sexta-feira, 19 de julho de 2024

A prata olímpica conquistada para Portugal pela filha do Velho Lau

“Filho de peixe sabe nadar”, uma expressão popular que pode ser aplicada nesta memória olímpica, que alude à conquista da medalha de prata no triatlo por parte de Vanessa Fernandes, filha de um grande campeão das duas rodas (vulgo, ciclismo), de seu nome Venceslau Fernandes. Nascida a 14 de setembro de 1985, em Vila Nova de Gaia, a filha do Velho Lau – como era conhecido este ciclista luso dos anos 70 e 80 –  viveu o seu momento de glória enquanto triatleta nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, quando trouxe para Portugal uma medalha de prata. Puxando um pouco a fita atrás, é de recordar Vanessa Fernandes iniciou a prática de natação aos 6 anos de idade, sendo que aos 13 inicia a prática de atletismo no FC Porto, ao passo que um ano depois junta a estas duas modalidades o ciclismo e dá início ao seu trajeto de glória no triatlo (modalidade que agrega natação, ciclismo e atletismo). A primeira grande conquista acontece já no novo milénio, em 2001, quando se sagra vice-campeã da Europa de juniores em duatlo (atletismo e ciclismo), para no ano seguinte arrecadar duas medalhas de bronze nos Europeus de juniores de duatlo e de triatlo. O nome de Vanessa Fernandes começou a ser falado de forma mais regular nos quatro cantos do país, e não só, em 2003, altura em que é campeã da Europa de juniores de triatlo. Passa de promessa a certeza da modalidade. Em 2004, vence novamente o Campeonato da Europa de triatlo, desta feita na categoria Elite, numa prova realizada em Valência; e no escalão de sub-23, em competição realizada na Hungria. É neste ano de 2004 que tem a sua primeira aparição olímpica, nos Jogos de Atenas, onde alcança um 8.º lugar na prova de triatlo. Até aos Jogos seguintes, dali a quatro anos em Pequim, soma inúmeras vitórias nacionais e internacionais (com destaque para uma série de 12 vitórias consecutivas em etapas da Taça do Mundo de triatlo), sendo por esta altura considerada a melhor atleta do circuito mundial da modalidade. Em 2007 é campeã mundial de triatlo (em Hamburgo) e de duatlo (em Gyor). É, pois, com um elevado estatuto que chega a Pequim, em 2008, para a sua segunda Olimpíada, partindo como uma das principais favoritas à conquista do ouro olímpico. A prova feminina de triatlo realizou-se numa manhã escaldante, numa localidade situada a 30 km de Pequim. Vanessa usava o dorsal número 54, e de pronto atira-se à água com uma vontade férrea de conquistar uma medalha para Portugal. Na prova de natação, que teve um percurso de 1,5 km, a portuguesa teve um forte arranque, colando-se de pronto ao grupo da frente. Termina este primeiro teste na 11.ª posição, e de pronto pega na bicicleta para dar início à prova de ciclismo, que tinha um percurso de 40 km. Tal como na natação, o arranque de Vanessa Fernandes foi forte, chegando mesmo a estar na liderança da corrida, fazendo a transição para a prova de atletismo no 9.º lugar da classificação geral. Na corrida de 10 km, a portuguesa correu a um ritmo alto, atacando as atletas que seguiam à sua frente, e com passada largas começou a distanciar-se de “uma atrás de outra”. Com a meta à vista, Vanessa Fernandes ganhou uma energia renovada e chegou ao fim no 2.º lugar, com o tempo de 1h59m34s, sendo apenas superada pela australiana Emma Snowsill, a campeão olímpica, com um registo de 1h58m27s. Cansada, mas feliz, era assim que a vice-campeã olímpica - e por consequência medalha de prata - Vanessa Fernandes se apresentou no pódio, sublinhando à comunicação social que tinha mostrado (um pouco) aquilo que valia. «O pódio era o meu objetivo, mas sei que valho mais do que fiz nesta prova. Sei que foi um feito grande», disse. E foi, de facto, como mais tarde comprovou a sua chegada a Portugal, em que na companhia do seu pai foi recebida em apoteose por milhares de portugueses no Aeroporto de Lisboa. 

terça-feira, 2 de julho de 2024

O FC Porto de Vítor Hugo eclipsou o poderoso Sporting de Livramento na primeira final internacional 100% portuguesa

Com o aparecimento das competições europeias de hóquei patins na segunda metade dos anos 70 do século passado, foi com naturalidade que os clubes portugueses começaram a enriquecer os seus currículos a nível internacional no seio da modalidade. Ou não fosse Portugal uma das maiores potências do hóquei sobre rodas. No início da década de 80 já o país tinha nas suas vitrinas as três principais taças europeias à época, nomeadamente a Taça dos Campeões Europeus (conquistada pelo Sporting em 1977), a Taça CERS (arrecadada em 1981 pelo Sesimbra) e a Taça das Taças (à conta do Oeiras em três ocasiões – 1977, 1978 e 1979 – e do Sporting, em 1981). E eis que na temporada de 81/82 dá-se um momento até então inédito no hóquei patinado luso: o facto de uma final europeia ser disputada por duas equipas nacionais. Pois bem, o detentor do troféu, o Sporting, tentava segurar o título diante do FC Porto, numa dupla final, isto é, jogada a duas mãos, que ficou nos anais da história da modalidade, como iremos perceber nas próximas linhas à boleia da Gazeta dos Desportos. Orientado pela lenda do hóquei planetário António Livramento, o Sporting entrou a todo o gás no rinque no jogo da primeira mão da final, realizado no Pavilhão das Antas, com 6000 espectadores nas bancadas. Logo aos 2 minutos, Sobrinho sticou com êxito para o fundo da baliza de Domingos, perante a euforia de Livramento, que do banco incentivava a sua rapaziada com gritos de que estes iriam vencer aquele encontro. 

