quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Flashes Biográficos (12): Joreca


JORECA (Futebol): Durante largas dezenas de décadas os laços de sangue entre Portugal e Brasil ajudaram a que milhares de jogadores e treinadores cruzassem o Atlântico em busca de uma oportunidade para alcançar o sucesso no mundo do futebol. Uma viagem cuja balança pende mais - muito mais - na ligação Brasil - Portugal, do que o inverso, ou seja, foram mais os brasileiros que vieram tentar a sua sorte no futebol português do que lusitanos em busca do el dorado em Terras de Vera Cruz. E se ao longo da história os portugueses se habituaram a ver atletas de origem brasileira envergar as cores da seleção nacional lusa - Lúcio foi o pioneiro, nos anos 60, imitado décadas mais tarde por Deco, Pepe, ou Liedson - e treinadores a orientar a equipa das quinas em grandes competições internacionais - Otto Glória foi o mestre que conduziu os Magriços de Eusébio e companhia ao 3º lugar no Campeonato do Mundo de 1966, enquanto que num passado recente o sargentão Scolari foi vice campeão da Europa em 2004, e 4º classificado no Mundial de 2006 - é mais complicado, bem mais, imaginar um português a vestir a mítica camisola canarinha (Casemiro do Amaral foi o único a fazê-lo) ou sequer a sentar-se no banco para orientar o escrete numa qualquer partida de futebol. Impensável, mas não impossível. Como assim? Nesta última função (a de treinador) a resposta está em Joreca, a alcunha de Jorge Gomes de Lima, lisboeta de berço, nascido no longínquo 7 de janeiro de 1904, que como principal cartão de visita tem o facto de ter sido um dos dois únicos estrangeiros a ter o privilégio de treinar a principal seleção do Brasil!

Como já vimos, Jorge Gomes de Lima nasceu em Lisboa no início do século passado, tendo ainda cedo cruzado o Atlântico rumo ao país que haveria de fazer dele um dos melhores treinadores dos anos 40. Precisamente no início da década de 40 Joreca - a alcunha que ganhou pouco depois de assentar arraiais em solo sul-americano - licenciou-se em Educação Física na Universidade de São Paulo, a cidade que o acolheu e que o eternizou no planeta da bola.
Antes mesmo de descobrir a sua vocação como condutor de equipas fez uso da sua extrema habilidade com as palavras, ao tornar-se num apreciado jornalista desportivo, escrevendo crónicas em vários jornais paulistas e espalhando os seus vastos conhecimentos sobre o belo jogo nas frequências da rádio, na qualidade de comentador.
O salto para o terreno de jogo foi dado de forma discreta. Deu as primeiras preleções táticas na seleção paulista de amadores, ao mesmo tempo em que descobria uma outra faceta dentro da modalidade, a de árbitro!
Joreca revelava-se um homem dos 7 ofícios no desporto rei, e foi ele que na qualidade de árbitro dirigiu o jogo de estreia de um tal de... Leônidas da Silva, com a camisola do São Paulo Futebol Clube. Efeméride ocorrida em 1942, precisamente um antes de Joreca assumir o comando técnico do tricolor paulista.
Um casamento que iria durar até 1947, tendo sido pautado por inúmeros momentos de felicidade para ambos os conjugues. No primeiro jogo em que se sentou no banco dos paulistas o portuga Joreca - que  a meio da viagem havia substituído na função o técnico uruguaio Conrado Ross - não brincou em serviço, que o diga a Portuguesa Santista, despachada com uma goleada de 6-1. Joreca entrava com o pé direito. Esse primeiro ano ao serviço de São Paulo seria histórico. Até final da temporada disputou mais 12 partidas, tendo vencido 11 e empatado apenas uma, ante o rival Palmeiras, precisamente o derradeiro encontro do campeonato, o empate que colocaria um ponto final no longo jejum de 12 anos em que o São Paulo esteve arredado dos títulos.

