeões da Europa, do Mundo, e Olímpicos!
Mas nem só para a prática de vela o extenso mar lusitano tem sido aproveitado. Outra modalidade bem popular em terras lusas é o surf, um desporto - radical - de enorme espetacularidade onde Portugal tem colecionado alguns brilharetes, não tantos como na vela, é certo, mas que enche naturalmente de orgulho esta nação à beira mal plantada. E a história do surf português cruza-se inevitavelmente com a de Pedro Martins de Lima, um homem que muitos consideram o pai do surf português.

Oriundo de uma família de cavaleiros Pedro Martins de Lima veio ao Mundo a 14 de setembro de 1930, não sendo de estranhar que os seus primeiros passos no desporto tivessem sido dados no hipismo, modalidade que começou a praticar com apenas 6 anos de idade. Não muito tempo mais tarde deixou-se encantar pelos fascínios do mar, interessando-se pela vela, e pela pesca submarina, última modalidade esta que entretanto começa a praticar. No limiar da primeira metade do século XX descobre então uma das paixões da sua vida, o surf. Estavamos em 1946, uma época em que a modalidade de origens havaianas era totalmente, sim, é verdade (!), desconhecida num Portugal que durante séculos e séculos viu nascer centenas de aventureiros do mar. Face à inexistência de material essencial à prática da modalidade em Portugal, Martins de Lima iniciou o seu legado de rei dos mares lusitanos com a prática de bodyboard, usando para o efeito uma prancha rudimentar e umas barbatanas que um amigo lhe trouxera do estrangeiro.

Até que em 1959 consegue finalmente adquirir uma prancha de surf, para posteriormente se lançar ao mar. Sem companhia nesta aventura ele cimentou no nosso país uma modalidade que hoje em dia agrega em si milhares de praticantes. Mas nem sempre foi assim. No início Pedro Martins de Lima recorda - em inúmeras entrevistas dadas nos tempos mais recentes - que «naquele tempo era preciso ter coragem para surfar ondas grandes, mas também para enfrentar as consequências. Cheguei a ser preso por entrar no mar revolto. Os cabos-de-mar prendiam-me, mas os banheiros intercediam a meu favor porque já tinha salvo muita gente no mar. Era um país de marinheiros que não sabiam nadar»!!!
A bravura e insistência do surfista furou inúmeras ondas de resistência, e se o surf é hoje em dia uma das modalidades mais praticadas em Portugal a ele o deve, ao pai do surf nacional.

Vídeo: REPORTAGEM COM PEDRO MARTINS DE LIMA 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

"Cheira bem... cheira a Lisboa!»

"Cheira bem... cheira a Lisboa", popular canção alfacinha entoada habitualmente nas marchas populares de Santo António que dão um colorido diferente à capital portuguesa todos os anos durante o mês de junho foi igualmente interpretada durante anos a fio nos pavilhões lusitanos onde atuava aquele que é considerado por muitos como o maior basquetebolista português de todos os tempos: Carlos Lisboa. "Cheira bem... cheira a Lisboa" era pois uma espécie de tributo a um homem que após a sua entrada em cena catapultou o basket lusitano para níveis nunca dantes alcançados, níveis não só de espetacularidade mas sobretudo de interpretação técnico-tática de uma modalidade cujo número de entusiastas e praticantes em Portugal aumentou, e de que maneira, após a sua chegada às quadras.