Livramento passa o trono a Vítor Hugo

Puro engano. Três minutos volvidos começou o recital portista, com Vítor Hugo a assumir o papel de maestro. O número 4 do FC Porto fez o empate, a partir dali a turma da casa contrariando as expectativas iniciais – que davam favoritismo aos lisboetas – partiu para uma exibição de gala, arrebatadora, expressa em números volumosos: 13-4 a favor dos azuis e brancos. Nem o recém-eleito presidente portista, Jorge Nuno Pinto da Costa, esperava um score tão dilatado antes da partida, ele que antes
da sticada inicial vaticinou que o seu clube iria vencer por 3 golos de diferença. Olarilolé, quais 3 golos de diferença? Foram 9 e podiam ter sido mais, visto que o Sporting não mostrou talento, imaginação, força física, velocidade e frieza nos poucos lances perigosos que construiu, segundo a análise do jornalista da Gazeta que presenciou o encontro, Eugénio Queirós. «A verdade, verdadinha, é que os campeões nacionais e detentores da taça (das taças) tiveram um adversário que não contavam (?) à partida. Esse puto, ou antes, esse senhor, foi Vítor Hugo», escrevia o jornalista para apresentar a grande estrela deste encontro da 1.ª mão da final, precisamente Vítor Hugo, que só à sua conta apontou 7 dos 13 golos portistas, tendo os outros sido da autoria de Alves, Vale (3), e Vítor Bruno (2). O FC Porto na primeira metade deixou algum espaço de manobra aos leões, contra-atacando com uma rapidez estonteante, o que fez com que os golos fossem surgindo em catadupa, como comprova o resultado ao intervalo: 8-2. 

Na segunda parte os portistas mudaram a tática, isto é, passaram do contra-ataque ao ataque, apontando mais 5 tentos e eclipsando completamente as estrelas do Sporting, que eram na altura também alguns dos mais notáveis hoquistas portugueses, casos do guarda-redes Ramalhete (que teve uma noite para esquecer), de Chana (que de acordo com as palavras do jornalista de serviço, nem sei viu), ou de Sobrinho (que foi o menos mau dos lisboetas). A vitória não sofreu qualquer tipo de contestação, sendo que no final, o técnico António Livramento comarcaria por dizer que o «hóquei é um jogo de surpresas, onde tudo pode acontecer. Hoje o FC Porto esteve inspirado e nós tivemos uma noite infeliz. Com certeza que nem os próprios portistas pensavam alcançar tão alargado resultado. Aconteceu. Agora iremos tentar recuperar em Alvalade. Lá, senão conseguirmos a recuperação, terei a certeza de que, como aqui, perdemos de cabeça erguida», disse o lendário ex-jogador. E o trono deixado vago precisamente por Livramento enquanto melhor jogador português – e do Mundo, porque não? – estava prestes a ser ocupado por um jovem chamado Vítor Hugo, o tal número 4 portista que neste primeiro jogo abateu quase sozinho os poderosos leões. Questionado se o talentoso hoquista portista poderia ser o seu substituto enquanto estrela do hóquei, Livramento respondeu que de facto o atleta do FC Porto era «um jogador cheio de vontade e arte, eu conheço-o muito bem. Ele poderá vir a ser uma peça importante no nosso hóquei patinado». Quem teve uma noite horrível foi o titular da baliza do Sporting e da seleção nacional, António Ramalhete, que assumiu as suas culpas neste inesperado e avolumado resultado. «Penso que errei em alguns lances, pois encontro-me longe da minha melhor forma. Mas o último a falhar é sempre o mais notado. Um guarda-redes de hóquei em patins quando se coloca entre os postes não sabe se vai sofrer um, dois, ou dez golos. É imprevisível», disse, enquanto que também Chana lamentava a pesada derrota, ao mesmo tempo que mostrava esperança em mostrar uma outra cara em Alvalade no encontro da segunda mão: «Hoje o Sporting foi manifestamente infeliz e tudo lhe correu mal. Paciência. Em Alvalade iremos tentar retificar a imagem hoje criada»

Do lado dos vencedores vivia-se, naturalmente, um clima de alegria. O treinador portista, João de Brito, colocava um travão na euforia, dizendo que «o resultado não vai afetar a minha equipa e vou avisar os jogadores para não embandeirarem em arco, porque a eliminatória ainda não está ganha». A estrela da noite foi, como já vimos, Vítor Hugo, que à reportagem da Gazeta dos Desportos disse que aquele tinha sido um bom jogo e uma não menos boa vitória. 1982 tinha sido igualmente ano de Campeonato do Mundo, desta feita realizado em Barcelos, tendo o hoquista do FC Porto estado ausente da convocatória do selecionador nacional… António Livramento. No sentido de perceber se esta exibição havia sido digamos que um grito de revolta para com Livramento – quer acumulava também as funções de treinador do Sporting –, Vítor Hugo logo tratou de desmistificar essa ideia, referindo que em Barcelos a seleção não precisou dele, «e a prova é que se sagraram campeões do Mundo».

Ao Sporting não chegou sonhar... 

A segunda mão desta final realizou-se na Nave de Alvalade, onde o Sporting tinha uma missão quase impossível de reverter, como se viria a confirmar. Porém, os leões apresentaram uma outra atitude, tendo protagonizado um jogo que foi escaldante, equilibrado, mas com uma «previsível vitória global dos portistas», assim começou por escrever o jornalista da Gazeta encarregue de contar as incidências do encontro, José Carlos Freitas. O Sporting entrou de rompante no rinque, mas seria o FC Porto a gelar os cerca de 3000 espectadores presentes na Nave de Alvalade, quando correu desde a sua área até à baliza leonina ao longo de 15 metres para desferir um remate que seria desviado com êxito por Alves. O Sporting reagiu, deu a volta ao marcador, com golos de Trindade e Sobrinho, mas antes do intervalo os portistas assumiram o comando do jogo, e Vítor Hugo, Vítor Bruno (em duas ocasiões) e Vale bateram com êxito o guardião Ramalhete, dilatando assim ainda mais a folgada vantagem que traziam da primeira mão. Antes do descanso, Chana encurtou distâncias no marcador, mas a contenda estava mais do que a feição dos portistas que «aproveitando-se do balanceamento ofensivo do Sporting e da sua falta de rapidez, souberam aproveitar da melhor forma o contra-ataque, ao mesmo tempo que, quando de posse de bola, conseguiram enervar os adversários com constantes trocas de bola», assim analisou a primeira metade o jornalista José Carlos Freitas.

