Mostrando postagens com marcador pólo aquático. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pólo aquático. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de março de 2019

(Algumas) Histórias da Golden Era (anos 20) do polo aquático português


Cascais, assistiu à primeira demonstração
de polo aquático em Portugal, no ano de 1907

Num país – como o nosso - louco por futebol é natural que o tempo de antena para outras modalidades seja diminuto, ou muitas vezes, inexistente. Modalidades há cujo encanto tarda em conquistar plateias maiores… em exibir-se em palcos de destaque. O exemplo do pólo aquático bem pode ser encaixado neste cenário, já que no presente é uma modalidade que se passeia bem longe das luzes da ribalta do nosso desporto.
Contudo, nem sempre foi assim. Houve uma década em que o polo viveu, digamos que, a sua Golden Era em território nacional. Entusiasmo, competitividade, qualidade, acesa rivalidade e acima de tudo mediatismo, foram ingredientes que tornaram o polo aquático em Portugal um fenómeno de popularidade nos anos 20 do século passado.
Viajemos pois a bordo da máquina do tempo até esse período da História, para reviver alguns capítulos que marcaram a melhor fase do polo nacional.

Ainda antes de ancorarmos no início da década de 20, há que primeiro recordar a chegada do polo aquático a Portugal, algo que, de acordo com os historiadores, aconteceu em 1907, pela mão de marinheiros ingleses que aqui trabalhavam. Relatos apontam que a primeira aparição oficial do polo em solo – ou melhor, em mar – nacional ocorreu em Cascais, a 13 de outubro do citado ano, quando no âmbito de um festival náutico esse grupo de marinheiros deu vida ao que muitos de pronto apelidaram de… andebol de água!
Com este arranque, o polo aquático tornava-se assim na segunda modalidade coletiva a ser introduzida em Portugal… a seguir ao futebol.
Contudo, este match experimental não cativou logo a nação, demorando cerca de uma década a afirmar-se cá pelo burgo. 

Foi na região de Lisboa que a modalidade viria a desenvolver-se em meados dos anos 10. Há escritos que apontam que na Doca do Espanhol e na Doca de Santo Amaro se desenrolavam por esta altura grandes jogos de polo aquático, aos quais assistiam numerosas pessoas.
É também em 1915 que é fundado aquele que muitos consideram ser o clube que deu um grande impulso à modalidade, o Sport Algés e Dafundo. Inúmeras páginas históricas foram escritas por este emblema na sequência de acalorados e épicos duelos travados a sul com o rival (de então) Sporting e mais a norte com o FC Porto. ´
E igualmente na reta final dos anos 10 que começam a realizar-se os primeiros campeonatos regionais: primeiro em Lisboa (1915) e depois no Porto (1921).
O interesse em torno do polo ultrapassa nos anos 20 as duas maiores cidades do país, estendendo-se até à Pérola do Atlântico, vulgo, a Madeira.
Graças à sua condição geográfica, a ilha torna-se igualmente num animado centro do polo aquático, criando mesmo um campeonato próprio, isto é, à margem do campeonato nacional, cuja primeira edição acontece em 1922.

Lisboa: palco das primeiras batalhas lendárias

Sporting, campeão nacional em 1922
Pode dizer-se que os primeiros duelos de polo aquático empolgantes e acesos – com uma dose de picardia e dureza à mistura – aconteceram em Lisboa e foram protagonizados pelo Algés e pelo Sporting, as duas grandes potências da época. Os leões criaram a secção de polo aquático em 1917, precisamente no mesmo ano em que é fundada a Liga Portuguesa dos Clubes de Natação, organismo que haveria de tutelar os primeiros campeonatos regulares (regionais e nacionais) no país.
Mas é no início dos anos 20 que o polo leonino ganha projeção com a chegada de alguns reforços de peso, oriundos do Clube Naval de Lisboa, entre outros, Joaquim Oliveira Duarte. Este médico e oficial da Marinha foi nadador, remador, futebolista, e atleta de polo aquático (era guarda-redes) de um clube do qual anos mais tarde viria a ser presidente!
Aliás, grande parte da equipa do Sporting em 1921 era multifacetada no plano desportivo, senão vejamos: António Silva também jogava rugby; Francisco Leote praticava também atletismo e rugby; Mário Garcia jogava rugby e hóquei em campo; Emile Renou era campeão nacional de salto em altura; e Guilherme Coopers era um craque em saltos para a água, onde chegou a ser campeão nacional.