O São Paulo era campeão estadual pela mão de um português, uma conquista marcada pela visão revolucionária daquele homem nascido do lado de lá do imenso Atlântico aliada ao brilho do diamante negro Leônidas da Silva, que assim festejava o seu primeiro título com a camisola tricolor.

O trabalho de Joreca não passou despercebido aos responsáveis da Confederação Brasileira dos Desportos (antecessora da atual Confederação Brasileira de Futebol) que no ano seguinte convidaram o luso a treinar nada mais nada menos do que a seleção brasileira! A tarefa seria dividida com Flávio Costa, que juntamente com o treinador português formou assim uma espécie de comissão técnica para dois jogos amigáveis que o escrete disputou em maio de 1944. Ambos tiveram como adversário o Uruguai, tendo o primeiro encontro sido realizado no Estádio São Januário, no Rio de Janeiro, saldado por um robusto triunfo brasileiro por 6-1. Quatro dias depois repetiu-se a dose, embora com números mais modestos, no Pacaembu, de São Paulo, onde a seleção derrotava os vizinhos charruas por 4-0.

A carreira de Joreca no combinado nacional do Brasil foi curta, pois logo de seguida Flávio Costa segurava o leme da equipa sozinho até 1950, ano em que perdeu o título mundial para o Uruguai em pleno Maracanã!

Após ter-se tornado no PRIMEIRO ESTRANGEIRO A TREINAR A SELEÇÃO BRASILEIRA - facto histórico, muita atenção! - Joreca voltou ao São Paulo, onde conquistaria mais dois títulos de campeão estadual. O primeiro em 1945, e o segundo um ano depois, este de forma invicta (!), algo nunca mais reptido na história do tricolor paulista. Saiu do clube em 1947, com um fabuloso registo de 166 jogos disputados, 109 vitórias conquistadas, 31 empates averbados, e somente 26 desaires, sendo ainda hoje o terceiro treinador na história do São Paulo que mais títulos oficiais venceu.

Joreca deixou a casa que o catapultou para a fama, e que ele que próprio fez regressar à fama, há que sublinhá-lo, mas não deixou o seu amado futebol.
Em janeiro de 1949 espeta um punhal no coração dos acérrimos adeptos do tricolor paulista ao assinar pelo eterno rival Corinthians, emblema que orientou durante 52 partidas, tendo entre outros feitos lançado para a rivalta um dos maiores ídolos da fiel torcida corintiana, Baltazar, o cabecinha de ouro. O sucesso de Joreca no Coringão foi muito curto, já que no final desse ano de 1949 - 5 de dezembro para sermos mais precisos - o português mais brasileiro de sempre - no que ao futebol diz respeito - morria vitimado por um ataque cardíaco.
Além do desporto rei ainda fez uma perninha no boxe, subindo ao ringue em duas ocasiões, e em ambas saiu vitorioso!

Legenda das fotografias:
1- Jorge Gomes de Lima, eternizado como Joreca
2-Como árbitro da Federação Paulista de Futebol
3-A equipa do São Paulo que venceu o campeonato estadual de 1943, onde Leônidas da Silva (é o jogador do meio na fila de baixo) assumiu o papel de estrela
4-O São Paulo campeão estadual de 1946, de forma invicta. Joreca é o primeiro elemento (da direita para a esquerda) da fila de cima
5-Abraçado pelos seus pupilos do tricolor paulista após a conquista de mais uma vitória