Porém, o Sporting melhorou a sua postura na segunda parte, ao passo que os portistas baixaram um pouco o seu ritmo, permitindo uma recuperação digna de registo dos lisboetas no marcador. No espaço de três minutos os homens da casa apontaram 3 golos que os colocaram não só na frente do marcador (6-5) como também fazendo os seus adeptos acreditar num possível milagre. Tal não viria a acontecer, já que o esforço acabou por ser inglório, tendo o FC Porto mantido até final a desvantagem de um golo num marcador que ficaria selado com 8-7 a favor dos sportinguistas, mas com um 20-12 no conjunto das duas mãos. «Com efeito, temos para nós que o mais importante nesta partida, para além da vitória do FC Porto no somatório geral, foi a confirmação dos seus jovens hoquistas como jogadores de primeira linha dentro do hóquei português e que podem vir a construir a base de uma futura seleção nacional» analisava em jeito de premunição o jornalista da Gazeta dos Desportos. E estava certo, porque não demoraria muito a vermos nomes como Vítor Bruno, Alves e um tal de Vítor Hugo a serem habituais chamadas à seleção das quinas. Sobretudo este último, que no total das duas mãos marcou 13 golos (9 nas Antas e 4 em Alvalade) a Ramalhete. A euforia tomou conta dos portistas no final do jogo, de tal maneira que até se esqueceram de ir receber a taça das mãos de Fernando Pereira, o português que então era o presidente da Comissão Europeia de Árbitros da CERS. Os portistas foram para o balneário festejar e só depois tiveram de voltar ao rinque para receber a taça, que seria entregue ao capitão Vale, perante o olhar da também portista Aurora Cunha, atleta que nesse dia se encontrava em Lisboa para participar nos Campeonatos Nacionais de Equipas em Atletismo e que foi a Alvalade apoiar o seu clube nesta primeira final europeia.

No rescaldo desta final, o treinador azul e branco, João de Brito, diria que este segundo jogo tinha sido muito bom, «em que estiveram frente a frentes duas das melhores equipas portuguesas que praticam um hóquei em patins de grande qualidade. (…) A nossa equipa veio a Alvalade para ganhar a eliminatória. Concordo que tivemos a vitória (neste segundo encontro) ao nosso alcance, mas no computo geral o que importava era a vitória na eliminatória e essa conseguimo-la por 8 golos de vantagem». Também a estrela desta final, Vítor Hugo, estava radiante, embora reconhecendo a eliminatória não «foi nada fácil. O Sporting é uma grande equipa. Ganhou o Campeonato Nacional e nós antes destes dois jogos tínhamos bastante medo do que pudesse acontecer devido à maior experiência dos seus jogadores. Mas depois, demonstrámos que a vitória foi merecida, porque estamos num melhor momento de forma que o Sporting e soubemos tirar o devido proveito». Do lado dos sportinguistas havia tristeza, cabeças baixas na hora de abandonar o rinque, entre elas a do treinador Livramento, que partiu para esta segunda mão com a confiança em alta. «Digo claramente que acreditava na recuperação. Foi por isso que trabalhámos uma semana inteira da forma como o fizemos. Quanto mais não fosse, tínhamos de ir lá para dentro e jogar o nosso melhor, e não para fazer figura de corpo presente e ver os jogadores do FC Porto patinar. Mas as coisas correram-nos mal de início, quando podíamos ter feito 2 ou 3 golos foi o FC Porto que se adiantou no marcador e a partir daí tudo ficou decidido. Perdemos a eliminatória no Porto, já nada se podia fazer agora», disse Livramento. A vitória na Taça das Taças foi não só a primeira gloria internacional alcançado pelo hóquei portista como também seria o primeiro de mais de 1300 títulos (em todas as modalidades do clube) conquistado por Pinto da Costa durante o seu reinado de mais de quatro décadas à frente dos destinos do clube da Cidade Invicta.  E por falar na maior cidade do norte do país, esta recebeu em festa os seus campeões após a epopeia de Alvalade, tendo centenas de adeptos azuis e brancos acorrido à Estação de Campanhã para receber os novos campeões da Taça das Taças.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Efemérides (10)... Neemias Queta: o primeiro luso campeão da NBA

O ano de 2024 dificilmente será esquecido na história do basquetebol português e do próprio desporto nacional. A 17 de junho do citado ano os Boston Celtics conquistavam o seu 18.º título da NBA, tornando-se desta forma na equipa mais titulada da história da maior e mais mediática competição basquetebolística do Mundo. Mas qual a ligação entre este facto e o nosso país? Simples. No plantel dos verdes de Boston figurou um português, o primeiro luso a pisa o palco da galática NBA e agora também o primeiro a sagrar-se campeão desta competição. Neemias Queta. Ao fim de três temporadas na NBA (estreou-se na temporada de 2021/22) o jogador nascido no Barreiro arrecadou o mais desejado título de basquetebol mundial, participando em três dos 19 jogos (incluindo um na final) que os Celtics disputaram nos play-off rumo ao cetro de 2023/24. No curto espaço de tempo que esteve em campo nas finals somou dois pontos, convertendo o único 'lançamento que tentou, logrando ainda um desarme de lançamento. Aos três encontros disputados nos play-off o gigante português de 2,13 metros esteve ainda presente em 28 encontros da fase regular realizados pela equipa de Boston. Na maior parte da temporada, Neemias foi utilizado na equipa B, digamos, dos Boston Celtics, os Maine Celtics. A aventura do basquetebolista luso de 24 anos na NBA começou, como já foi referido, em 21/22 ao serviço dos Sacramentos Kings, onde esteve duas temporadas, antes de dar o salto rumo a Boston onde fez história.

