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quarta-feira, 12 de julho de 2023

Entrevista com José Magalhães: «O melhor brinquedo que eu podia ter tido foi ter estado nos Jogos Olímpicos»

No mês em que em Tóquio arrancou a XXXII Olimpíada da Era Moderna, estivemos à conversa com uma figura que conhece como ninguém a sensação única do que é participar num evento desta dimensão. E para orgulho de todo nosso concelho ele é de cá. Falamos de José Magalhães, atleta olímpico (na disciplina de marcha) do Alfenense que esteve presente nos Jogos de Barcelona (1992) e de Atlanta (1996) na disciplina de marcha. Nesta entrevista, o atleta, recorda com saudade - e com uma ou outra mágoa - as suas presenças naquele que foi o evento mais alto da sua carreira. José Magalhães, hoje com 66 anos, é igualmente o grande timoneiro da secção de atletismo do Alfenense, clube ao qual está ligado há 46 anos, e pelo qual foi por diversas vezes internacional, sendo que para além dos Jogos Olímpicos teve presenças em campeonatos do Mundo e da Europa, bem como em várias taças do Mundo e da Europa.

- Esteve presente em duas olimpíadas. Olhando para trás, arriscamos a dizer que este foi o ponto mais alto da sua carreira, ou não fosse a presença nos jogos o sonho de qualquer atleta (?)...

José Magalhães (JM):  Sim, sem margem de dúvidas que para qualquer atleta é o ponto alto. Aliás, no final da minha competição nos Jogos de Barcelona lembro-me de um jornalista me perguntar o que é que eu desejaria naquele momento, ao que eu disse que desejava quer todas as pessoas que fazem desporto, seja qual for a modalidade, que tivessem um dia a sorte de estar nos Jogos Olímpicos, independente da classificação que viessem a ter. Ainda hoje se eu pudesse não me importava de ir aos Jogos e ser o último classificado, pois o importante é estar lá.

- A sua carreira no atletismo, porém, tem início muita dessas duas presenças olímpicas (?)...

JM: O início no atletismo deu-se em 1975 aqui no Alfenense, e até à data de hoje nunca parei. Fui um dos fundadores da secção de atletismo no Alfenense, juntamente  com mais dois colegas, sendo que um deles ao fim de meio ano abandonou e o outro ao fim de dois anos casou-se e abandonou também e depois eu fiquei aqui sozinho. Mas voltando ao início, em 5 de maio de 1975 um colega organizou uma prova de atletismo ali na zona do Reguengo (Alfena) e como eu era alto e magro desafiou-me a correr. Eu na altura não sabia o que era o atletismo, só sabia que era correr. Um desses meus colegas ganhou a prova, eu fiquei em 6.º e outro em 12.º, e ficamos em 2.º lugar por equipas. Isso motivou-nos, pois afinal de contas sem sabermos bem o que era o atletismo até não tivemos assim resultados tão maus. Faltava-nos, contudo, saber o que era o atletismo. Foi então que fiz uns cursos de monitor e aí tirei umas dicas daquilo o que era na verdade o atletismo, que como se sabe tem 24 disciplinas olímpicas. Inscrevi-me depois no curso de treinadores a nível nacional, em Coimbra, onde tirei o curso de treinador em todas as disciplinas da modalidade. Eu, juntamente com o José Sousa e o António Magalhães, os outros dois colegas de que falei, começámos então a convidar para o Alfenense mais atletas, inclusive começámos a arrastar para aqui aqueles jovens que andavam na rua e felizmente posso dizer que foram esses os atletas que mais singraram a nível nacional anos mais tarde. Chegámos a ter aqui 50/60 miúdos, e faltou-me ter mais pessoas para me ajudar a coordenar essa gente toda. Eu recordo que cheguei a ter oito funções no clube, inclusive a de treinador. E como é que eu cheguei a atleta? No seguimento de treinar os miúdos eu exemplificava os exercícios e fazia-os também, e quando haviam provas eu levava os miúdos e também participava em provas para a minha faixa etária. Fazia isso no sentido de exemplificar que o desporto era para toda a gente, independente da idade, da altura, de ser magro ou gordo, ou da classificação que tirava. A minha preocupação foi sempre a de passar a mensagem de treinar, e naqueles intervalos que eu ensinava também competia para mostrar aos miúdos que independente do muito ou pouco treino que tenham o importante era participar. Recordo aliás que em meados dos anos 80 o Alfenense era o clube que mais atletas dava às seleções da Associação de Atletismo do Porto, em várias disciplinas, e isso dava-me gozo e motivava-me como treinador. Até que um dia comecei a integrar a marcha atlética dentro dos meus treinos, que foi a disciplina em que me distingui enquanto atleta, sendo que na primeira vez que fomos participar nos regionais de marcha levei uns miúdos e fiz também a prova de marcha. Lá fiz a prova, cheguei ao fim com algumas cãibras, mas pensei que se treinasse mais um bocadinho talvez conseguisse fazer mais alguma coisa! Até que um dia fiz o seguinte: disse aos jovens que treinava que nunca os iria abandonar, mas também tinha de arranjar um espaço de treino para mim. E então eu fazia o aquecimento com eles, trabalhava a técnica dos mais jovens, e ia metendo uns quilómetros nas pernas andando aqui às voltas. E à medida que fui metendo esses quilómetro nas pernas ia participando numa ou outra prova que ia aparecendo até que fui melhorando as marcas. Em 1989 comecei com 33 ou 34 anos a fazer marcha, e fui chamado para ir a um encontro internacional realizado na Corunha, ao serviço da seleção nacional, e ai é que eu vi a diferença de quem treinava e quem não treinava. Percebi que tinha de arranjar mais um bocadinho para treinar, mas nunca pude deixar de trabalhar, fiz muitos sacrifícios porque nunca abandonei os atletas que treinava. 