Carlos Humberto Lehmann de Almeida Benholiel Lisboa Santos, de seu nome completo, nasceu a 23 de julho de 1958 na Cidade da Praia, em Cabo Verde, na época colónia portuguesa, tendo aos três anos de idade mudado para outra das colónias africanas que por aqueles dias estavam sob a tutela de Portugal, neste caso Moçambique. Ali, o jovem Carlos travou conhecimento com aquela que viria a ser uma das grandes paixões da sua vida, o basquetebol. Reza a lenda que enquanto criança dormia com uma bola de basquetebol debaixo da sua cama, sendo que todos os dias a primeira ação que fazia assim que acordava era pegar no referido esférico e batê-lo no chão do seu quarto.
Iniciou a sua carreira desportiva no Sporting de Lourenço Marques, onde alinhou nos escalões de iniciados e juvenis. Até que em finais de 1974, após a independência das colónias lusas em África, Carlos Lisboa chega a Portugal (continental) na companhia dos seus familiares, onde prossegue o seu sonho nos juvenis do Benfica, clube onde anos mais tarde haveria de se tornar numa lenda, mas que nesta primeira passagem não permaneceu mais do que uma temporada, deixando o emblema encarnado com algum descontentamento por alegadamente ser pouco utilizado.
Mudou de clube mas não de cidade, permanecendo em Lisboa, mudando-se de armas e bagagens para o grande rival dos benfiquistas, o Sporting. Uma decisão muito influenciada por Mário Albuquerque, na época treinador da equipa de juniores leonina, e além do mais grande ídolo de infância do jovem Carlos Lisboa. Sem demoras os responsáveis sportinguistas reconheceram o enorme talento de Lisboa, não sendo de estranhar que ainda com idade de júnior (18 anos) fizesse a sua estreia no combinado sénior do Sporting! Na primeira temporada (76/77) de leão ao peito na elite do basket português Lisboa não venceu qualquer título, mas mostrou os atributos que viriam a fazer dele a maior estrela de todos os tempos desta modalidade em Portugal: rapidez, técnica, e um poder notável de concretização (em especial atrás da linha dos três pontos).

Os primeiros rugidos do leão Carlos

Na época seguinte não só confirmou a sua mestria como venceu os seus primeiros títulos oficiais de leão ao peito. Foi uma das peças fundamentais na conquista da dobradinha de 77/78, isto é, vitória no campeonato nacional e na Taça de Portugal, e ainda mais fundamental viria a ser nos anos seguintes, tornando-se desde logo na grande estrela do basquetebol do Sporting. Voltaria a vencer o título máximo do basket lusitano (o campeonato nacional) ao serviço do clube de Alvalade em mais duas ocasiões, 80/81, e 81/82, assim como uma segunda Taça de Portugal (em 79/80). Este seria sem dúvida o período áureo do basquetebol do Sporting, e muito devido ao contributo de Carlos Lisboa, a quem a Direção dos leões atribuíra em 1981 o Prémio Stromp, o mais alto galardão para atletas de alta competição dentro do clube.

Após este período dourado o base (a posição onde atuava preferencialmente) viu-se obrigado a mudar de ares, face à decisão do Sporting terminar com a sua secção de basquetebol, que tanta glória havia trazido ao clube durante a década de 80!

O já célebre atleta continuou então na Grande Área Metropolitana de Lisboa, optando pelo Queluz para dar continuidade à sua já brilhante carreira, tendo na altura recusado ofertas de clubes de outra dimensão, caso do FC Porto. E no clube do Concelho de Sintra a estreia não poderia ter sido melhor. Por si comandado o pequeno emblema sintrense arrecadou em 82/83 o primeiro título da sua história, a Taça de Portugal, após uma vitória épica - e renhida - na final ante o colosso Benfica por 86-85. Mas o melhor ainda estava para vir. Melhor do que nunca Carlos Lisboa conduziria na temporada seguinte o Queluz a nova coroa de glória, desta feita o título de campeão nacional. Notável.