terça-feira, 2 de abril de 2024

Campeões Nacionais de Rugby

 

Campeões Nacionais

2024: Belenenses
2023: Direito
2022: Belenenses
2021: Técnico

2020: Não se disputou devido à pandemia de Covid-19
2019: Agronomia
2018: Belenenses
2017: CDUL
2016: Direito

2015: Direito
2014: CDUL
2013: Direito

2012: CDUL

2011: Direito

2010: Direito

2009: Direito

2008: Belenenses

2007: Agronomia

2006: Direito

2005: Direito

2004: Académica

2003: Belenenses

2002: Direito

2001: Benfica

2000: Direito

1999: Direito

1998: Técnico
1997: Académica

1996: Cascais

1995: Cascais

1994: Cascais

1993: Cascais

1992: Cascais

1991: Benfica

1990: CDUL

1989: CDUL

1988: Benfica

1987: Cascais

1986: Benfica

1985: CDUL

1984: CDUL

1983: CDUL

1982: CDUL
1981: Técnico

1980: CDUL

1979: Académica

1978: CDUL
1977: Académica

1976: Benfica

1975: Belenenses

1974: CDUL
1973: Belenenses

1972: CDUL

1971: CDUL
1970: Benfica

1969: CDUL

1968: CDUL

1967: CDUL

1966: CDUL

1965: CDUL
1964: CDUL

1963: Belenenses

1962: Benfica

1961: Benfica

1960: Benfica

1959: Belenenses

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

O conto de fadas do pequeno Estrelas da Avenida escreveu-se há 25 anos


O que para muitos seria impensável (ou não!) aconteceu há precisamente 25 anos no universo do basquetebol nacional. Um pequeno clube lisboeta surpreendeu (ou não, lá está) o país basquetebolístico ao fazer a dobradinha na temporada de 97/98. Por outras palavras, sagrou-se campeão nacional e venceu a Taça de Portugal, os dois principais troféus do basket português. E este feito ainda hoje tem contornos de conto de fadas se atendermos ao facto de ter acontecido numa altura em que o Benfica, por exemplo, vivia o seu melhor período da história no âmbito desta modalidade, já que entre 1988 e 1995 havia sido sete vezes consecutivas campeão nacional sob a batuta de lendas como Pedro Miguel, Jean-Jacques, Carlos Seixas, Steve Rocha, ou o imortal Carlos Lisboa; mas também num período que via renascer o FC Porto como um gigante da modalidade, visto que nas duas temporadas anteriores a 97/98 os portistas interromperam o reinado benfiquista no que diz respeito ao campeonato nacional.

Não se pense, porém, que este pequeno clube da capital era um pobre coitado no então panorama do basquetebol português, nada disso, já que partiu para 97/98 nas asas de um grupo forte, talentoso, experiente e capaz de bater o pé a muito boa gente. Mas seria isso suficiente para alcançar o brilharete alcançado? Pelos vistos foi. 

Esta introdução serve para recordar a epopeia do Centro Recreativo Estrelas da Avenida, que em 97/98 escreveu a sua página de (maior) glória. Clube com fortes tradições no basquetebol, o Estrelas da Avenida concretizou na referida época a "ameaça" que vinha fazendo nos anos anteriores, ou seja, inscrever o seu nome no palmarés das principais competições nacionais. A primeira tentativa de o fazer havia sido em 85/86 quando o Estrelas, então na 2.ª Divisão Nacional, caiu aos pés do FC Porto na final da Taça de Portugal, por 119-76, numa final disputada em Coimbra. Uma temporada mais tarde o Estrelas da Avenida sobe à 1.ª Divisão Nacional e por uma "unha negra" não vence o título do segundo escalão, sucumbindo às mãos do Esgueira. Esta subida ao patamar mas elevado do basket nacional era então o maior feito de um clube que havia sido fundado apenas cerca de 10 anos antes - mais concretamente em abril de 1976 - e com apenas 600 associados! Rapidamente o clube da freguesia da Penha de França tornou-se querido e popular entre os lisboetas... e apetecido para muitos basquetebolistas de renome prosseguirem a sua carreira fora do "circuito" dos grandes clubes nacionais. Na entrada para os anos 90 o Estrelas consolidou-se como um clube de "primeira" (divisão) e passo a passo foi rumo ao sonho concretizado em 1998. E para agarrar o sonho o Estrelas da Avenida foi comandado por aquela que é provavelmente a melhor dupla de treinadores da história do basquetebol nacional, composta por Mário Palma (treinador-principal) e Mário Gomes (treinador-adjunto). Ambos tinham conduzido o Benfica à glória ao longo das seis temporadas anteriores. Tecnicamente bem comandado o clube da Penha de França contou nessa temporada, e como já referimos, com nomes sonantes do basket nacional, casos de Henrique Pina (base), Artur Cruz (extremo/poste), ou o brasileiro Flávio Nascimento (extremo), três nomes que enquanto antigos jogadores do Benfica comandado por Mário Palma haviam tido a experiência de ser campeões nacionais da 1.ª Divisão. A estes nomes juntavam-se, por exemplo, os espanhóis Joaquín Arcega (base/extremo) e Juan Barros (extremo/poste), que traziam consigo a qualidade do competitivo a nível internacional campeonato de Espanha, quiçá já então o melhor campeonato nacional a nível europeu. Além disso, qualquer equipa de basket que se preze tem de ter pelo menos um atleta norte-americano nos seus quadros para conferir qualidade e competitividade, ou não fosse os Estados Unidos da América a potência mundial do basket. Pois bem, o Estrelas da Avenida de 97/98 tinha três artistas norte-americanos de "primeira água", casos de Doug Muse (poste), Terrence Rayford (poste), e Wayne Englestad (extremo/poste). A estes nomes juntam-se os de Daniel Guedes (base), Arlindo Neves (base), Luís Simão (extremo), Roberto Silva (extremo), Alex Bento (base), Paulo Agostinho (extremo/poste), Paulo Simão (base/extremo) e Bruno Trinchante (extremo/poste), e eis que estamos perante o plantel que conduziu o Estrelas da Avenida à glória. 