Foram estes homens que estiveram na génese do reinado do leão no polo aquático regional e nacional em diversos períodos na golden era da modalidade.
Reinado que tem início em 1922, com o Sporting a levar a melhor no Campeonato de Lisboa sobre o Casa Pia e o Algés e Dafundo, as outras equipas que compunham este “triangular” disputado nos meses de julho e agosto. Os verde-e-brancos venceram os quatro jogos disputados, vingando assim a amarga derrota nesta competição averbada no ano anterior diante do seu eterno rival no seio desta modalidade, o Algés.
Ao vencerem o regional lisboeta de forma destacada com 8 pontos, mais 5 que o Algés, que partiu para a 6.ª e última jornada da prova para defrontar o Sporting já ciente de que não iria revalidar o título da temporada transata, os leões classificaram-se para a final do Campeonato Nacional, que iria ser disputada com o campeão do Porto, o Clube Escola Náutica.
Final que decorreu em Viana do Castelo. E que final haveria de ser!
Ao intervalo o Sporting vencia os portuenses por claros 3-0, graças a golos de Emile Renou (2) e Mário Garcia. E eis que para a segunda parte aconteceu algo… insólito! Os campeões do Porto resolveram não comparecer na quadra desenhada no Rio Lima, ao que parece porque não conseguiam agarrar bem a bola, alegando que esta estava encerada e que para a manusear os jogadores do Sporting haviam untado as mãos com cola! E assim a vitória foi atribuída ao Sporting que conquistava o primeiro de quatro títulos nacionais alcançados nesta década.

Madeira: um caso à parte

Império, que em 1922 venceu o Campeonato da Madeira
É a 22 de agosto de 1922 que na Madeira é criada a Liga Madeirense de Desportos Aquáticos (LMDA). Neste dia, representantes do Clube Sport Marítimo, Clube Desportivo Nacional, União Football Club e o Clube Sports da Madeira reúnem-se na sede desta última coletividade para fundar a citada liga cuja missão passava pelo promoção e organização de modalidades aquáticas na ilha, entre outras, o polo aquático. Esta espécie de federação regional teve como grande mentor Álvaro Reis Gomes.
Definidos e estruturados os estatutos deste organismo, arranca neste mesmo ano o primeiro campeonato da Madeira de waterpolo – nome pelo qual era na época designada a modalidade no nosso país. Prova que seria disputada pelo Clube Sport Marítimo, Grupo Desportivo Nacional, Club Sports da Madeira, Império Foot-ball Club e União Foot-ball Club.

E tal como no continente os embates de polo aquático na ilha eram extremamente competitivos, sendo exemplo disso a primeira edição do regional madeirense, que chegou ao final com Marítimo e Império empatados em termos de pontuais. O tira-teimas foi marcado para a Baía da Pontinha, no Funchal, onde o Império haveria de se tornar no primeiro campeão madeirense após derrotar os maritimistas por 3-1. Os relatos desse jogo apontam para uma afluência massiva de público... pagante, tendo a receita sido de 53 escudos.
A liga cresceu nos anos que se seguiram, tendo sido criados os campeonatos das segundas e das terceiras categorias, tal era o elevado número de praticantes da modalidade. O declínio dá-se por volta de 1928, porque de repente começou a haver um desinteresse dos clubes em participar nas provas da LMDA, muito por culpa da acentuada expansão do... football!