Flashes Biográficos (11): Anselmo Fernandez


ANSELMO FERNANDEZ (Futebol): Nunca uma passagem tão fugaz pelo comando técnico de uma equipa gerou tanto sucesso como aquele angariado por este “mestre da tática”. Pelo seu punho ajudou o Sporting Clube de Portugal – o seu clube do coração – a escrever uma das páginas mais reluzentes da sua gloriosa história. O seu amor ao futebol era puro e desinteressado, tão desinteressado que nunca quis viver às custas desta nobre modalidade. Assim não o tivesse feito - por outras palavras, se tivesse abraçado a bola como profissão a tempo inteiro - e hoje estaríamos aqui a recordar os feitos de uma lenda mundial das táticas como foram Herbert Chapman, Hugo Meisl, Vittorio Pozzo, Sepp Herberger, Bobby Robson, Alf Ramsey, Rinus Michels, entre outros, muitos outros homens que mais do que terem conquistado títulos de grande prestígio internacional ao longo das suas carreiras ajudaram o desporto rei a evoluir. Foram os cientistas da bola, imaginando e aplicando novos conceitos táticos que revolucionaram o jogo ao longo de décadas. A ilustre personalidade de hoje andou muito perto do caminho da imortalidade no que concerne aos “mestres da táctica” já que também ele era um visionista, um homem que vivia adiantado no tempo.
Sem mais demoras apresentamos Anselmo Fernandez, o arquiteto, o homem que conduziu o Sporting à conquista da Taça dos Vencedores das Taças em 1964. Mas já lá vamos.

Anselmo Fernandez nasceu em Lisboa a 21 de agosto de 1918 e desde cedo – como tantos outros – se deixou enfeitiçar pelo bichinho da bola. Aos 16 anos iniciou a sua curta carreira de futebolista no emblema da sua paixão, o Sporting. E curta porque uma apendicite o afastaria de uma possível carreira promissora. Desistiu do futebol mas não do desporto, enquanto praticante, sendo que tempos mais tarde iniciaria uma aventura no râguebi. Numa altura em que o profissionalismo no desporto estava ainda a léguas de ver a luz do dia Anselmo Fernandez nunca perdeu os estudos de vista, pelo que na hora de eleger uma profissão optou pela arquitetura.

Uma área onde foi mestre, não só nos edifícios que criou – entre outros foi responsável pela construção do Hotel Tivoli, e da Reitoria da Universidade, ambos em Lisboa, e com Sá da Costa foi também um dos mentores do projeto do antigo Estádio José de Alvalade – mas também nos projetos táticos que haveria de desenhar de leão ao peito na década de 60.
Possuidor de um estilo de treino muito particular – entre outros aspetos foi o primeiro treinador português a recorrer ao vídeo para analisar os adversários – Anselmo Fernandez é chamado em 1962 a substituir o mítico treinador húngaro Joseph Szabo no comando do seu Sporting. Faria cinco jogos, e nos cinco obteve outras tantas vitórias. Desta primeira passagem pelo banco leonino encontrei recentemente um relato que o próprio Anselmo Fernandez fez ao jornal “A Bola”, o qual passo a reproduzir na integra:
Em 1962, dirigentes do Sporting pediram-lhe que se tornasse supervisor técnico do futebol do clube, para apoiar Szabo, que era já treinador com a estrela empalidecida. «As coisas estavam a correr mal, chamaram-me a dar um jeito, em cinco jogos cinco vitórias, uma delas, sensacional, sobre o FC Porto, no Porto. Os portistas, depois de terem empatado na Luz, ficaram com o título quase garantido, mas nós acabámos por tramá-los...»
Foi nesse jogo do Porto que Anselmo Fernandez trouxe à colação os primeiros indícios da sua argúcia. E da sua personalidade. «Para esse jogo, não viajara com a equipa. Quando chegaram ao Porto, já eu estava no Hotel Batalha. Disseram-me que o Carvalho se portara
mal e que o Lúcio decidira, por si, comer três pregos e beber três cervejas em Aveiro, onde parámos para comer uma sande de fiambre e beber um sumo. Disse logo ao Juca, que era o treinador de campo, que não jogariam. Ficou em pânico! Quem poderia substituí-los? Disse-lhe que o Libânio e o Morato. Houve logo quem pensasse que eu endoidecera. Mais convencidos disso ficaram quando me recusei a ir para o banco e quando vibrei com o golo do empate do... F. C. Porto! Manuel Nazaré, que me acompanhara para um recanto do relvado, perguntou-me, então, o que se passara. Disse-lhe que aquele golo do F. C. Porto, pouco antes do intervalo era uma... leitaria, que, assim, ganharíamos pela certa. Assim foi, vencemos por 3-1. O Campeonato acabou, ofereceram-me uma fortuna, não quis, não era parvo e como era arquiteto...»