Rei no Benfica com o sonho da NBA ali tão perto

Ter Lisboa era mais do que ter aquele que na altura era já indiscutivelmente o melhor basquetebolista nacional, era ter a oportunidade de conquistar títulos. E foi em busca de títulos que no verão de 1984 o Benfica fez de tudo para que Carlos Lisboa voltasse a vestir de encarnado. Uma batalha que seria vencida, e traduzida em êxitos imediatos na primeira temporada do basquetebolista ao serviço da equipa principal da Luz, quando venceu o ceptro de campeão nacional 84/85. A estrela de Lisboa brilhava a grande altura, e não terá sido de estranhar que em meados de 1985 tivesse estado muito perto de concretizar o sonho de qualquer basquetebolista à face da terra: jogar na NBA norte-americana, a maior liga do Mundo!

Ao longo de centenas de entrevistas dadas Lisboa recordou na primeira pessoa o momento em que esse sonho nasceu... e morreu logo de seguida: «Um dia recebi uma carta de um treinador norte-americano a manifestar interesse no meu concurso para um projeto de uma equipa que iria entrar na NBA. Na altura, falava-se da introdução de novas ‘franchises’ na Liga. Contudo, por razões que desconheço, o projeto não foi para a frente e o tal alargamento só veio a realizar-se anos mais tarde, com a entrada das equipas de Toronto e Vancouver». Nâo foi para a NBA, é certo, mas continuou por mais uma série de anos a fazer magia nos pavilhões portugueses e internacionais com as cores do Benfica. Dentro de portas ajudou os lisboetas a vencerem um total de 10 campeonatos nacionais (!), sendo sete deles de forma consecutiva - entre 1988 e 1995 -, bem como cinco Taças de Portugal, seis Taças da Liga, e cinco Supertaças! Palmarés impressionante.

Durante a década de 90 Lisboa fez do Benfica a melhor equipa de todos os tempos do basquetebol português, um autêntico dream team (equipa de sonho), onde era secundado por estrelas como Pedro Miguel, Henrique Vieira, Carlos Seixas, Steve Rocha, Mike Plowden, ou Jean Jacques. Ver aquele Benfica a jogar era ver não só o melhor basket que se jogava em Portugal como um dos melhores de toda a Europa, e a prova disso é que em diversas épocas o Benfica ombreou de igual para igual, sim, de igual para igual, com algumas das melhores equipas europeias de então, casos do Real Madrid, Partizan, Panathinaikos, Maccabi Tel-Aviv, Juventud Badalona, entre muitas outras que passaram pela Luz em épicos e memoráveis confrontos a contrar para a desaparecida Taça dos Campeões Europeus (mais tarde rebatizada como Euroliga). Nesses jogos europeus Carlos Lisboa como se transfigurava, levava o seu talento aos extremos, e consequentemente o público afeto ao seu clube ao delírio, em especial quando "aplicava" os seus quase infalíveis "tiros" de três pontos. Ao serviço da seleção nacional esteve em 103 encontros (43 dos quais pela equipa principal).

Colocou com ponto final na sua lendária carreira em 1996, mas sem dizer adeus à modalidade que o havia tornado célebre e que ele também havia tornado popular em terras lusitanas. Abraçou a carreira de treinador, primeiro no Estoril Basket, onde esteve durante uma temporada, até que em 96/97 volta ao seu Benfica para tentar, agora como treinador, repetir os êxitos alcançados não muitos anos antes. Não foi tão feliz, é certo, nos três anos em que ali ficou, acabando posteriormente por ingressar no Aveiro Basket em 2001, emblema nortenho que representou até 2004. E foi então que mais uma vez não resistiu aos apelos do coração, voltando de novo ao Benfica, desta feita para desempenhar as funções de diretor desportivo das modalidades ditas "amadoras".

Em 2011/12 foi desafiado a voltar ao terreno de jogo, isto é, treinar a principal equipa benfiquista no assalto a um título nacional que fugia já há longos anos para o rival FC Porto. E no regresso ao banco de treinador Lisboa não poderia ter sido mais feliz, já que viria a conduzir os lisboetas ao título de campeão nacional, conquistado no derradeiro jogo da final em pleno reduto do... FC Porto! Conquista memorável e saborosa, sem dúvida, para um homem que depois do futebolista Eusébio da Silva Ferreira é considerado como a grande figura do Sport Lisboa e Benfica. De tal modo que após o seu abandono enquanto atleta o Benfica decidiu retirar a mágica camisola número 7 da sua equipa de basquetebol, pendurando-a no teto do pavilhão, em sinal de homenagem perpétua ao "senhor basquetebol português".