Em termos mais concretos, o emblema lisboeta fez uma fase regular do campeonato nacional absolutamente brilhante, terminado esta primeira etapa no 3.º lugar, com 20 vitórias e 6 derrotas, e com 46 pontos, os mesmos que o segundo colocado e campeão nacional em título, o FC Porto, e apenas a um do primeiro classificado, a Oliveirense. Atrás do Estrelas vislumbravam-se potências do basquetebol nacional de então, casos do Benfica, da Portugal Telecom, ou da Ovarense. E seria precisamente diante de um projeto que viria dar frutos (títulos) nos anos seguintes que o Estrelas da Avenida deu início à sua caminhada na fase dos play-off. O clube da Penha de França vence a Portugal Telecom nos quartos de final desta fase a eliminar e marca encontro com o FC Porto na ronda seguinte. E o que se viu foi o campeão nacional em título vergar-se à magnífica equipa lisboeta, que no quinto e decisivo jogo da eliminatória venceu em Almada (a sua casa ao longo deste trajeto de glória) por 77-70, assegurando assim a presença na final do campeonato. 

Por esta altura, já muitos apontavam o Estrelas da Avenida como sério candidato ao título, já que no meio da eliminatória com os portistas os pupilos de Mário Palma haviam conquistado a Taça de Portugal, após derrotarem o Benfica por 87-86. Na final da 49.ª edição da taça, realizada no Pavilhão do Seixal, o Estrelas saiu para o intervalo em desvantagem, por 38-45, mas uma sensacional recuperação no segundo tempo assegurou a conquista do primeiro título de cariz nacional para o emblema da Penha de França. E seria pois com a moral em alta que os rapazes de Mário Palma chegaram à final do campeonato nacional, onde teriam como opositores a Ovarense. E tal como na meia-final dos play-off foi necessário um quinto e decisivo jogo para encontrar o campeão nacional, partida essa que o Estrelas iria vencer por 71-63 e carimbar assim o título. A partida decisiva foi disputada num Pavilhão de Almada completamente cheio, que testemunhou a conclusão de uma época de ouro para o emblema da capital. O Estrelas da Avenida que até entrou melhor nesta eliminatória final, conquistando duas vitórias nos dois primeiros jogos. Porém, a perda de uma das suas unidades mais influentes, o norte-americano Wayne Englestad, que acusou positivo num controlo anti-doping, fez a equipa de Mário Palma quebrar nos dois encontros seguintes, como se comprovam as vitórias da Ovarense e o consequente empate na eliminatória. Porém, na "negra" o Estrelas foi a equipa mais serena, menos tensa e que aguentou melhor a pressão, nas palavras do técnico Mário Palma, que desta forma vencia o seu sexto título de campeão nacional. "Ao longo da época fomos a melhor equipa", dizia Palma no rescaldo desta grande fábula em que David venceu (vários) Golias.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Efemérides (9)... César de Mello sagra-se em 1908 o melhor atleta de luta greco-romana nacional pelo terceiro ano consecutivo


Ainda chegou a jogar futebol no início do século, ao serviço do Benfica, mas o seu forte não era a bola mas sim a força e a destreza para a luta. César de Mello o seu nome, um dos grandes lutadores portugueses na primeira década do século XX que em 1908 completou uma (até então) inédita sequência de títulos de campeão de Portugal em luta greco-romana. Mello havia sido campeão português em 1907 e 1907, pelo que em 1908 partia como um dos mais fortes candidatos a fazer a festa nas instalações do Real Gymnasio, onde decorreu a competição. De acordo com a revista Tiro & Sport as três sessões do campeonato foram muito concorridas e fizeram despertar um enorme entusiasmo entre a assistência. César de Mello era rotulado pela referida publicação como o "amador" que melhor conhecia os segredos da luta greco-romana em Portugal, e não foi de estranhar que na final vencesse António Neves num curto assalto que durou 3m22s. A Tiro & Sport considerou este resultado justíssimo, já que considerava  Mello como «um dos primeiros no desporto mundial».


quarta-feira, 12 de julho de 2023

Entrevista com José Magalhães: «O melhor brinquedo que eu podia ter tido foi ter estado nos Jogos Olímpicos»

No mês em que em Tóquio arrancou a XXXII Olimpíada da Era Moderna, estivemos à conversa com uma figura que conhece como ninguém a sensação única do que é participar num evento desta dimensão. E para orgulho de todo nosso concelho ele é de cá. Falamos de José Magalhães, atleta olímpico (na disciplina de marcha) do Alfenense que esteve presente nos Jogos de Barcelona (1992) e de Atlanta (1996) na disciplina de marcha. Nesta entrevista, o atleta, recorda com saudade - e com uma ou outra mágoa - as suas presenças naquele que foi o evento mais alto da sua carreira. José Magalhães, hoje com 66 anos, é igualmente o grande timoneiro da secção de atletismo do Alfenense, clube ao qual está ligado há 46 anos, e pelo qual foi por diversas vezes internacional, sendo que para além dos Jogos Olímpicos teve presenças em campeonatos do Mundo e da Europa, bem como em várias taças do Mundo e da Europa.

- Esteve presente em duas olimpíadas. Olhando para trás, arriscamos a dizer que este foi o ponto mais alto da sua carreira, ou não fosse a presença nos jogos o sonho de qualquer atleta (?)...

José Magalhães (JM):  Sim, sem margem de dúvidas que para qualquer atleta é o ponto alto. Aliás, no final da minha competição nos Jogos de Barcelona lembro-me de um jornalista me perguntar o que é que eu desejaria naquele momento, ao que eu disse que desejava quer todas as pessoas que fazem desporto, seja qual for a modalidade, que tivessem um dia a sorte de estar nos Jogos Olímpicos, independente da classificação que viessem a ter. Ainda hoje se eu pudesse não me importava de ir aos Jogos e ser o último classificado, pois o importante é estar lá.