- Voltando aos Jogos Olímpicos, que lembranças guarda tanto de Barcelona 92 como de Atlanta 96?

JM: Ainda agora recentemente quando vi a comitiva portuguesa a ir para os Jogos de Tóquio senti um arrepio, porque acho que ficou-me qualquer coisa por fazer. Como já disse antes eu queria que toda a gente sentisse o que é estar nos Jogos, é lá que estão quase todas as modalidades, há atletas que são bem pagos para lá ir e há atletas que como eu pagam para lá ir. Mas os que vão lá são os melhores. Tanto em Barcelona como em Atlanta eu senti-me na obrigação de acabar a prova, aliás, nos Jogos de 92 disse que só me considerava atleta olímpico caso acabasse a minha prova, caso contrário não, porque ir às Olimpíadas e não acabar a competição acho que não faz muito sentido.

Felizmente acabei as provas, mas se me perguntassem se gostava de ficar mais à frente claro que sim, quem não gostava? Mas eu fui ciente de que o mais importante era acabar a prova, e em 52 ou 53 atletas que participaram fiquei posicionado a meio em ambas as presenças olímpicas. A parte menos positiva foi a desconsideração que senti nos Jogos, e passo a explicar. Eu era atleta do Alfenense, não era atleta dos chamados grandes clubes, e só por aí somos logo desconsiderados, embora eu ache que os clubes pequenos também têm o direito de ter atletas grandes e foi por isso que eu com 42 anos não aceitei uma proposta do Benfica. Mas a desilusão aconteceu quando fui a Barcelona por culpa de um jornalista. A história começa quando um individuo do Comité Olímpico Português (COP) nos foi buscar ao aeroporto e levou-nos à Aldeia Olímpica. Dos cinco marchadores que fomos para Barcelona três éramos estreantes. Os mais velhos eram o José Pinto, do Belenenses, e o José Urbano, do Benfica,  e os estreantes eram eu, a Isilda Gonçalves, do Montijo, e a Susana Feitor, do Rio Maior. Eu era o mais velho de todos. Quando chegámos à aldeia olímpica fizemos o check-in, e como já era muito perto das 14H fomos almoçar ao restaurante que ali existia. O membro do COP explicou-nos o funcionamento das coisas na Aldeia Olímpica e disse-nos que lá fora estavam uns jornalistas que queriam falar com os marchadores. O José Urbano e o José Pinto como já tinham estado nos Jogos de Seul em 88 disseram que como nós éramos os estreantes em Olimpíadas deveríamos dar as entrevistas, até porque eles já tinham dado entrevistas em Portugal, e se fossem eles a conceder as entrevistas os jornalistas só queriam falar com eles e não com nós. Acontece que quando eu e as miúdas chegamos ao pé dos jornalistas, um determinado jornalista português bem conhecido virou-se para o senhor do COP e disse: "então é isto o que você me trás para a entrevista? Onde está o José Urbano e o José Pinto?" Aquilo caiu-me muito mal. Fiquei revoltado e senti-me desprezado. Pensei que as pessoas fossem mais educadas e soubessem respeitar quem cá estava. Deve haver respeito por todos, porque só Deus sabe o que sacrifício que