Vídeo: Alguns lances de Carlos Lisboa

Legenda das fotografias:
1-Carlos Lisboa
2-Defendendo o Sporting
3-Atuando pelo Benfica 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Francisco Lázaro: o louco herói lusitano...

Assinala-se neste ano de 2012 o centenário da morte de um homem cuja personalidade era composta por uma mescla de loucura e heroísmo. Uma figura cuja bravura e paixão desafiaram as leis da vida, tornando-o num dos primeiros ídolos do desporto lusitano. Francisco Lázaro, o seu nome, o homem que morreu a correr a maratona, como ainda hoje é recordado nos caminhos da história desportiva portuguesa, o homem que encarava o desporto como uma questão de vida (triunfo) ou de morte (derrota).

Nasceu no bairro de Benfica, em Lisboa, a 21 de janeiro do longínquo ano de 1888, e seria nos princípios do século XX que haveria de ver o seu nome ascender ao patamar das lendas na sequência do seu natural e ímpar talento - até então nunca visto - para as corridas de fundo. Lázaro saltou para a ribalta em 1908, um ano tumultuoso para Portugal, ano em que o rei D. Carlos - um profundo amante das atividades desportivas - e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados em pleno Terreiro do Paço (Lisboa) pelos "defensores" do republicanismo.

Mas para Francisco Lázaro, um rapaz de origens pobres, carpinteiro de profissão, 1908 foi o ano do arranque de uma curta mas gloriosa carreira enquanto maratonista. O jornal Tiro e Sport organizava a primeira maratona portuguesa, uma corrida de 24 km que seria ganha de forma sensacional - e arrasadora - por Lázaro, que deixou a concorrência a léguas de distância! Motivos de doença afastaram-no da prova de 1909, mas no ano seguinte haveria de voltar e provar que o triunfo de 1908 não fora obra do acaso. Em 1910 a organização alargava a maratona para 42 km, uma meta impossível de alcançar para um ser humano, diziam as vozes da época. Mas não para Francisco Lázaro, que treinava diariamente entre Benfica, onde morava, e a Travessa dos Fiéis de Deus no Bairro Alto, onde exercia a sua atividade profissional. Mais uma vez de forma magistral venceu a maratona, com o tempo de 2h57m35s, deixando o segundo classificado a mais de 15 minutos de distância! Como não há duas sem três em 1911 vence de novo a maratona portuguesa, desta feita com o registo de 3h09m57s, e por esta altura o seu nome era já enaltecido nos quatro cantos de Portugal. Já com as cores do Lisboa Sporting Clube, emblema que o acolheu após a saída do Sport Lisboa e Benfica, voltou a criar espanto e admiração na multidão que o idolatrava por aqueles dias, ao vencer a maratona lusitana de 1912 com um tempo recorde de 2h52m08s (!!!), um registo notável que desde logo fazia dele um forte candidato a vencer a maratona dos Jogos Olímpicos, que nesse ano teriam lugar em Estocolmo.

As esperanças lusas no sucesso de Lázaro eram bem reais, atendendo ao facto de que o fundista lisboeta havia gasto 2h52m08s para percorrer uma distância de 42,2km enquanto que o último campeão olímpico da maratona, o norte-americano John Hayes, havia registado nos Jogos de Londres - quatro anos antes - o tempo de 2h55m18s a percorrer uma distância de 42,196km! Números que deixavam o sonho de Lázaro tão perto da realidade.