- A sua carreira no atletismo, porém, tem início muita dessas duas presenças olímpicas (?)...

JM: O início no atletismo deu-se em 1975 aqui no Alfenense, e até à data de hoje nunca parei. Fui um dos fundadores da secção de atletismo no Alfenense, juntamente  com mais dois colegas, sendo que um deles ao fim de meio ano abandonou e o outro ao fim de dois anos casou-se e abandonou também e depois eu fiquei aqui sozinho. Mas voltando ao início, em 5 de maio de 1975 um colega organizou uma prova de atletismo ali na zona do Reguengo (Alfena) e como eu era alto e magro desafiou-me a correr. Eu na altura não sabia o que era o atletismo, só sabia que era correr. Um desses meus colegas ganhou a prova, eu fiquei em 6.º e outro em 12.º, e ficamos em 2.º lugar por equipas. Isso motivou-nos, pois afinal de contas sem sabermos bem o que era o atletismo até não tivemos assim resultados tão maus. Faltava-nos, contudo, saber o que era o atletismo. Foi então que fiz uns cursos de monitor e aí tirei umas dicas daquilo o que era na verdade o atletismo, que como se sabe tem 24 disciplinas olímpicas. Inscrevi-me depois no curso de treinadores a nível nacional, em Coimbra, onde tirei o curso de treinador em todas as disciplinas da modalidade. Eu, juntamente com o José Sousa e o António Magalhães, os outros dois colegas de que falei, começámos então a convidar para o Alfenense mais atletas, inclusive começámos a arrastar para aqui aqueles jovens que andavam na rua e felizmente posso dizer que foram esses os atletas que mais singraram a nível nacional anos mais tarde. Chegámos a ter aqui 50/60 miúdos, e faltou-me ter mais pessoas para me ajudar a coordenar essa gente toda. Eu recordo que cheguei a ter oito funções no clube, inclusive a de treinador. E como é que eu cheguei a atleta? No seguimento de treinar os miúdos eu exemplificava os exercícios e fazia-os também, e quando haviam provas eu levava os miúdos e também participava em provas para a minha faixa etária. Fazia isso no sentido de exemplificar que o desporto era para toda a gente, independente da idade, da altura, de ser magro ou gordo, ou da classificação que tirava. A minha preocupação foi sempre a de passar a mensagem de treinar, e naqueles intervalos que eu ensinava também competia para mostrar aos miúdos que independente do muito ou pouco treino que tenham o importante era participar. Recordo aliás que em meados dos anos 80 o Alfenense era o clube que mais atletas dava às seleções da Associação de Atletismo do Porto, em várias disciplinas, e isso dava-me gozo e motivava-me como treinador. Até que um dia comecei a integrar a marcha atlética dentro dos meus treinos, que foi a disciplina em que me distingui enquanto atleta, sendo que na primeira vez que fomos participar nos regionais de marcha levei uns miúdos e fiz também a prova de marcha. Lá fiz a prova, cheguei ao fim com algumas cãibras, mas pensei que se treinasse mais um bocadinho talvez conseguisse fazer mais alguma coisa! Até que um dia fiz o seguinte: disse aos jovens que treinava que nunca os iria abandonar, mas também tinha de arranjar um espaço de treino para mim. E então eu fazia o aquecimento com eles, trabalhava a técnica dos mais jovens, e ia metendo uns quilómetros nas pernas andando aqui às voltas. E à medida que fui metendo esses quilómetro nas pernas ia participando numa ou outra prova que ia aparecendo até que fui melhorando as marcas. Em 1989 comecei com 33 ou 34 anos a fazer marcha, e fui chamado para ir a um encontro internacional realizado na Corunha, ao serviço da seleção nacional, e ai é que eu vi a diferença de quem treinava e quem não treinava. Percebi que tinha de arranjar mais um bocadinho para treinar, mas nunca pude deixar de trabalhar, fiz muitos sacrifícios porque nunca abandonei os atletas que treinava. 

- Voltando aos Jogos Olímpicos, que lembranças guarda tanto de Barcelona 92 como de Atlanta 96?

JM: Ainda agora recentemente quando vi a comitiva portuguesa a ir para os Jogos de Tóquio senti um arrepio, porque acho que ficou-me qualquer coisa por fazer. Como já disse antes eu queria que toda a gente sentisse o que é estar nos Jogos, é lá que estão quase todas as modalidades, há atletas que são bem pagos para lá ir e há atletas que como eu pagam para lá ir. Mas os que vão lá são os melhores. Tanto em Barcelona como em Atlanta eu senti-me na obrigação de acabar a prova, aliás, nos Jogos de 92 disse que só me considerava atleta olímpico caso acabasse a minha prova, caso contrário não, porque ir às Olimpíadas e não acabar a competição acho que não faz muito sentido.