muitos fazem para estar lá. A minha vontade foi logo de vir embora. Fiquei desnorteado. Por causa disso fiz umas asneiras que não devia ter feito e que hoje reconheço como um erro, isto é, para mostrar que aquele jornalista estava errado, num treino que fiz a seguir fiz a minha competição, ou seja, dei tudo naquele treino. E quando fui para a competição fui todo arrebentado (fisicamente). Serviu-me de lição, mas com aquela frustração do que ouvi fiz um treino que não devia ter feito porque fui todo roto para a prova. Mas também estava muito calor no dia da prova em Barcelona, e só pedia a Deus para terminar, pois acabei todo roto. Conclusão, para me tentar vingar de uma desilusão acabei por me matar. Ainda hoje sofro com esta história.

- O que torna na sua opinião os Jogos Olímpicos uma competição tão especial?

JM: Os Jogos Olímpicos têm lá toda a família desportiva, estão lá os melhores do Mundo, independente da classificação. Depois é o convívio entre todos, as alegrias e as tristezas que são partilhadas. Vê-se atletas a ir às medalhas e a chorar de alegria, e vê-se outros a chorar de tristeza porque não conseguiram lá chegar. Mas o fundamental nos Jogos é aquele ser evento onde toda a gente quer estar, é a alegria de estarem ali atletas de 200 e tal países, de conhecermos pessoas, de convivermos.

Barcelona, em 1992, foram os primeiros Jogos em que esteve, com que ilusão partiu para o evento, tendo em conta que era a primeira vez que pisava aquele que é considerado o maior palco desportivo mundial?

JM: Antes de ir para Barcelona eu tinha falado com o José Pinto e o José Urbano, com quem tinha feito um estágio de 10 dias antes dos Jogos, e eles já me tinham dado umas dicas de que aquilo era como uma família mas que também havia muitas desilusões, porque vamos todos a um sonho de fazermos o melhor. Quando parti para Barcelona senti-me um menino, alegre e satisfeito, pois estava a cumprir um sonho que nunca tinha sonhado, desde logo pela idade que tinha (37 anos), pois estava ciente do que fazia e do que ia lendo, de que grandes atletas que treinavam bem é que lá iam, e eu só treinava uma vez por dia, e não conseguia fazer mais do que 70 quilómetros por semana e esses atletas faziam 150 quilómetros por semana, e por isso estava ciente das dificuldades. De qualquer forma eu estava ciente do que tinha treinado, ciente do que tinha conversado com pessoas que já tinham estado em Jogos, só não estava preparado para chegar lá e ser mal tratado pelo tal jornalista. O que é certo é que eu considero-me um felizardo por ter estado nos Jogos, pois pelo desgaste físico que eu tinha no meu trabalho, pelos treinos que tinha, e o pouco tempo que eu me dedicada a mim no atletismo fui um felizardo. Posso dizer que o melhor brinquedo que eu podia ter tido foi ter estado nos Jogos Olímpicos.

Como foi viver pela primeira vez todo aquele ambiente olímpico, entrar no estádio na cerimónia de abertura, viver na aldeia olímpica...