De volta ao Continente... com finais (1923 e 1924) envoltas em polémicas

Duelo entre Algés e Sporting, em 1923
O polo aquático desde a sua implementação em Portugal que era olhado como um desporto algo violento. Eram normais as quezílias entre atletas dentro de água, sem que o árbitro se apercebesse do agressivo contacto físico que quase sempre existia, sobretudo nos jogos mais decisivos, como por exemplo o Sporting – Algés de 1923, que iria decidir o título regional lisboeta desse ano. Os dois maiores emblemas da capital terminaram o campeonato com o mesmo número de pontos, sendo que ambos os jogos realizados entre eles terminaram empatados (2-2 e 1-1), pelo que houve necessidade de a 30 de setembro de 1923 ser disputada uma espécie de negra para decidir o campeão.
A violência entre jogadores nos confrontos Sporting – Algés, ou vice-versa, era uma constante. E na finalíssima, digamos assim, esta tendência voltou a confirmar-se. Exemplo disso foi um jogador do Algés que se encontrava fora da água após ter sido suspenso temporariamente pelo árbitro, ter subitamente voltado a entrar na quadra para agredir barbaramente um jogador leonino, no caso Henrique Teles. Após o período de suspensão ter terminado o jogador agressor do Algés voltou ao jogo como se nada tivesse acontecido, facto que motivou o protesto dos sportinguistas. Como o árbitro permitiu a reentrada do dito jogador, o Sporting resolveu abandonar o encontro e assim entregar o título de Lisboa numa bandeja ao Algés, que simultaneamente e sem opositor a norte foi igualmente considerado campeão nacional.
Estes foram os primeiros títulos conquistados por este emblema quer no plano regional, quer no nacional. Algés que assim enriquecia o seu palmarés, juntando estas duas conquistas à “Taça Maria Emília”, arrecadada em 1916 num torneio realizado na Praia da Cruz Quebrada, e que constituiu a primeira vitória relevante do waterpolo deste clube.
Por esta altura, o regional lisboeta já era disputado em três categorias, facto que atestava a popularidade da modalidade.

Um ano volvido e nova polémica fora de água permitiu ao Algés revalidar os dois ceptros. A 1.ª categoria do regional lisboeta foi disputada unicamente pelos dois velhos inimigos durante o mês de outubro. E depois de um empate a uma bola no primeiro encontro a polémica estoirou no segundo jogo.
Tudo porque numa altura em que o Sporting vencia por 1-0 o cronómetro do jogo simplesmente desapareceu! Enquanto isto, os jogadores das duas equipas brindavam o número público com cenas de pancadaria. A Liga Portuguesa dos Amadores de Natação decide então suspender a partida de modo a abrir um inquérito enquanto anunciava um terceiro jogo. O Sporting discordou e decidiu retirar a sua equipa da prova e assim oferecer pelo segundo ano consecutivo os títulos regional e nacional ao seu rival.

1926: ano de estreias e de reconquistas

Hermano Patrone, tem o seu nome perpetuado
numa alameda em Algés
Após um ano (1925) de interregno, fruto de muitas faltas de comparência, eis que em 1926 o waterpolo volta a fervilhar. É por esta altura, aliás, que para o Algés entra aquele que ainda hoje é considerado um dos maiores jogadores portugueses da História: Hermano Patrone. É igualmente neste ano que em Lisboa tem lugar o primeiro jogo internacional de uma seleção nacional de polo aquático, tendo o combinado luso sido derrotado pelos vizinhos espanhóis por 2-1. Entretanto, na Doca de Santos, na Doca do Espanhol, ou na Praia de Algés continuam a realizar-se escaldantes e emotivos matchs em condições... artesanais: um retângulo flutuante onde se desenrolavam os jogos que se deslocava constantemente pela força do vento e das ondas. Nas extremidades do retângulo duas balizas suspensas por bidões! Era assim o waterpolo nacional na sua Golden Era.