Felizmente acabei as provas, mas se me perguntassem se gostava de ficar mais à frente claro que sim, quem não gostava? Mas eu fui ciente de que o mais importante era acabar a prova, e em 52 ou 53 atletas que participaram fiquei posicionado a meio em ambas as presenças olímpicas. A parte menos positiva foi a desconsideração que senti nos Jogos, e passo a explicar. Eu era atleta do Alfenense, não era atleta dos chamados grandes clubes, e só por aí somos logo desconsiderados, embora eu ache que os clubes pequenos também têm o direito de ter atletas grandes e foi por isso que eu com 42 anos não aceitei uma proposta do Benfica. Mas a desilusão aconteceu quando fui a Barcelona por culpa de um jornalista. A história começa quando um individuo do Comité Olímpico Português (COP) nos foi buscar ao aeroporto e levou-nos à Aldeia Olímpica. Dos cinco marchadores que fomos para Barcelona três éramos estreantes. Os mais velhos eram o José Pinto, do Belenenses, e o José Urbano, do Benfica,  e os estreantes eram eu, a Isilda Gonçalves, do Montijo, e a Susana Feitor, do Rio Maior. Eu era o mais velho de todos. Quando chegámos à aldeia olímpica fizemos o check-in, e como já era muito perto das 14H fomos almoçar ao restaurante que ali existia. O membro do COP explicou-nos o funcionamento das coisas na Aldeia Olímpica e disse-nos que lá fora estavam uns jornalistas que queriam falar com os marchadores. O José Urbano e o José Pinto como já tinham estado nos Jogos de Seul em 88 disseram que como nós éramos os estreantes em Olimpíadas deveríamos dar as entrevistas, até porque eles já tinham dado entrevistas em Portugal, e se fossem eles a conceder as entrevistas os jornalistas só queriam falar com eles e não com nós. Acontece que quando eu e as miúdas chegamos ao pé dos jornalistas, um determinado jornalista português bem conhecido virou-se para o senhor do COP e disse: "então é isto o que você me trás para a entrevista? Onde está o José Urbano e o José Pinto?" Aquilo caiu-me muito mal. Fiquei revoltado e senti-me desprezado. Pensei que as pessoas fossem mais educadas e soubessem respeitar quem cá estava. Deve haver respeito por todos, porque só Deus sabe o que sacrifício que muitos fazem para estar lá. A minha vontade foi logo de vir embora. Fiquei desnorteado. Por causa disso fiz umas asneiras que não devia ter feito e que hoje reconheço como um erro, isto é, para mostrar que aquele jornalista estava errado, num treino que fiz a seguir fiz a minha competição, ou seja, dei tudo naquele treino. E quando fui para a competição fui todo arrebentado (fisicamente). Serviu-me de lição, mas com aquela frustração do que ouvi fiz um treino que não devia ter feito porque fui todo roto para a prova. Mas também estava muito calor no dia da prova em Barcelona, e só pedia a Deus para terminar, pois acabei todo roto. Conclusão, para me tentar vingar de uma desilusão acabei por me matar. Ainda hoje sofro com esta história.

- O que torna na sua opinião os Jogos Olímpicos uma competição tão especial?

JM: Os Jogos Olímpicos têm lá toda a família desportiva, estão lá os melhores do Mundo, independente da classificação. Depois é o convívio entre todos, as alegrias e as tristezas que são partilhadas. Vê-se atletas a ir às medalhas e a chorar de alegria, e vê-se outros a chorar de tristeza porque não conseguiram lá chegar. Mas o fundamental nos Jogos é aquele ser evento onde toda a gente quer estar, é a alegria de estarem ali atletas de 200 e tal países, de conhecermos pessoas, de convivermos.

Barcelona, em 1992, foram os primeiros Jogos em que esteve, com que ilusão partiu para o evento, tendo em conta que era a primeira vez que pisava aquele que é considerado o maior palco desportivo mundial?

JM: Antes de ir para Barcelona eu tinha falado com o José Pinto e o José Urbano, com quem tinha feito um estágio de 10 dias antes dos Jogos, e eles já me tinham dado umas dicas de que aquilo era como uma família mas que também havia muitas desilusões, porque vamos todos a um sonho de fazermos o melhor. Quando parti para Barcelona senti-me um menino, alegre e satisfeito, pois estava a cumprir um sonho que nunca tinha sonhado, desde logo pela idade que tinha (37 anos), pois estava ciente do que fazia e do que ia lendo, de que grandes atletas que treinavam bem é que lá iam, e eu só treinava uma vez por dia, e não conseguia fazer mais do que 70 quilómetros por semana e esses atletas faziam 150 quilómetros por semana, e por isso estava ciente das dificuldades. De qualquer forma eu estava ciente do que tinha treinado, ciente do que tinha conversado com pessoas que já tinham estado em Jogos, só não estava preparado para chegar lá e ser mal tratado pelo tal jornalista. O que é certo é que eu considero-me um felizardo por ter estado nos Jogos, pois pelo desgaste físico que eu tinha no meu trabalho, pelos treinos que tinha, e o pouco tempo que eu me dedicada a mim no atletismo fui um felizardo. Posso dizer que o melhor brinquedo que eu podia ter tido foi ter estado nos Jogos Olímpicos.

Como foi viver pela primeira vez todo aquele ambiente olímpico, entrar no estádio na cerimónia de abertura, viver na aldeia olímpica...

JM: Eu felizmente tive a sorte de ter estado quer na abertura quer no fecho dos Jogos, coisa que nem todos os atletas têm a sorte de fazer. Na abertura, em Barcelona, no momento em que começou todo aquele espetáculo cerimonial que é costume fazer e nós vestidos com os fatos da comitiva e olhar em volta e ver todas aquelas cores das diferentes comitivas, senti-me um daqueles todos. Estavam ali os melhores desportistas do mundo, e naquele momento senti-me parte daquela família. Com profissionalismo ou amadorismo todos lutaram para ali estar. E depois olhar ao redor e pensar na família e desejar que também estivessem ali para partilhar a nossa felicidade, porque queiramos quer não a nossa família também sofre.

O facto de aparecer pela primeira vez nos Jogos com 37 anos, de competir com atletas mais novos, não o assustou?

JM: Não. Eu costumo transmitir ainda hoje aos meus atletas que se esforcem para que um dia tenham a sorte de lá estar, independente do que fazem no dia a dia e dou-lhes o meu exemplo. O importante é chegar lá e não se assustarem com os pergaminhos. Nunca é tarde para lá chegar. Claro que gostava de ter experimentado mais cedo, mas de certa de forma o bilhete de identidade nunca me assustou, pelo contrário, só me motivou. Passo sempre a mensagem aos jovens de que nunca é tarde para lá chegar, o importante é não abandonarmos o objetivo a meio do percurso.

Quatro anos mais tarde em Atlanta aquele não era um ambiente novo para si, já era a sua segunda participação, mesmo assim com que expectativa chegou a estes Jogos?