JM: Eu felizmente tive a sorte de ter estado quer na abertura quer no fecho dos Jogos, coisa que nem todos os atletas têm a sorte de fazer. Na abertura, em Barcelona, no momento em que começou todo aquele espetáculo cerimonial que é costume fazer e nós vestidos com os fatos da comitiva e olhar em volta e ver todas aquelas cores das diferentes comitivas, senti-me um daqueles todos. Estavam ali os melhores desportistas do mundo, e naquele momento senti-me parte daquela família. Com profissionalismo ou amadorismo todos lutaram para ali estar. E depois olhar ao redor e pensar na família e desejar que também estivessem ali para partilhar a nossa felicidade, porque queiramos quer não a nossa família também sofre.

O facto de aparecer pela primeira vez nos Jogos com 37 anos, de competir com atletas mais novos, não o assustou?

JM: Não. Eu costumo transmitir ainda hoje aos meus atletas que se esforcem para que um dia tenham a sorte de lá estar, independente do que fazem no dia a dia e dou-lhes o meu exemplo. O importante é chegar lá e não se assustarem com os pergaminhos. Nunca é tarde para lá chegar. Claro que gostava de ter experimentado mais cedo, mas de certa de forma o bilhete de identidade nunca me assustou, pelo contrário, só me motivou. Passo sempre a mensagem aos jovens de que nunca é tarde para lá chegar, o importante é não abandonarmos o objetivo a meio do percurso.

Quatro anos mais tarde em Atlanta aquele não era um ambiente novo para si, já era a sua segunda participação, mesmo assim com que expectativa chegou a estes Jogos?

JM: Para Atlanta já me preparei melhor. Fui fazer um estágio a Manaus (Brasil) para adquirir a condição atmosférica de Atlanta, para adaptação ao ambiente, que era muito idêntico. Estive lá duas semanas e fui para Atlanta convicto de que ia tirar um melhor resultado do que tirei em Barcelona, onde fui 26.º. Acontece que sem querer arranjar desculpas fiquei com gripe em Manaus devido a uma estupidez minha. Isto é, depois de um treino que me correu às mil maravilhas fui ter com o massagista e fiquei debaixo de um ar condicionado que ele tinha no quarto. Fiquei uma hora debaixo do ar condicionado fresquinho quando tinha acabado de fazer 25 quilómetros de treino. À conta disso fiz os 50 quilómetros da prova em Atlanta com 39 graus de febre. Os médicos não queriam que eu participasse mas eu quis participar. Parti, mas o corpo não reagia, mas aí também a minha convicção era ganhar aos desclassificados e aos desistentes e chegar ao fim. Fiquei em 27.º. Vim embora desanimado, ia fazer 42 anos, e disse para mim que ficava por ali e que me ia dedicar ao trabalho, percebi que a sorte não estava do meu lado. Acabei por não fazer a marca de que estava à espera, desanimei, e depois não fiz a época de inverno. Entretanto, havia a Taça do Mundo, em Podebrady, na República Checa, e o técnico nacional ligou-me na tentativa de moralizar-me, ao que eu lhe disse que já tinha 42 anos, estava cansado, Mas o que é certo é que em janeiro comecei a treinar e em maio fui à Taça do Mundo fazer os 50km e fiz a minha melhor marca de sempre. Ou seja, acabei por ter a felicidade que não tive em Atlanta. Ainda hoje é a minha melhor marca, 3H57M, mas preferia ter feito este tempo em Atlanta do que na República Checa.

O José Magalhães, se não estamos em erro, foi o primeiro atleta do Concelho de Valongo a estar presente nos Jogos, mas não foi o único, houve outros que também representaram as cores do Alfenense a participar. Como se explica o facto de o Alfenense ter projetado tantos atletas para as Olimpíadas?