E se em 1923 e 1924 o Sporting protestou os duelos decisivos contra o Algés, desta vez foram estes últimos a fazer birra pelo facto de os leões apresentarem ao longo do Campeonato de Lisboa um jogador (Esteban Torok) que não era português. O Algés comandou o coro de protestos, no qual estavam incluídos outros emblemas da capital (e redondezas). Aliás, o regional de 1926 ficou marcado pelo número elevado de participantes no campeonato de 1.ªs categorias, pois além de Algés e Sporting também competiram o Vitória de Setúbal, o Clube Internacional de Football (CIF), o Pedrouços (nada a ver com a localidade da Maia) e o Nacional (que veio fazer uma perninha ao continente).
O protesto do Algés fez com que este clube não comparecesse no derradeiro e decisivo encontro do campeonato, entregando desta forma o título ao Sporting, onde pontificavam agora nomes como Coelho da Costa, Salazar Carreira, ou Jaime Montalvão. O título regional permitiu aos sportinguistas disputarem o título nacional em Aveiro, diante do campeão do Porto, naquele ano o Comercial. A supremacia dos clubes do sul continuava a ser evidente, como comprova o resultado final de 4-0 a favor dos leões.

Águas turbas no plano regional em 1927

Não era apenas a violência em muitos jogos que caracterizava o waterpolo luso por estes dias, era igualmente a discórdia entre clubes e demais entidades. Prova disso é que em 1927 os principais clubes de Lisboa, tendo à cabeça o Algés, decidem criar um novo organismo que tivesse como função a tutela da modalidade, fazendo assim frente à Delegação de Lisboa da Liga Portuguesa de Natação, que tinha como um dos seus poucos aliados o... Sporting.
Esta fidelidade concedeu aos leões mais um título regional, uma vez que o campeonato lisboeta continuava a ser tutelado pela Liga. Desta vez a polémica não se deu dentro de água, onde os sportinguistas não tiveram rivais, mas sim na secretaria. Polémicas à parte, a Doca de Alcântara iria receber em novembro de 1927 a final do campeonato nacional entre Sporting e o campeão do Porto, o Nun' Álvares. Venceram os lisboetas, por claros 5-0, mantendo assim a supremacia do waterpolo sulista no plano nacional.

FC Porto contraria tendência sulista

FC Porto, conquistou para o Norte em 1928
o primeiro título nacional
Porém, no ano seguinte o cenário iria mudar, muito por causa da ação de uma lendária equipa do FC Porto, que entretanto começava a despontar nos jogos realizados no Rio Douro. No dia 30 de setembro de 1928, José Pinto, Luís do Canto Monis, José Sequeira Jr., Florentino Ramalho, Florentino Mota, João Pedro Brenha, António Augusto Antunes e César Machado ascendem à categoria de heróis após derrotarem na sua Cidade os campeões de Lisboa, o Sporting, e oferecerem o primeiro título nacional ao norte do país.
Enquanto isso, na capital continuava a luta pelo controlo da modalidade entre a Federação e a Liga. É também neste ano de 1928 que começa a ser erguida a primeira catedral do polo aquático e da natação em Portugal, isto é, a primeira piscina na verdadeira ascensão da palavra. Trata-se da piscina do Algés e Dafundo, que nos anos que se seguiram tantos e tantos campeões viria a formar... sobretudo na natação, porque o fervor do polo aquático começava a abrandar.

A tentativa frustrada da fusão entre Federação e Liga em Lisboa marcou o ano de 1929. Um ano em que o Sporting (que com esta divisão entre organismos continuava a ser tranquilamente o campeão do regional lisboeta) vingou diante do FC Porto a derrota no ano anterior, recuperando o ceptro nacional após vitória em dia de feriado (5 de outubro) por 2-1.
Depois de um notável fulgor em finais da década anterior que se viria a confirmar na primeira metade dos anos 20, o polo começava a perder notoriedade à medida que se aproximava a década de 30.
E isto numa altura (1930) em que finalmente a sul do país se levantava a bandeira branca em sinal de paz – e concordância – entre Federação e Liga, que ao fundirem-se num só organismo voltaram a trazer tranquilidade e interesse ao Campeonato de Lisboa.