Posto isto, um interregno de dois anos surgiu no caminho do arquiteto no que concerne ao trabalho direto com o futebol. Regressaria na temporada de 1963/64 e de novo ao comando do clube que tanto amava, o Sporting. Desta feita para substituir o brasileiro Gentil Cardoso, uma troca que não poderia ter um final mais feliz. Gentil Cardoso saíra do clube pela porta pequena após ter sido goleado em Manchester por 4-1 pelo United local num encontro a contar para a 1ª mão dos quartos-de-final da Taça dos Vencedores da Taças (TVT), na altura já a segunda prova europeia mais importante ao nível de clubes da UEFA. Recorrendo uma vez mais aos arquivos históricos do jornal “A Bola” recordemos então o que se passou a seguir à terrível noite de Old Trafford.

Ao jantar, depois do jogo maldito, os diretores estavam desolados. Aparentemente resignados. «Manuel Nazaré afirmou-me que nada haveria a fazer, que estávamos lixados. Gracejando, disse-lhe que comigo como treinador talvez não... O desabafo passou como ironia. Nem eu queria que fosse outra coisa. No domingo seguinte, contra o Olhanense, estava o Sporting empatado,
1-1, deixei o camarote, 15 minutos antes de o jogo terminar, cheguei a casa, disse à minha mulher que não tardaria a tocar o telefone. Assim foi. Era o Nazaré a convidar-me para treinador. Aceitei e chamei o Francisco Reboredo, que estava nos juniores do F. C. Porto, para treinador de campo. Na estreia, contra o Benfica, na Luz, empate a 2-2. E quarta-feira, aquele jogo mágico dos 5-0 ao Manchester, a caminhada fulgurante para a conquista da Taça das Taças...»

Pois é, a epopeia começa aqui a escrever-se no célebre jogo da 2ª mão em Alvalade ante o Manchester United treinado por outra lenda da tática, Matt Busby. Missão impossível para muitos, incluindo grande parte da família sportinguitsa, o que é certo é que naquela noite o futebol português viveu um dos momentos mais felizes e épicos da sua longa e gloriosa história, muito à custa do Sporting e em particular do homem que comandava os seus destinos desde então: o “arquiteto”. 5-0 e a eliminatória estava virada e o Sporting alcançado as meias-finais da prova europeia. O poderoso Manchester tinha sido vergado face a uma exibição do... outro mundo de 11 leões indomáveis. Mas a viagem de sonho não iria ficar-se por ali, muito longe disso. Antuérpia, bela cidade belga, seria o porto de destino – final – da nau leonina. Localidade onde foi realizada a finalissíma da TVT dessa temporada na sequência de um empate a três golos na final de Bruxelas. Em Antuérpia Morais deu aso ao sonho de trazer para Portugal a primeira e única TVT. E tudo aconteceu graças a um golo de canto direto... o cantinho do Morais como ficou eternizado. O Sporting vencia assim o seu único – até à data – troféu internacional. Um vitória arquitetada por Anselmo Fernandez, um homem que durante essa gloriosa campanha europeia não quis receber um único tostão que fosse do clube. Fez tudo por amor... amor ao futebol e ao Sporting.
“A Bola” recordou então que...

