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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A prata olímpica de volta a Portugal pela mão de uma outra e talentosa dupla de irmãos velejadores

Depois do atletismo a vela é a modalidade que mais contribuiu para o enriquecimento do desporto português no que diz respeito a medalhas olímpicas. País desde sempre ligado ao mar foi com naturalidade que nos finais do século XIX Portugal se apaixonou pela prática da vela, tendo mesmo sido criado para efeito o primeiro clube da Península Ibérica, quando corria o ano de 1856.

Com o passar dos anos os velejadores lusos foram aperfeiçoando a sua técnica, e os títulos internacionais - muitos, diga-se de passagem - foram chegando com naturalidade. O primeiro grande momento da vela lusitana já aqui foi evocado numa outra visita ao passado, quando no verão de 1948 os irmãos Bello (Duarte e Fernando) trouxeram a primeira medalha de prata olímpica para o nosso país. E curiosamente voltaria a ser uma dupla de irmãos a trazer de novo a prata olímpica para a nação lusitana na sequência de mais uma histórica aventura no maior evento desportivo do planeta. E é precisamente esse importante capítulo da história desportiva portuguesa que hoje vamos recordar. Mas para isso há primeiro que apresentar os heróis desta aventura lusa, os irmãos Quina, Mário e José Manuel.

Nasceram ambos no Estoril, sendo que José Manuel é mais novo 5 anos do que Mário - o primeiro nasceu em outubro de 1935, ao passo que o segundo viu a luz do dia em janeiro de 1930 - tendo iniciado a sua carreira de velejadores no Clube Naval de Cascais.
O mais velho dos Quina fez a sua primeira aparição olímpica em 1952, em Helsínquia, 4 anos depois dos irmãos Bello terem conquistado a prata em Londres. Na capital finlandesa Mário Quina (que foi 17º na classe finn) assistiu a mais um momento dourado, ou melhor, um momento de bronze, da vela portuguesa, na sequência do terceiro lugar alcançado por Joaquim Fiúza e Francisco Rebelo na classe star. E seria já na companhia do seu irmão José Manuel que Mário Quina voltou a marcar presença nos Jogos, desta feita em Roma, em 1960, onde ambos atingiriam o seu momento de glória.

Na baía de Nápoles - local onde decorreram as provas náuticas das Olimpíadas de 60 -, e tripulando um barco denominado de Má Lindo, os irmãos Quina igualaram o feito conquistado 12 anos antes pelos também irmãos Bello, ou seja, trouxeram para casa a medalha de prata, na sequência de um épico segundo lugar na classe star, sendo apenas batidos pelos soviéticos Timir Pinegin e Fyodor Shutkov. Mais de meio século depois Mário Quina recordou esse feito após uma homenagem da Associação de Atletas Olímpicos, levada a cabo em 2011: «Nós estávamos bem equipados, mas uma regata destas é sempre muito imprevisível. Nós mantivemos quase todo o tempo um andamento muito razoável. O russo fez um percurso completamente diferente de toda a gente e foi quem ganhou».
 
Inolvidável é igualmente o momento em que subiram ao pódio, para receber a rodela de prata. «A cerimónia da medalha de prata foi muito emocionante, um momento único da vida, que me marcou muito. Quando chegou a altura de chamarem por nós para o pódio sentimos um arrepio cá dentro como nunca sentíramos na nossa vida. A bandeira portuguesa foi arreada preguiçosamente, para momentos depois, ao som da marcha de continência, subir de novo para ficar a tremular, altaneira, mais bonita que nunca! Ao mesmo tempo chegou às nossas mãos aquela rodela de prata que tem para nós o valor de todos os diamantes do Mundo».
 
Os irmãos Quina (na imagem) voltaram aos Jogos 8 e 12 anos depois, respetivamente na Cidade do México (1968) e em Munique (1972), onde não lograram alcançar o final feliz de Roma. Mário Quina, que profissionalmente se tornaria num reputado médico especializado em gastreterologia, recorda que no México «usámos o mesmo barco que navegámos em Itália, mas a nossa prestação não foi tão boa. Já em Munique disputei as regatas na classe dragão (ao passo que o seu irmão competiu em finn), mas a falta de velas boas, especialmente a vela balão, comprometeu a nossa performance».
 
Aparte das façanhas olímpicas os irmãos Quina guardam no seu baú de recordações vários e importantes resultados internacionais, sendo que Mário foi medalha de bronze no Campeonato da Europa de 1965, tendo ainda obtido dois 5ºs lugares, na classe star, em Campeonatos do Mundo (1953 e 1959). Já José Manuel alcançou, também na classe star, dois 4ºs lugares em Campeonatos da Europa (1957 e 1967).

terça-feira, 19 de junho de 2012

A façanha olímpica dos irmãos Bello


País de tradições marítimas Portugal cedo abraçou a prática da vela enquanto modalidade desportiva. A História aponta para meados de 1850 como o ano em que sob a influência da colónia britânica radicada no nosso país a modalidade viu a luz do dia em águas lusitanas. Dai para a frente a vela tornou-se popular por estas bandas, sobretudo entre os membros das classes mais abastadas do país, tendo a baía de Cascais como cenário predileto para o seu desenvolvimento.