Pela primeira vez o Benfica participou na prova, que seria ganha pelo Algés, que no encontro decisivo derrotou o velho inimigo de Alvalade por 2-1. Sem rival a norte, o Algés sagrar-se-ia novamente campeão nacional.
É a partir deste ano que muitos clubes começam a ignorar o polo aquático, a abandonar os campeonatos regionais e consequentemente os nacionais, e a modalidade perde expressão. Desde logo popularidade, já que órfão de jogos (com interesse) o público começa a afastar-se. A própria comunicação social começa a ignorar o polo aquático que a partir daqui atravessa uma longa travessia no deserto no que a campeonatos nacionais diz respeito, pese embora em 1952 a nossa seleção tenha atingido o seu momento de glória no âmbito desta modalidade: a presença nos Jogos Olímpicos.
Só nos finais dos anos 70, o polo aquático voltaria a ganhar algum dinamismo em termos nacionais, com o regresso dos campeonatos nacionais, em 1985, mas sem o fulgor da Golden Era dos anos 20.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Portugal "nada entre (alguns) (d)os tubarões" do pólo aquático europeu

Mais de meio século depois de ter vivido o seu momento de glória no plano internacional - com a presença nos Jogos Olímpicos de 1952, em Helsínquia, facto este já aqui recordado numa anterior visita ao passado - o pólo aquático português voltou já no novo milénio a figurar no cartaz oficial de uma competição de alto gabarito além fronteiras. Facto ocorrido em meados de 2004, altura em que a seleção portuguesa de seniores masculinos marcou presença em Istambul (Turquia) para participar no Campeonato da Europa "B" de pólo aquático, uma espécie de segundo escalão, a nível europeu, desta modalidade.

Pela razão de que esta foi a primeira presença lusa numa prova deste calibre a própria qualificação para a mesma constituiu desde logo uma das páginas mais brilhantes escritas pelo selecionado principal no nosso país. Fase de qualificação essa que decorreu curiosamente em solo português, mais concretamente em Rio Maior, sendo que ao lado de Portugal apareciam os combinados da Suíça, Moldávia, e República da Irlanda na luta por um dos três mágicos lugares que garantiam o passaporte para a Turquia.

Teoricamente a luta - renhida - pelo terceiro e último lugar de apuramento iria ser protagonizada por portugueses e irlandeses, até porque os moldavos eram claramente de outro campeonato - muito superior -, e assim sendo praticamente insuperáveis, ao passo que os suíços surgiam no patamar imediatamente abaixo do conjunto de leste, pelo que o segundo lugar não lhes deveria fugir. Com toda este panorama o Portugal - República da Irlanda da jornada inaugural da fase de qualificação assumia contornos de uma autêntica final. E assim foi.

Orientados tecnicamente por um dos nomes mais sonantes da história do pólo aquático português, Nuno Lobo, Portugal entrou na competição com um misto de convicção e de... nervosismo. O salgueirista Rui Moreira, um dos melhores intérpretes da modalidade da história, em termos nacionais, claro está, falhou logo nos minutos iniciais uma grande penalidade, aumentando assim os nervos entre o selecionado luso. A partida arrastava-se de uma forma equilibrada, de vencedor incerto, até ao momento em que apareceu o inspirado Hugo Florêncio - jogador do Amadora -, que com dois golos num curto espaço de tempo colocou Portugal em vantagem no marcador, vantagem essa que seria segurada até final, com muita garra, há que dizê-lo. 7-4, histórico resultado final, que praticamente colocava os portugueses no Europeu, até porque era impensável que a frágil Irlanda levasse de vencida quer a Suíça, quer a Moldávia.

