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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Flashes Biográficos (1)... Dário Canas

DÁRIO CANAS (Tiro): Iniciamos hoje uma nova rubrica no Museu Virtual do Desporto Português, onde na qual, e de forma breve, se pretende traçar o registo biográfico dos nomes que fizeram - ou fazem - parte da história desportiva de Portugal. A partida é dada com uma figura do tiro, uma ilustre figura, melhor dizendo, não só pelo seu trajeto desportivo na modalidade como de igual modo pelo relevo alcançado nas áreas da política e do associativismo vida política e social. Dário Canas é o nome deste cidadão nascido em Lisboa na década de 80 do século XIX - mais concretamente a 29 de fevereiro de 1884 - que no início do século seguinte se viria a revelar como um dos mais virtuosos atiradores nacionais, talento que o iria levar em duas ocasiões ao palco principal do desporto global, o mesmo será dizer, os Jogos Olímpicos. Dário Canas é também um nome mítico de um dos emblemas mais antigos de Portugal, o Ginásio Clube Português (GCP), fundado em 1875. Clube eclético e dinâmico que em 1902 organizou uma das primeiras grandes competições de tiro no nosso país, a I Cruzada de Tiro Nacional, que viria a consagrar Canas como o primeiro civil a conquistar o diploma de atirador de 1ª classe. Empresário agrícola de profissão, Dário Canas viu-lhe ser reconhecida a sua mestria de exímio atirador no verão de 1920, altura em que integra a delegação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Juntamente com Hermínio Rebelo, António dos Santos, António Andréa Ferreira, António da Silva Martins e António Montez ele foi um dos atletas que compôs a equipa nacional de tiro que pela primeira vez levou a modalidade a uma Olimpíada. Facto que o fez entrar, uma vez mais, para a história do GCP, já que ao lado de Frederico Paredes, João Sasseti, Jorge Paiva e Henrique da Silveira (todos atletas de esgrima) levou pela primeira vez o nome deste clube aos Jogos. Na cidade dos diamantes, como é mundialmente conhecida Antuérpia, Canas participou em cinco disciplinas de tiro, nomeadamente na de Carabina 300 a 600 metros por equipas, onde obteve um 11º lugar num total de 14 nações participantes; na de Carabina 300 metros Deitado também por equipas, não indo além do 15º e último lugar da classificação final; na de Carabina 300 metros de Pé novamente em equipas em que foi 11º posicionado num total de 15 combinados; na disciplina de Carabina 600 metros Deitado por equipas onde não foi além de um 14º e último lugar na geral; e na prova coletiva de Revólver a 30 metros, em que se quedou pelo 8º e último lugar da classificação geral. Não foi, como os resultados indicam, uma prestação brilhante da equipa nacional, valendo, no entanto, o facto de ter competido com os melhores atiradores do planeta daquela época. Quatros anos volvidos a equipa nacional de tiro voltou aos Jogos, desta feita realizados em Paris, tendo Dário Canas integrado o leque de exímios atiradores portugueses. Na Cidade Luz participou apenas em duas provas, sendo que em uma delas atuou de forma individual, a sua única aparição olímpica na variante singular, em que alcançou o 61º posto na prova de arma livre. Na mesma disciplina mas na variante coletiva foi 17º num total de 18 equipas.
A sua ligação ao desporto, e ao tiro em particular, estendeu-se ao dirigismo associativo. Entre 1932 e 1937 foi membro do Comité Olímpico Português, tendo ainda desempenhado funções de presidente da Federação Nacional de Tiro e vice-presidente do GCP. Noutros campos o seu nome fica ligado à atividade agrícola, onde na qual foi um dedicado e vincado empresário, tendo em 1952 sido co-fundador da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Leite, da qual foi presidente de Direção e da Assembleia Geral. Neste mesmo ano fundou ainda a Companhia Agrícola de Compra e Venda de Loures, município este onde na área política entre 1933 e 1949 desempenhou funções de presidente da Câmara Municipal. Ainda no plano político - outra área onde se destacou - foi membro da Assembleia da República na I e na II Lesgislatura (entre 1935 e 1942) tendo como área de intervenção a Educação Física e Desportos, ficando aqui célebre pelo facto de ter ajudado à reorganização da Educação Física no ensino secundário. Faleceu a 3 de junho de 1966.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Tiro certeiro na prata olímpica!

Concentração, apurados conhecimentos técnicos, e claro, uma excelente pontaria, serão três das principais qualidades essenciais a ter em conta num bom atirador. Qualidades que nasceram com Armando Marques, quiçá o melhor atleta português de tiro de todos os tempos, ou pelo menos aquele que em mais ocasiões transformou o seu talento nato no manuseamento de armas em... títulos. Muitos títulos, para sermos mais precisos, sendo que alguns deles fazem parte do livro de ouro do desporto português. Mas já lá chegaremos.