No entanto, quando Brás Medeiros tomou a presidência do Sporting, Jaime Duarte decidiu propor-lhe um verdadeiro contrato de treinador, oficializando uma situação que não era
justo continuar assim. «Ofereceram-me 15 contos por mês, valor que, naquela altura, era baixo para um treinaador, sobretudo depois da vitória na Taça das Taças. Aceitei. Só recebi um mês, porque, já na época seguinte, depois de ganharmos 4-0 ao Bordéus, demiti-me simplesmente porque, antes do jogo, o vice-presidente Pereira da Silva decidiu enviar aos emigrantes em França uma carta de captação de simpatias, com as assinaturas de 11
jogadores. Leu a carta, ao almoço, embevecido, perguntou-me a opinião, disse-lhe que a ideia era gira, mas que achava que, por enquanto, ainda era eu o treinador, não percebendo, por isso, porque estavam lá aqueles 11 nomes e não outros. Ganhámos e... em Lisboa, demiti-me. Nunca mais voltei ao Sporting...»

Anos mais tarde quando treinava a CUF – conjunto que levou à Taça UEFA – um terrível acidente de viação na ponte sobre o Tejo (Lisboa) colocou-o às portas da morte. Foi submetido a uma delicada operação ao cérebro, passando vários meses em coma. Driblou a morte e remeteu desde então o futebol para o baú das recordações. À “A Bola” recordaria anos mais tarde que «as luzes e a glória perturbaram-me. Por isso não me magoa que 99% dos sportinguistas possam não saber que o treinador do Sporting que ganhou a TVT foi um arquiteto de profissão, filho de espanhóis de Zamora, mas que nasceu em Lisboa e fez do Sporting a sua mais apaixonante ligação a Portugal».
Morreria a 19 de Janeiro de 2000, em Madrid.

Legenda das fotografias:
1- Anselmo Fernandez
2- A célebre equipa do Sporting que conquistou a TVT

domingo, 11 de agosto de 2019

A epopeia do primeiro título internacional de Portugal

O cartaz oficial do Europeu
de juniores de 1961

O nascimento da Primavera de 1961 trouxe consigo a primeira grande conquista do futebol português no plano internacional: o título de campeão europeu de juniores. Um êxito consumado em território luso, que entre 28 de março e 9 de abril desse longínquo ano foi palco da 14ª edição do Torneio Internacional de Juniores da UEFA, a prova que antecedeu ao atual Campeonato da Europa de Sub-21. Treze seleções marcaram presença num certame que foi desenrolado nas cidades de Braga, Porto, Coimbra, Leiria, Évora e Lisboa. Entre esses 13 combinados nacionais encontrava-se o talentoso grupo português, formado por excelentes executantes, sendo que grande parte deles havia sido responsável pelo brilhante 3º lugar conquistado um ano antes no Europeu da categoria realizado na Áustria. Selecionado lusitano que em 1961 foi arquitetado por uma talentosa dupla de profundos conhecedores do desporto rei que então davam os primeiros passos nas suas notáveis carreiras. Um deles dava pelo nome de David Sequerra, jovem jornalista do Mundo Desportivo que com apenas 26 anos assumia as funções de selecionador nacional, enquanto que o outro era nem mais nem menos do que José Maria Pedroto, figura que após encerrar uma estupenda carreira de futebolista iniciava um não menos estupendo - e inigualável - percurso como mestre da tática - vulgo treinador. Dois homens que abriram então o caminho da glória do futebol lusitano no plano internacional, sobretudo ao nível dos escalões de formação, onde Portugal criou uma imagem vencedora nas décadas que se seguiram. Mas em 1961 seria porventura impensável ver a nação ibérica subir ao lugar mais alto do pódio fosse em que competição fosse.