Corrida para a morte

Em Estocolmo Portugal fez a sua primeira aparição olímpica. A delegação lusa foi composta por Fernando Correia (esgrima), Joaquim Vital, António Pereira (ambos atletas de luta), António Cortesão, António Stromp, e Francisco Lázaro, estes três últimos ligados ao atletismo. Por tudo o que havia construído até ali as esperanças na conquista de uma medalha estavam, como já vimos, todas depositadas no humilde carpinteiro de Benfica, cuja prova de fogo estava marcada para o dia 14 de julho, o grande dia, o dia da maratona.

O país esperava impaciente a estreia do ilustre atleta, que sabendo das elevadas espectativas dos seus conterrâneos encarou a maratona olímpica como uma questão de... vida ou de morte. Fisicamente Lázaro estava bem, segundo relatos da época almoçou por volta das 10h00, e apresentava um espírito para lá de confiante num bom resultado, o mesmo é dizer, ganhar. Foi levado em seguida, de automóvel, para o estádio olímpico, que era beijado por um calor sufocante, com o termómetro a marcar 32º à sombra!

Os maratonistas faziam o seu aquecimento na pista, todos menos... Francisco Lázaro! Armando Cortesão e Fernando Correia, membros da comitiva portuguesa, estranharam a ausência do fundista, tendo minutos depois encontrado Lázaro ainda no balneário a untar o corpo com... sebo! Questionado porque o fazia o atleta respondeu que era para evitar a perda de líquidos por transpiração, e percebendo que aquela atitude poderia causar uma desgraça (o sebo poderia tornar-se fatal devido ao sobreaquecimento orgânico) os dois elementos da delegação lusa tentaram de pronto dar-lhe um banho rápido para limpar o sebo, mas em vão. Francisco Lázaro rápido correu para a pista ao mesmo tempo em que repetia vezes sem conta a seguinte promessa: «Ou ganho, ou morro».

Às 13h48 dá-se o tiro de partida, e de pronto Francisco Lázaro coloca-se na frente da corrida, com o corpo todo besuntado de sebo, que tapava os poros da pele tapados, ao mesmo tempo em que contrariamente aos outros 71 concorrentes nem sequer levava uma boina a proteger a cabeça do sol abrasador que se abatia sobre Estocolmo. De forma estratégia os outros membros da comitiva portuguesa foram colocados ao longo do percurso para dar apoio a Lázaro, e ao quilómetro 15 quando passou por Joaquim Vital era 27º com um atraso de 4 minutos para o líder da corrida. Aos 25km era 18º, e estava cada vez mais perto dos homens da frente.

Bebia sofregamente a água que lhe era dada pelos seus conterrâneos, aos mesmo tempo em que dizia vezes sem conta que se sentia bem. Porém, a tragédia aconteceu já muito perto do fim, ao quilómetro 30. Fernando Correia, o chefe da missão portuguesa relatava dias depois para a revista Sports Ilustrados o episódio: «Os meus companheiros que estavam ao quilómetro 35 esperavam impacientes, sem ver Lázaro. Armando Cortesão, que estava a 2km do estádio para o ajudar no sprint final, veio ter comigo. Eu, no estádio, não compreendia a demora. Meti-me num automóvel com o Cortesão e segui pela estrada. Em vários automóveis vinham vários corredores estropiados mas nenhum deles era o Lázaro. Vi levantar os postos de controlo e retirar a força armada que policiou a pista. E Lázaro? Ninguém sabia dele. Regressei e na estrada encontra-mo-nos com o nosso embaixador (António Feijó). Já conhecedor da tragédia, procurava-nos. No seu automóvel seguimos para o hospital... Ali soubemos que o infeliz campeão tinha sido fulminado com um insolação ao quilómetro 30, que um médico o tinha recolhido e em automóvel o levado ao hospital: que três médicos o medicavam com carinho e já na estada lhe tinham aplicado gelo sobre a cabeça. Interrogámos o chefe da clínica, que gentilmente nos respondeu que tinha uma meningite declarada, possivelmente derrame nas meninges, motivada por um fulmimante coup de soleil». 
Francisco Lázaro viria a falecer no dia seguinte, às 6h30 da manhã. O sonho de vencer a medalha levou-o à dura realidade da morte. O país recebeu a notícia e chorou dias a fio. O corpo do atleta chegou a Lisboa dois meses depois do trágico dia. Atracou no Tejo a bordo do Vendysset, tendo sido recebido por um mar de gente, como nunca se havia visto por aquelas bandas. O cortejo fúnebre demorou quatro horas a percorrer as artérias que ligavam o Terreiro do Paço - o mesmo onde quatro anos antes assistiu e chorou a morte de D. Carlos e D. Luís Filipe - ao cemitério de Benfica. Lisboa parou nesse dia, tendo sido inundada pelas lágrimas que corriam pela face do povo dizia adeus ao seu herói. No rescaldo do triste acontecimento os jornais da época escreviam que: «Francisco Lázaro teve na morte a consagração que merecia. O seu nome ficará perpetuado através dos tempos a coragem de um homem meridional, a pertinácia de um atleta e a energia de um português modesto de nascimento e que tão grande era nas determinações da sua vontade, em actos de coragem e amor à sua terra». 