JM: Sinceramente não sei se no atletismo houve mais alguém antes de mim, mas não quero que seja o último, quero que vá mais gente, porque é bom para o concelho e é sinal que temos atletas de eleição no concelho. Depois de mim houve atletas do concelho que também estiveram presentes em Jogos, casos do António Pereira e do Augusto Cardoso, atletas que nasceram no Alfenense, sendo que ambos treinaram comigo, iniciaram aqui o atletismo enquanto jovens e depois saíram para outros clubes. Simplesmente gostaria que tivessem continuado no Alfenense. Tivemos três atletas olímpicos mas também tivemos mais atletas internacionais saídos daqui. No entanto, é preciso ter gente, recursos humanos, em vários pontos do concelho, e em qualquer ponto é preciso haver o mínimo de condições para desenvolver a modalidade, coisa que não temos. Uma das coisas que tive é que fui teimoso e nunca quis sair do Alfenense, mas entretanto, estes jovens quando começam a fazer coisas interessantes são assediados por outros clubes que lhes proporcionam outras condições que não têm aqui.  No Alfenense nunca tivemos uma verba destinada para o atletismo, e posso garantir que há clubes na Área Metropolitana do Porto que recebem 20.000/25.000 euros por ano de apoio ao atletismo. Não é com 500 ou 1000 euros que temos para gastar com o atletismo, sendo que muitas vezes as despesas são feitas pelos atletas, que vamos ter aqui uma boa equipa e manter os atletas aqui. Atualmente não temos muitos atletas no Alfenense porque falta aqui um espaço que eu já tive e que agora não temos. E não é pegar nos miúdos e leva-los para a estrada, porque não é na estrada que se trabalha as várias disciplinas do atletismo, que se consegue tirar proveito da capacidade de cada atleta. É preciso ter um espaço, e as pessoas têm que entender de uma vez por todas que o atletismo não é na rua nem no monte. O concelho de Valongo e o Alfenense tem de entender de uma vez por todas que se querem continuar com o atletismo têm de criar espaços e nós até temos condições para criar esse espaço. Enquanto o Alfenense teve aqui só futebol sénior e júnior, em que eles começavam a treinar às 19H00, eu antes disso utilizava o campo para treinar as disciplinas todas e até tinha ali uma caixa de saltos que depois me tiraram. A certa altura começaram com a formação (do futebol) no Alfenense e encostaram-nos para canto, fizeram tudo por tudo para que o atletismo acabasse no clube. Não sei porquê. Atenção que eu volto a dizer que não tenho nada contra o Alfenense, posso ter é contra pessoas que passaram por aqui. Tiraram-nos a caixa de saltos e entretanto temos um campo de futebol junto ao estádio em que nos foi prometido que um dia que houvesse condições se iria fazer ali umas retas, um círculo de lançamentos e umas caixas de salto. Tínhamos ali um espaço para ter uma escola de atletismo, estava tudo prometido e planeado, o certo é que um dia disseram-me que já não iam fazer ali as condições para o atletismo, e fizeram ali uma bancada. Estamos a perder atletas no concelho ao não trabalhar certas disciplinas do atletismo. Dou-lhe outro exemplo, temos ali o Parque do Leça, sendo que gostava de ver naquele espaço o formato de uma pista de atletismo, tem espaço para fazer o formato de uma pista, para fazer lançamentos e uma caixa de saltos, mantinha a beleza do parque na mesma, era uma forma de as pessoas irem caminhar lá, mas também uma forma de atrativo de os jovens saberem o que era o atletismo. Não existem infraestruturas no concelho para o verdadeiro atletismo. Depois como queremos que haja atletas olímpicos quando não têm condições?

Nota: esta entrevista foi realizada por mim em julho de 2021, a escassos dias do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio, para um jornal local de Ermesinde. 

terça-feira, 5 de abril de 2022

Ramaldense, o maior símbolo da história do hóquei em campo português que chegou aos 100 anos de existência

Apesar de pouco divulgada no nosso país, no que concerne à sua aparição na comunicação social, o hóquei em campo é uma modalidade que cativa um número digno de registo de praticantes e adeptos em Portugal. Sendo uma modalidade cujas origens remontam à Era antes de Cristo, pelo menos, tendo em conta que registos históricos descobertos em Atenas, mais concretamente uma gravura sobre o túmulo de Théristocles, datada do ano 500 a.C., em que são mostradas várias figuras a disputar um jogo com uma bola e um stick. No entanto, segundo dados mais concretos, apontam que o jogo tenha sido (re)criado pelos ingleses nos finais do século XIX, tendo o primeiro clube sido fundado em 1849, mais concretamente o Blackheath, na zona de South-east London. Ainda segundo a história, a modalidade era praticada em descampados, com bastões de madeira e bolas formadas por pedaços de borracha.