Colónia Balnear "O Século" no início
da década de 60
De tal modo que um misto de surpresa e alegria pairou sobre o Estádio da Luz a 8 de abril desse ano, dia em que os putos portugueses esmagaram a Polónia por 4-0 e sagraram-se campeões da Europa. Um sonho real que teve início cerca de duas semanas antes, quando no Porto, no Estádio das Antas, a seleção lusa alcançou um difícil empate a zero bolas diante de uma das grandes favoritas a vencer a competição, a Itália, em jogo a contar para o Grupo A. Em 2 de abril Portugal jogava o tudo ou nada no Estádio de Alvalade ante a Inglaterra. Sabendo da importância de uma vitória para seguir em frente os jovens portugueses colocaram em campo todo o seu talento, e munidos ainda de um forte espírito de união cilindraram a armada britânica por 4-0, com golos de António Simões, Mário Nunes e Serafim, este último com dois tentos na conta pessoal. Face a este pesado score de nada valeu a sofrida vitória dos italianos dois dias depois, em Braga, ante os ingleses, por 3-2, já que face à diferença entre golos marcados e sofridos os lusos ficaram com o primeiro lugar do grupo e o consequente passaporte para as meias-finais.

No início dos anos 60 Portugal ainda era um país com muitas carências: ao nível de infraestruturas, vias de comunicação, ou transportes, por exemplo. Não foi pois de admirar que o torneio se tivesse desenrolado sob diversos constrangimentos, sobretudo ao nível de alojamento das 13 equipas e do transporte das mesmas. Com parcos recursos financeiros para suportar as despesas inerentes ao torneio a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) optou por alojar as seleções participantes na Colónia Balnear Infantil "O Século", em São João do Estoril. Um alojamento modesto, sem grandes condições, onde os jogadores dormiam com os pés de fora, visto que as camas ali existentes eram destinadas a crianças! Descontente com esta situação a seleção italiana logo tratou de custear um hotel melhor para os seus atletas, escolhendo uma das melhores unidades hoteleiras da costa do Estoril. A juntar a estas condições o facto de as seleções viajarem de cidade em cidade em velhos comboios poeirentos... Era assim o Portugal de então. Apesar de todas estas barreiras estruturais a seleção nacional continuava o seu trajeto imaculado na prova, sendo que nas meias-finais defrontou a vizinha Espanha no Estádio José de Alvalade. Partida onde Serafim, avançado corpulento que pertencia aos quadros do FC Porto, voltou a ser o abono de família, apontando três dos quatro golos - o outro foi do capitão Crispim - com que a seleção afastou os espanhóis e garantiu assim a presença na final.

David Sequerra e Pedroto,
a dupla que arquitetou o título
europeu de 1961
A campanha dos jovens lusos despertou grande euforia numa nação carente de vitórias desportivas. Diga-se em nota de rodapé que em termos de historial Portugal somava quatro vitórias, outros tantos empates, e igual número de derrotas nos 12 jogos que desde 1954 - ano em que este torneio da UEFA conheceu a sua primeira edição - havia disputado no Torneio Internacional de Juniores. Foi pois com profundo entusiasmo e atenção que os portugueses encararam a grande final de 8 de abril, no Estádio da Luz, protagonizada pelas seleções de Portugal e da Polónia. Sob arbitragem do espanhol José Ortiz de Mendibil os pupilos de José Maria Pedroto deram mais um recital de futebol, chegando à vantagem logo ao minuto 9 pelo inevitável Serafim. Este atleta haveria de ser a figura do dia, já que em mais três ocasiões - aos minutos 27, 49 e 78 - faria o gosto ao pé, consumando assim o primeiro grande título internacional do futebol português. Pelos seus 9 golos - que o consagraram o melhor marcador do torneio - Serafim foi naturalmente um dos rostos que viria a ganhar notoriedade no palco principal do futebol, isto é, no patamar sénior. Avançado possante e atlético ele tornar-se-ia nos anos seguintes titular indiscutível do FC Porto, formando uma veloz ala esquerda com Nóbrega. Em 1963 transferiu-se para o Benfica, naquela que foi a transferência mais cara até então do futebol português. Na Luz não deu seguimento ao seu potencial, visto que na equipa titular dos lisboetas figuravam nomes como Eusébio, José Torres, ou Simões. Ao serviço do Benfica só efetuou cinco jogos a contar para as competições europeias, todos eles referentes à Taça dos Campeões Europeus. A partir da época de 1966 / 67 passou a representar a Associação Académica de Coimbra.