Francisco Lázaro pode até nem ter sido o primeiro campeão olímpico português, mas não há dúvidas de que foi o primeiro grande herói - desportivo - da brava nação lusitana. Louco, é certo, mas herói.

 Vídeo: Documentário biográfico de Francisco Lázaro

Legenda das fotografias:
1-Francisco Lázaro
2-Com o peito coberto de medalhas
3-Correndo a maratona que o levaria à morte (Lázaro é o atleta da direita)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Canoagem portuguesa de "prata" nos Jogos Olímpicos de Londres/2012

O Museu Virtual do Desporto Português abre hoje propositadamente as suas portas para evocar mais um feito histórico alcançado pelos atletas lusitanos no maior evento desportivo do planeta: as Olimpíadas. Hoje, 8 de agosto de 2012, uma data que ficará gravada a letras de ouro na "grande enciclopédia" do desporto português, o dia em que Emanuel Silva e Fernando Pimenta entraram definitivamente para o Olimpo dos Deuses do nosso desporto, depois de terem alcançado a 2ª posição na final de K2 1000m masculinos em canoagem, prova inserida nos Jogos Olímpicos que por estes dias decorrem em Londres. Na magnífica pista de Eton Dorney a dupla portuguesa conquistou uma inédita medalha de prata para a canoagem lusitana, aliás, inédita em todos os sentidos, pois este foi a primeira medalha de sempre obtida por Portugal nesta modalidade no seio das Olimpíadas. Emanuel Silva e Fernando Pimenta fizeram desde início uma prova magistral, patenteando uma raça e uma entrega ímpares, deixando para trás alguns rivais de peso, que por certo, não contavam com este "atrevimento" dos portugueses, os quais terminaram a prova com um tempo de 3:09,699 minutos, a escassos 53 centésimos de segundo (!!!) da dupla vencedora, os alemães Rudolf Dombi e Roland Kokeny. No final da corrida os canoístas lusos não cabiam em si de alegria, como seria de esperar, já que este foi o ponto mais alto da sua carreira, pese embora tivessem confessado posteriormente que a prata acabou por saber a pouco, uma vez que o ouro fugiu a uns curtos centésimos de segundo, como já referimos.

Biografias...