Com o passar dos tempos o aperfeiçoamento técnico da modalidade interpretado pelos velejadores portugueses foi sendo cada vez mais notório tanto a nível nacional como internacional. E neste último capítulo a primeira página de ouro escrita pela vela portuguesa foi dada talvez em 1948, no seio do maior evento desportivo do planeta, os Jogos Olímpicos, que nesse ano decorreram em Londres. Vela que juntamente com o remo, o tiro, a esgrima, a natação, o hipismo, e o atletismo foi uma das modalidades representadas pela delegação portuguesa nas Olimpíadas londrinas. E entre os velejadores lusitanos figuravam dois notáveis intérpretes da modalidade, os irmãos Bello, Fernando e Duarte.

Ambos nasceram em Lourenço Marques, em Moçambique, tendo Duarte vindo ao Mundo a 26 de julho de 1921, ao passo que o seu irmão Fernando tem 1 de setembro de 1924 como a data do seu nascimento. Descendentes de uma família ligada ao mar, o avô de ambos dirigia uma carreira de barcos à vela, cedo se deixaram fascinar pelos barcos. Dos dois irmãos, Duarte Bello foi talvez o mais talentoso na prática da modalidade. Reza a história que aos 15 anos não tinha adversários à sua altura em Portugal, demonstrando uma coragem ímpar para enfrentar os ventos fortes que sopravam sobre os mares lusitanos. Nos tempos de universitário - viria a formar-se em engenharia - notabilizou-se na classe lusito, sendo que por volta de 1940 convence o seu pai a comprar um barco classe star com o qual alcançou grandes êxitos nacionais e internacionais.

Mas seria na classe swallow que atingiria o "topo do Mundo", precisamente nesses Jogos Olímpicos de 1948. Em Torquay, a cerca de 300 km de Londres, Duarte Bello e o seu irmão Fernando entraram definitivamente para a história do desporto português na sequência da conquista da medalha de prata dessa competição. A primeira medalha de prata olímpica conquistada por Portugal, um facto que tornou ainda mais célebre e imortal o feito da dupla lusitana. Aspeto curioso nesta epopeia reside no facto de o barco utilizado pelos irmãos Bello na regata que levaria à conquista da prata ter sido emprestado! Simphony era o nome do barco com o qual os dois portugueses ficaram a apenas 11 segundo do ouro olímpico, arrecadado pela dupla inglesa composta por David Bond e Stuwart Morris.

Os irmãos Bello tentariam repetir a façanha protagonizada em Londres nas Olimpíadas seguintes, embora sem o sucesso pretendido. Em 1952, nos Jogos de Helsínquia, foram 4ºs, posição esta repetida pelo irmão mais velho dos Bello quatro anos mais tarde em Melbourne, desta feita na classe star. Os irmãos Bello voltariam a competir juntos nos Jogos de 1960, ocorridos em Roma, não indo contudo além de um modesto 16º lugar na classe 5,5 metros. A última presença de ambos no maior evento desportivo global seria em 1964, em Tóquio, onde atingiriam um 9º lugar na classe star.

O vasto currículo dos Bello na vela desportiva não se restringe às participações olímpicas, muito pelo contrário, sendo que Duarte - que juntamente com Henrique Calado (hipismo), é o atleta luso que mais vezes esteve presente nos Jogos Olímpicos, 5 no total - conquistaria uma medalha de ouro no Campeonato da Europa de 1962, 5 medalhas de prata em outros tantos campeonatos da Europa (1950, 1953, 1954, 1956, e 1957), 2 medalhas de prata em campeonatos do Mundo (1953, e 1962), e uma medalha de bronze no Campeonato do Mundo de 1952. Em termos nacionais venceu 8 campeonatos nacionais (1941, 1947, 1953, 1959, 1961, 1962, 1964, e 1965). Conquistas estas alcançadas na classe star.

Já o seu irmão foi medalha de ouro no Campeonato do Mundo de 1953 (na classe snipe), medalha de ouro no Campeonato da Europa de 1962 (classe star), medalha de prata no Campeonato do Mundo de 1962 (também na classe star), e consagrou-se por 10 ocasiões campeão nacional na classe star (1941, 1944, 1947, 1949, 1959, 1961, 1962, 1963, 1964, e 1965).

(Nota: Na imagem pode ver-se os irmãos Bello após a conquista da medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948)