Armando Marques nasceu a 1 de maio de 1937, em Algés, e desde muito novo se deixou encantar pelas armas de caça, muito por influência de seu pai, um apaixonado pela caça. Não foi pois de admirar que aos 9 anos de idade o jovem Armando desse - em jeito de passatempo - os primeiros tiros na companhia do seu progenitor. Mais a sério, e numa altura em que cumpria o serviço militar, participou nas primeiras provas, onde arrecadaria as primeiras medalhas da sua ímpar e gloriosa carreira.
Os títulos - em todas as disciplinas do tiro! - foram-se sucedendo com naturalidade, e seria com igual naturalidade que em 1964 alcançou o sonho de qualquer atleta planetário - seja qual for a modalidade -, o mesmo é dizer, participar nos Jogos Olímpicos. Tóquio, a capital japonesa, acolheu as Olimpíadas de 64, tendo a prestação de Armando Marques ficado um pouco aquém do seu talento e qualidade, já que não foi além de um 18º lugar na especialidade de fosso olímpico. Voltaria ao grande palco do desporto global em 1972, nos Jogos de Munique, onde na mesma especialidade ficou um lugar abaixo do obtido em Tóquio oito anos antes.

Prestações um tanto ao quanto modestas, atendendo ao facto de estavámos perante um atirador de alto gabarito, que terão pesado na altura de Armando Marques (na época atleta do Sporting Clube de Portugal) entrar em cena nos Jogos Olímpicos de 1976, realizados na cidade canadiana de Montreal. Nesta sua terceira aparição olímpica Marques nem sequer era apontado como candidato a ficar entre os 10 primeiros da especialidade de fosso olímpico, não só pelos seus anteriores desempenhos olímpicos mas sobretudo porque entre os 80 participantes figuravam alguns dos nomes mais sonantes do tiro da época, caso do norte-americano Donald Haldeman.

Contudo, no desporto nem sempre a teoria se confirma na prática, e o português Marques alcançou a merecida consagração internacional numa prova que se viria a revelar muito complicada para os atiradores em ação. Tudo porque a prova de fosso olímpico de 76 foi disputada sob condições climatéricas bastante adversas, pautadas por chuvas intensas e ventos fortes, condições essas que se viriam a refletir na performance da esmagadora maioria dos atiradores, inclusive do próprio Haldeman, que na primeira jornada obteve uma paupérrima pontuação de 190 pratos! Perante tais adversidades a luta pelo ouro olímpico foi muito disputada, sendo que para surpresa de todos Armando Marques estava no final da jornada inaugural do fosso olímpico a apenas dois pratos do líder!

O atirador português, que na altura contava com 39 anos de idade, e que profissionalmente dirigia uma casa de pneus, já que o tiro era uma paixão meramente amadora praticada nos tempos livres, entrou com tudo, como se diz na gíria desportiva, para a derradeira jornada da competição, tendo alcançado o segundo lugar do pódio final, ficando a apenas um prato da medalha de ouro (Marques contabilizou um total de 189 pratos), alcançada precisamente pelo norte-americano Donald Haldeman.
A medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 76 foi sem margem para dúvidas um momento de... ouro para o atleta português, que desta forma alcançava o maior feito desportivo da sua longa e rica carreira. Um feito que em Portugal foi festejado efusivamente, sendo até aos dias de hoje a única medalha olímpica conquistada pela nação lusitana no tiro. Armando Marques continuou no ano seguinte com a pontaria afinada, e no Campeonato do Mundo de Tiro, disputado em Antibes, subiu de novo ao pódio, após ter alcançado um novo segundo lugar. Ficava assim comprovado que a medalha olímpica de 76 não havia sido obra do acaso.

Em termos nacionais o atirador apresenta um currículo para lá de impressionante, sendo de destacar os 14 títulos de campeão nacional individual de fosso olímpico (em 1964, 1969, 1970, 1971, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976, 1977, 1978, 1979, 1981, e 1982), 9 ceptros nacionais individuais em prancha (alcançados em 1967, 1968, 1969, 1970, 1973, 1977, 1978, 1979, e 1980), 2 campeonatos nacionais individuais de fosso universal (em 1963, e 1964), 4 campeonatos nacionais individuais de skeet olímpico (em 1969, 1974, 1978, e 1980), 2 Taças de Portugal de tiro em voo (em 1968, e 1978), ou uma Taça de Portugal em prancha (1967). Currículo invejável que lhe valeu algumas condecorações estatais, casos da Medalha de Mérito Desportivo, ou a Ordem de Cavaleiro do Infante.

Legenda das fotografias:
1-Armando Marques com a... pontaria afinada
2-Exibindo a medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos de 1976