António Simões
Outro dos nomes que viria a fazer furor nos anos seguintes foi o de António Simões, veloz e hábil extremo do Benfica, clube onde viria a atingir a glória juntamente com Eusébio, Mário Coluna, José Torres, ou José Augusto, nomes que fizeram do clube da Luz um dos gigantes do futebol continental da década de 60. Fernando Peres, Oliveira Duarte, ou o guarda-redes Rui Teixeira, foram outros dos jovens campeões da Europa de 61 que vingaram no patamar sénior, edificando carreiras notáveis quer ao serviço dos seus respetivos clubes quer na principal seleção nacional. Neste último combinado o jogador daquela equipa de 1961 que mais se distinguiu foi talvez António Simões, que de quinas ao peito foi um dos protagonistas da epopeia portuguesa vivida no Campeonato do Mundo de 1966, realizado em Inglaterra, onde Portugal conquistou, como se sabe, um inesquecível 3º lugar. Terá pois algum cabimento dizer que a vitória da seleção de juniores em 61 abriu o caminho das vitórias internacionais do futebol português, o qual na década de 60 viu o Benfica sagra-se bi-campeão da Europa de clubes, o Sporting vencer a Taça dos Vencedores das Taças, e a já citada e formidável campanha de Portugal no Inglaterra 66.

Serafim, o goleador
do torneio
Onda vitoriosa internacional que teve continuidade nas décadas seguintes, com as seleções jovens de Portugal a triunfarem em diversas competições organizadas pela UEFA e pela FIFA - destacando-se aqui os títulos de campeões mundiais de sub-20 em 1989 e 1991.
É pois justo dizer-se que tudo começou na Primavera de 61, graças à brilhante vitória alcançada por Rui Teixeira (FC Porto), João Melo (Benfica), Armelim Viegas (Académica), Amândio Gonçalves (Benfica), Santos Nogueira (Benfica), Valdemar Pacheco (FC Porto), Tito (Leões de Santarém), Faria (FC Porto), Calhau (Sanjoanense), Manuel Carriço (Vitória de Setúbal), Manuel Moreira (Leixões), Manuel Rodrigues (Belenenses), Oliveira Duarte (Sporting), José Crispim (Académica), Rebelo (Académica), Mário Nunes (Académica), Jorge Lopes (Benfica), José António (Barreirense), Serafim Pereira (FC Porto), Fernando Peres (Belenenses), Luís Mira (Barreirense) e António Simões (Benfica), os 22 atletas que sob o comando da jovem dupla David Sequerra e José Mania Pedroto venceram este Torneio Internacional de Juniores da UEFA.

Os arquitetos do êxito: David Sequerra e Pedroto

David Sequerra
Naturalmente que o talento dos 22 futebolistas selecionados para este Europeu de juniores foi fator fundamental para que a seleção alcançasse o título, mas a responsabilidade da descoberta e exploração desse talento deve ser repartida por dois homens: David Sequerra e José Maria Pedroto. O primeiro era, como já referimos, um jovem jornalista, especializado no futebol jovem. Este brilhante homem das letras - que integra a seleção de grandes mestres do jornalismo desportivo nacional (de todos os tempos), ao lado de Cândido de Oliveira, Homero Serpa, Cruz dos Santos, Aurélio Márcio, Neves de Sousa, ou Tavares da Silva - iniciou o seu percurso aos 20 anos, no Mundo Desportivo, jornal de referência da época onde dedicou especial atenção ao futebol de formação, criando para isso uma coluna no citado jornal intitulada "Acompanhando os Jovens". Os seus vastos conhecimentos no futebol de formação valeram-lhe então o convite da FPF para o cargo de selecionador nacional das equipas mais jovens de Portugal. E para o treino de campo David Sequerra escolheu em 1961 outro jovem, um homem que havia dado por encerrada uma notável carreira de futebolista - ao serviço de clubes como o Leixões, Lusitano de Vila Real de Santo António, Belenenses e FC Porto - precisamente um ano antes, de seu nome José Maria Pedroto.