Nas 2ª e 3ª jornadas desta fase a teoria confirmou a prática, ou seja, Portugal perdeu ante a Moldávia (2-5) e a Suíça (11-14), últimas duas seleções estas que derrotariam igualmente sem grandes dificuldades a República da Irlanda, e assim sendo a seleção nacional lusa fazia história, a fase final do Campeonato da Europa "B" era uma realidade.

Para a história ficam aqui os nomes dos conquistadores de um feito que na altura passou... completamente despercebido à nação lusitana! Nuno Lobo (selecionador nacional), Nuno Paz (Diretor Técnico), Tiago Costa, Rui Nuno (ambos guarda-redes), Ricardo Vieira, Gonçalo Abrunhosa, Jorge Coelho, Jaime Milheiro, Rui Coelho, Hugo Florêncio, António Grácio, Gilberto Lobo, Rui Moreira, Paulo Russo, Nuno Portela, e Carlos Azevedo.

Inexperiência ditou leis

Entre 3 a 11 de setembro Istambul recebeu então a fase final do certame continental, que pela primeira vez contava com Portugal. País que olha o pólo aquático de uma maneira algo... desinteressada, há que dizê-lo, e como tal há que sublinhar que o feito deste grupo de entusiastas praticantes da modalidade foi verdadeiramente heróico!

Claramente num nível - muito - abaixo de seleções como a França, Bielorrússia, Ucrânia, ou Moldávia, a seleção lusa - cujos atletas eram semi-profissionais - partia para Istambul com a intenção de aprender algo com jogadores de outro nível, jogadores profissionais que vivem e respiram o pólo aquático diariamente, e não como os lusitanos que se apresentavam nesta fase final com quase nenhumas sessões/estágios de preparação (!), face à sua condição de atletas não profissionais.

Portugal foi integrado no Grupo B do torneio, juntamente com Dinamarca, Malta, Polónia, Israel, e a turma da casa, a Turquia. No primeiro encontro, ante os polacos, logo se percebeu que os portugueses iriam ter muitas dificuldades para escapar ao último lugar da competição, conforme traduz a pesada goleada de 1-12 imposta pelo conjunto de leste. Rui Coelho apontou o tento de honra lusitano.
Na ronda seguinte foi a vez da forte seleção de Malta provar a inexperiência portuguesa nestas andanças, ao vencer os selecionados de Nuno Lobo por concludentes 14-4. Portugueses que acusavam nervosismo face a atletas experientes e bem treinados, e Dinamarca e Israel também não sentiram - grandes - dificuldades em vencer a armada lusa. Ante a seleção da casa Portugal deu finalmente um ar de sua graça, e mesmo perdendo a contenda por expressivos 4-12 mostrou qualidade, mostrando que a sua presença entre alguns dos tubarões do pólo aquático europeu não havia sido mera obra do acaso.

Na fase cruzada entre os grupos A e B, para apurar a classificação final, Portugal lutava para fugir ao último lugar. Uma luta onde a sorte abandonou a equipa nacional, em especial no jogo ante a Bélgica, com quem os portugueses empatavam a quatro golos a poucos minutos do final, dispondo de uma oportunidade flagrante para passar para a frente do marcador, mas... mais uma vez o nervosismo e inexperiência ditaram leis, e os belgas acabariam por vencer por 7-4. O derradeiro jogo foi com a Suíça, e uma derrota vendida de forma muito cara por uns curtos 4-5 ditou que Portugal terminasse esta aventura no último lugar de uma competição que seria ganha pela poderosa França.

No entanto esta foi uma experiência memorável para nomes como Nuno Lobo (selecionador), Jorge Martins (treinador), Nuno Paz (Diretor Técnico), Rui Nuno, Tiago Costa, Paulo Russo, Jorge Coelho, Nuno Portela, Rui Moreira, Rui Coelho, Jaime Milheiro, Hugo Florêncio, Ricardo Vieira, Gonçalo Abrunhosa, Carlos Azevedo, e Gilberto Lobo.