Emanuel Silva, apesar dos seus 26 anos, é o mais experiente dos dois atletas, participando na sua terceira edição dos Jogos Olímpicos, depois de Atenas (2004) e Pequim (2008). Nasceu nos arredores de Braga, mais concretamente em S. Paio de Merelim, a 4 de dezembro de 1985. É detentor de um vasto e rico currículo não só na canoagem nacional como internacional, sendo neste último patamar de sublinhar as medalhas obtidas no Campeonato do Mundo de Juniores de 2003, em Komatsu (Japão), onde alcançou o ouro na prova de K1 500m, e a prata na corrida de K1 1000m. Como sénior atingiu o estrelato ao classificar-se com apenas 19 anos para as Olimpíadas de Atenas, em 2004, onde surpreendeu tudo e todos ao atingir a final de K1 1000m, tendo alcançado um memorável 7º lugar. Em 2005 vence o Campeonato da Europa sub-23 anos em K1 1000m, e neste mesmo ano alcança a sua primeira medalha enquanto atleta sénior, um feito ocorrido na cidade polaca de Poznan, onde arrecadou o bronze na sequência do 3º lugar de K1 1000m. No ano seguinte é de novo campeão da Europade sub-23 anos em K1 1000m, e em 2011 alcança novo feito no escalão de seniores, desta feita em K4 1000m, ao subir ao lugar mais alto do pódio na Taça do Mundo que decorreu em Poznan. Hoje, em Londres, no maior evento desportivo do planeta, atingiu, como já vimos, e nunca é demais relembrar, o ponto mais alto da sua carreira, a MEDALHA DE PRATA.

Fernando Pimenta é o mais novo destas duas novas lendas do desporto português. Nasceu em Ponte de Lima a 13 de agosto de 1989, e até chegar a Londres tinha como principal cartão de visita uma medalha de ouro em K4 1000m masculinos nos campeonatos da Europa realizados em 2011 na cidade sérvia de Belgrado.

Vídeo: FINAL DE K2 1000M DOS JOGOS OLÍMPICOS DE LONDRES

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O gentil gigante do boxe português

Ovar, bela localidade vareira localizada no centro-norte do nosso Portugal, famosa entre as gentes lusitanas pelo seu animado carnaval e pelo delicioso pão-de-ló. Para muitos estas são as duas maravilhas desta ilustre cidade. Mas como diz o velho ditado "não há duas sem três", e também Ovar possui uma terceira maravilha que constitui um dos grandes tesouros do desporto lusitano.

Aqui nasceu José Santa, ou melhor Santa Camarão, a maior lenda do boxe português cuja estrela brilhou nos maiores ringues da Europa e da América nas décadas de 20 e 30 do século XX. José Soares Santa, de seu nome completo, veio ao Mundo no dia de Natal de 1902, numa modesta casa da Rua Visconde de Ovar, filho de um fragateiro (António Soares Santa) e de uma padeira (Josefa Pereira dos Santos), e desde o seu primeiro minuto de vida atraiu até si focos de atenção. Reza a lenda que José Santa nasceu com um tamanho deveras invulgar, afigurando-se como um pequeno gigante, o que terá provocado uma autêntica romaria por parte dos vizinhos a sua casa para verem aquele "pequeno grande" fenómeno da natureza.

Ao lado de sua mãe viveu na sua terra natal até aos 11 anos de idade, altura em que o pai o chama para Lisboa para junto dele iniciar o ofício de fragateiro. Tratado carinhosamente por camarãozinho - dado que Camarão era a alcunha de seu pai - pelos colegas mais velhos que consigo trabalhavam arduamente nas docas do Tejo, José Santa tornou-se com o passar dos anos num verdadeiro gigante. Do alto dos seus 2,06m (!) e dos seus maciços 120 kg (!!!) Santa travou aos 19 anos de idade conhecimento com a arte que viria a ser o seu passaporte para o estrelato internacional: o boxe. Corria o ano de 1921 quando um certo dia o lutador Manuel Grilo apercebendo-se do autêntico diamante em bruto que ali estava o convenceu a participar num combate no Coliseu dos Recreios.