José Maria Pedroto
Natural de Lamego, onde nasceu a 21 de outubro de 1928, Pedroto abraçava na seleção de juniores a sua primeira experiência como treinador principal. E desde logo vincou a sua veia de mestre, de revolucionário - no bom sentido -, de exímio líder que aliava profundos conhecimentos futebolísticos a um poder notável de motivação. Estes foram alguns dos condimentos que fizeram de Pedroto um mestre da tática, um dos melhores de todos os tempos do futebol português. Um vencedor, acima de tudo. Depois das seleções jovens o Zé do Boné - como ficou eternizado graças à peculiar indumentária habitual que usava no seu dia-a-dia - colocou a sua inteligência e visão avançada no tempo ao serviço de emblemas como a Académica, o Leixões, o Varzim, o Vitória de Setúbal, e o Boavista - sendo que nestes dois clubes alcançou êxitos nunca dantes vividos por estes emblemas. Mas seria ao serviço do clube do seu coração, o FC Porto, que atingiu o topo da montanha da glória. Para os portistas Pedroto significou a viragem. Pedroto fez do FC Porto um clube vencedor, criou uma mística que perdura até hoje na Invicta, um mística de conquistas, uma mística de glória. Pedroto abriu o caminho dos títulos ao clube azul e branco, um caminho que idealizado juntamente com o seu grande amigo Jorge Nuno Pinto da Costa, o homem que há mais de três décadas se mantém no comando do clube. É justo dizer-se que Pedroto foi um dos arquitetos do FC Porto dos dias de hoje, um clube de dimensão mundial.
O capitão Crispim recebe a taça

Números do Torneio Internacional de Juniores da UEFA de 1961

Grupo A
Porto (Estádio das Antas): Portugal-Itália 0-0
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Inglaterra 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Itália-Inglaterra 3-2

Classificação:
1. Portugal – 3 pontos
2. Itália – 3 pontos
3. Inglaterra – 0 pontos

Grupo B
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Áustria 6-3
Lisboa (Estádio do Restelo): Turquia-Espanha 2-2
Coimbra (Estádio Municipal): Espanha-Áustria 6-1

Classificação:
1. Espanha – 3 pontos
2. Turquia – 3 pontos
3. Áustria – 0 pontos

Grupo C
Leiria (Estádio Municipal): Alemanha-Bélgica 4-0
Braga (Estádio 28 de Maio): Roménia-Holanda 3-1
Lisboa (Estádio do Restelo): Bélgica-Holanda 1-1
Lisboa (Estádio de Alvalade): Alemanha-Roménia 0-0
Lisboa (Estádio da Luz): Alemanha-Holanda 3-0
Coimbra (Estádio Municipal): Roménia-Bélgica 1-0

Classificação:

1. Alemanha Ocidental – 5 pontos
2. Roménia – 5 pontos
3. Holanda – 1 ponto
4. Bélgica – 1 ponto

Grupo D
Leiria (Estádio Municipal): Polónia-França 4-1
Évora (Campo da Estrela): França-Grécia 3-2
Lisboa (Estádio da Luz): Polónia-Grécia 2-2

Classificação:

1. Polónia – 3 pontos
2. França – 2 pontos
3. Grécia – 1 ponto

Meias-finais
Lisboa (Estádio de Alvalade): Portugal-Espanha 4-1
Porto (Estádio das Antas): Polónia-Alemanha 2-1

3º/4º lugar
Lisboa (Estádio Nacional): Alemanha-Espanha 2-1

Seleção portuguesa que foi campeão europeia de juniores em 1961
Final
Lisboa (Estádio da Luz): Portugal - Polónia 4-0