JM: Para Atlanta já me preparei melhor. Fui fazer um estágio a Manaus (Brasil) para adquirir a condição atmosférica de Atlanta, para adaptação ao ambiente, que era muito idêntico. Estive lá duas semanas e fui para Atlanta convicto de que ia tirar um melhor resultado do que tirei em Barcelona, onde fui 26.º. Acontece que sem querer arranjar desculpas fiquei com gripe em Manaus devido a uma estupidez minha. Isto é, depois de um treino que me correu às mil maravilhas fui ter com o massagista e fiquei debaixo de um ar condicionado que ele tinha no quarto. Fiquei uma hora debaixo do ar condicionado fresquinho quando tinha acabado de fazer 25 quilómetros de treino. À conta disso fiz os 50 quilómetros da prova em Atlanta com 39 graus de febre. Os médicos não queriam que eu participasse mas eu quis participar. Parti, mas o corpo não reagia, mas aí também a minha convicção era ganhar aos desclassificados e aos desistentes e chegar ao fim. Fiquei em 27.º. Vim embora desanimado, ia fazer 42 anos, e disse para mim que ficava por ali e que me ia dedicar ao trabalho, percebi que a sorte não estava do meu lado. Acabei por não fazer a marca de que estava à espera, desanimei, e depois não fiz a época de inverno. Entretanto, havia a Taça do Mundo, em Podebrady, na República Checa, e o técnico nacional ligou-me na tentativa de moralizar-me, ao que eu lhe disse que já tinha 42 anos, estava cansado, Mas o que é certo é que em janeiro comecei a treinar e em maio fui à Taça do Mundo fazer os 50km e fiz a minha melhor marca de sempre. Ou seja, acabei por ter a felicidade que não tive em Atlanta. Ainda hoje é a minha melhor marca, 3H57M, mas preferia ter feito este tempo em Atlanta do que na República Checa.

O José Magalhães, se não estamos em erro, foi o primeiro atleta do Concelho de Valongo a estar presente nos Jogos, mas não foi o único, houve outros que também representaram as cores do Alfenense a participar. Como se explica o facto de o Alfenense ter projetado tantos atletas para as Olimpíadas?

JM: Sinceramente não sei se no atletismo houve mais alguém antes de mim, mas não quero que seja o último, quero que vá mais gente, porque é bom para o concelho e é sinal que temos atletas de eleição no concelho. Depois de mim houve atletas do concelho que também estiveram presentes em Jogos, casos do António Pereira e do Augusto Cardoso, atletas que nasceram no Alfenense, sendo que ambos treinaram comigo, iniciaram aqui o atletismo enquanto jovens e depois saíram para outros clubes. Simplesmente gostaria que tivessem continuado no Alfenense. Tivemos três atletas olímpicos mas também tivemos mais atletas internacionais saídos daqui. No entanto, é preciso ter gente, recursos humanos, em vários pontos do concelho, e em qualquer ponto é preciso haver o mínimo de condições para desenvolver a modalidade, coisa que não temos. Uma das coisas que tive é que fui teimoso e nunca quis sair do Alfenense, mas entretanto, estes jovens quando começam a fazer coisas interessantes são assediados por outros clubes que lhes proporcionam outras condições que não têm aqui.  No Alfenense nunca tivemos uma verba destinada para o atletismo, e posso garantir que há clubes na Área Metropolitana do Porto que recebem 20.000/25.000 euros por ano de apoio ao atletismo. Não é com 500 ou 1000 euros que temos para gastar com o atletismo, sendo que muitas vezes as despesas são feitas pelos atletas, que vamos ter aqui uma boa equipa e manter os atletas aqui. Atualmente não temos muitos atletas no Alfenense porque falta aqui um espaço que eu já tive e que agora não temos. E não é pegar nos miúdos e leva-los para a estrada, porque não é na estrada que se trabalha as várias disciplinas do atletismo, que se consegue tirar proveito da capacidade de cada atleta. É preciso ter um espaço, e as pessoas têm que entender de uma vez por todas que o atletismo não é na rua nem no monte. O concelho de Valongo e o Alfenense tem de entender de uma vez por todas que se querem continuar com o atletismo têm de criar espaços e nós até temos condições para criar esse espaço. Enquanto o Alfenense teve aqui só futebol sénior e júnior, em que eles começavam a treinar às 19H00, eu antes disso utilizava o campo para treinar as disciplinas todas e até tinha ali uma caixa de saltos que depois me tiraram. A certa altura começaram com a formação (do futebol) no Alfenense e encostaram-nos para canto, fizeram tudo por tudo para que o atletismo acabasse no clube. Não sei porquê. Atenção que eu volto a dizer que não tenho nada contra o Alfenense, posso ter é contra pessoas que passaram por aqui. Tiraram-nos a caixa de saltos e entretanto temos um campo de futebol junto ao estádio em que nos foi prometido que um dia que houvesse condições se iria fazer ali umas retas, um círculo de lançamentos e umas caixas de salto. Tínhamos ali um espaço para ter uma escola de atletismo, estava tudo prometido e planeado, o certo é que um dia disseram-me que já não iam fazer ali as condições para o atletismo, e fizeram ali uma bancada. Estamos a perder atletas no concelho ao não trabalhar certas disciplinas do atletismo. Dou-lhe outro exemplo, temos ali o Parque do Leça, sendo que gostava de ver naquele espaço o formato de uma pista de atletismo, tem espaço para fazer o formato de uma pista, para fazer lançamentos e uma caixa de saltos, mantinha a beleza do parque na mesma, era uma forma de as pessoas irem caminhar lá, mas também uma forma de atrativo de os jovens saberem o que era o atletismo. Não existem infraestruturas no concelho para o verdadeiro atletismo. Depois como queremos que haja atletas olímpicos quando não têm condições?

Nota: esta entrevista foi realizada por mim em julho de 2021, a escassos dias do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio, para um jornal local de Ermesinde.