Legenda das fotografias:
1-O histórico selecionado português que em Rio Maior conquistou a qualificação para o Europeu "B"
2-Nuno Lobo, histórico jogador/treinador que comandou os lusitanos nesta aventura

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O pólo aquático lusitano nos Jogos Olímpicos!

Se pudesse escolher uma segunda modalidade de eleição talvez a minha opção fosse para o pólo aquático. Admiração que surgiu naturalmente depois de épocas sobre épocas a fazer a cobertura de jogos a contar para o quase despercebido Campeonato Nacional da 1ª Divisão portuguesa. Infelizmente quase despercebido da grande plateia desportiva lusa, bem longe das luzes do mediatismo de outras modalidades outrora classificadas como amadoras. Há que contudo enaltecer o trabalho que tem sido feito ao longo dos últimos anos por um punhado de amantes do pólo aquático em Portugal no sentido de trabalhar a modalidade a fundo e coloca-la num patamar mais elevado, como tão bem merece.

Dada a pequena dimensão, por assim dizer, da modalidade em Portugal seria hoje em dia impensável ver a seleção nacional da nação lusitana participar num torneio alusivo aos Jogos Olímpicos, por exemplo! Futebolisticamente falando - e lá surge mais uma vez o tema "futebol" (!), paixão eterna esta sempre presente no meu dia a dia - seria o mesmo que ver Malta marcar presença na fase final de um Campeonato do Mundo. Porém há sonhos que por mais irreais que possam parecer, por vezes acabam por ser realidade.

E para conhecermos um desses sonhos bem reais viajamos até 1952, ano em que Helsínquia recebeu os Jogos Olímpicos, tendo o pólo aquático sido uma das muitas modalidades ali exibidas. Torneio olímpico de pólo aquático que foi composto por 21 seleções, entre as quais... Portugal. É verdade, a seleção lusa esteve presente em Helsínquia, naquele que talvez seja olhado como o maior feito da modalidade no nosso país. Na altura Portugal vivia um período positivo no que concerne a esta modalidade, muito devido ao excelente trabalho que era desenvolvido pelo Algés, pela mão de um experiente treinador húngaro de nome Emeric Sacz. Não foi de estranhar então que os bons resultados averbados pelo Algés - a nível nacional e internacional - fizessem com que a Federação Portuguesa de Natação - órgão que tutela o pólo aquático em Portugal - tivesse delegado naquele clube a tarefa de representar o país em Helsínquia! O Algés passou a ser Portugal, apenas e só uma mudança de denominação, já que tudo o resto, jogadores e treinador, foi mantido.

A viagem até à capital finlandesa demorou uma semana a boro do navio Serpa Pinto, no qual viajaram os cerca de 70 atletas que compunham a delegação portuguesa. Sete deles pertenciam ao pólo aquático, nomeadamente Máximo do Couto, Francisco Alves, Armando Moitinha de Almeida (para muitos o melhor jogador português da época), Rodrigo Bessone Basto, João Franco do Vale, João Manuel Correia, e Óscar Cabral. A aventura foi porém curta, muito curta. No primeiro jogo o adversário foi o Egito, que cilindrou a armada lusitana por 10-0. Cansaço da longa viagem? Falta de treinos? De tudo um pouco serviu para justificar esta entrada desastrosa de Portugal nas Olimpíadas. O segundo e último jogo não correu melhor, já que o Brasil bateu Portugal por 6-2, resultado que enviou definitivamente os lusos para casa.
A experiência pode ter sido curta, mas assinalou a página mais brilhante da história do pólo aquático lusitano.

Ah, o torneio olímpico de 52 foi ganho pela Hungria, uma das seleções mais poderosas do planeta.
Em cima a imagem da comitiva portuguesa de pólo aquático que agregava ainda alguns nadadores

Bibliografia: Pólo Aquático - 55 anos de selecção (Lobo, Nuno, 2007)