O casamento entre José Santa e o boxe deu-se algum tempo mais tarde, no Porto, altura em que Alexandre Cal (figura ligada ao mundo da luta) o convenceu em definitivo a calçar as luvas de uma forma mais séria. E seria dessa forma que nesse ano de 1921 derrotaria Joaquim Branco no Palácio de Cristal, tendo a partir dai o nome de Santa Camarão - pelo qual se apresentou em ringue - saltado para as páginas dos jornais e consequentemente para as bocas do povo. Dali ao sucesso o caminho não foi muito longo já que em 1925 José Santa era já campeão de Portugal em todas as categorias (!). Nesse ano específico teve agendados 19 combates, tendo vencido 17, perdido apenas um (por pontos), e visto outro ser anulado. Graças a este impressionante cartão de visita partiu para o Brasil onde durante 3 anos fez fortuna graças ao boxe.

Regressaria a Portugal em 1929 com um currículo de vitórias maior do que aquele que tinha conseguido quando havia partido para "terras de Vera Cruz" em 1926. E no regresso à pátria Santa Camarão derrotaria grandes boxeurs internacionais, casos de Humbeeck e Barrick. Nesse mesmo ano esteve a um curto passo de derrotar o belga Charles, nada mais nada menos do que o campeão da Europa em título, que só levaria a melhor sobre Santa Camarão no desempate por pontos. De 1925 a 1929 contabilizou 38 combates, tendo ganho 31, perdido somente 5 (aos pontos), e visto outros 2 serem anulados. Notável!

Ídolo na América

Perante isto Portugal e a Europa eram já demasiado pequenos para o talento de Santa, e no início da década de 30 emigrou para o país onde o boxe é "rei", os Estados Unidos da América. Ali lutou de igual para igual com os melhores do Mundo. Os seus punhos de ferro tornariam-no num ídolo dos ringues norte-americanos, levando a imprensa daquele país onde o boxe desperta paixões arrebatadoras a compara-lo a um arranha-céus, a um Sansão! Como já dissemos durante a sua estadia na América do Norte Santa Camarão lutou com os melhores, como Primo Carnera ou Max Schmeling, último pugilista este que haveria de se consagrar campeão do Mundo. Atuou nos melhores palcos do boxe norte-americano, caso do mediático Madison Square Garden, de Nova Iorque.

Título mundial que podia muito bem ter sido ganho por Santa Camarão, como muita da imprensa da época fazia questão de timbrar nos jornais, já que arte para o conseguir não lhe faltava. Não calhou, disseram na altura muitos dos que o viram em ação. Com o alemão Max Schmeling teve uma incursão no cinema, participante nos filmes Amor ou Ringue e O Boxeur e a Mulher, desempenhos que lhe valeriam mais tarde um convite para ir para Hollywood encetar uma carreira de ator, hipótese que José Santa nunca sequer considerou, até porque da América estava ele farto, além de que as saudades do seu país, e em concreto da sua terra natal, falavam já mais alto do que tudo.

Cansado das lutas regressa então em 1934, e consigo traz Mary Loreta, a mulher que conhecerá nos Estados Unidos e com quem por lá se casou. Já em Portugal nasceria o seu único filho, de nome Arnaldo de Oliveira Santa, que anos mais tarde partiu para os Estados Unidos com sua mãe após a separação desta com Santa Camarão. E em Ovar o herói do boxe lusitano viveu até ao fim dos seus dias, gozando dos rendimentos que obtivera em terras americanas, que lhe haviam permitido fazer alguns investimentos, como a compra de alguns imóveis que posteriormente viria a arrendar.

Olhado como um Deus pelas gentes da sua terra - e não só - José Santa foi sempre um modelo de homem humilde, sempre gentil e bondoso para com o seu semelhante, qualidades reconhecidas por todos os que privaram com ele até ao dia 5 de abril de 1968, dia em que travou o seu último combate, o combate com a vida, o qual viria a perder.

Vídeo: Cena do filme Amor ou Ringue, onde Santa Camarão luta com Max Schmeling