Como tantas outras modalidades também o hóquei em campo evoluiu com o passar dos anos, afirmando-se como desporto rei em muitos países, como o Paquistão ou a Índia, sendo ainda, segundo as estatísticas, a quarta modalidade mais praticada no Mundo.  

Portugal não tem acompanhado estes números, infelizmente, dirão os praticantes e amantes da modalidade em terras lusas, mas não deixa de ter a sua história, rica, e que hoje nos leva a abrir as portas deste Museu.

História do hóquei luso está umbilicalmente ligada ao Ramaldense

E a história do hóquei em campo português quase que se confunde com a de um clube, e que é hoje o motivo desta nossa viagem ao passado. Coletividade essa que faz hoje, dia 5 de abril, a bonita idade de 100 anos! É verdade, um século de existência ao serviço do desporto. E o nosso aniversariante dá pelo nome de Ramaldense Futebol Clube, um símbolo da cultura popular e do bairrismo portuense que viu a luz do dia a 5 de abril de 1922. Silva Neves, Santos Oleiro, Alberto Araújo, Cunhas e os irmãos Grilo estiveram na génese deste emblema que teve como berço a freguesia de Ramalde, na cidade do Porto, e que através do hóquei em campo fez conhecer o seu nome não só pelos quatro cantos do território nacional como igualmente em várias partes do Velho Continente. Foi o futebol, contudo, a dar a este emblema os seus primeiros anos de vida. Um emblema que deu os primeiros pontapés na bola num campo situado na Senhora da Hora, na Rua Joaquim Pinto, e que depois de mais alguns anos em que andou com a "casa às costas" se mudou para a sua freguesia natal e para o histórico Campo Alberto Araújo, situado na Rua do Pinheiro Manso, recinto hoje em dia extinto (desde 2009), mas onde ao longo de várias décadas se escreveu história.

Não só no futebol, onde nomes como Humberto Coelho ou André Villas Boas vestiram a mítica camisola tricolor (verde, vermelho e branca) do clube de Ramalde, mas sobretudo no hóquei em campo, onde este clube se tornou no maior de Portugal. Sim, o maior, não só porque ainda hoje detém, largamente, o maior número de títulos de campeão nacional, mas porque de igual modo foi berço de alguns dos maiores jogadores da história da modalidade no nosso país. Ao todo são 33 os títulos conquistados no Campeonato Nacional da 1.ª Divisão (1954/55, 1956/57, 1957/58, 1959/60, 1960/61, 1962/63, 1964/65, 1965/66, 1966/67, 1969/70, 1970/71, 1971/72, 1972/73, 1973/74, 1974/75, 1976/77, 1977/78, 1979/80, 1980/81, 1981/82, 1982/83, 1983/84, 1984/85, 1985/86, 1987/88, 1988/89, 1989/90, 1998/99, 2000/01, 2001/02, 2002/03, 2003/04 e 2006/07), 10 Taças de Portugal (1982/83, 1983/84, 1984/85, 1985/86, 1987/88, 1990/91, 2001/02, 2003/04, 2006/07 e 2007/08), 4 Supertaças de Portugal (1998/99, 2000/01, 2002/03 e 2003/04), uma Taça Luso Galaica, entre muitas dezenas de títulos nacionais ao nível da formação.

Alberto José Guimarães, o impulsionador do hóquei ramaldense

No longínquo ano de 1932 estaria longe de imaginar a então jovem coletividade de Ramalde que seria o hóquei em campo a eternizar o seu nome na história do nosso desporto. Na então freguesia rural de Ramalde era comum a paixão pelo futebol jogado com bolas de trapo ser dividida pelo hóquei praticado com troços de couve e bolas improvisadas jogado em terrenos baldios. Um nome sobressaiu neste início de viagem rumo à glória, por assim dizer, no seio da modalidade. Alberto José Guimarães. Praticante desde o primeiro dia da modalidade no clube, ele viria a ser a partir de 1935 o principal dinamizador do hóquei em campo do Ramaldense, sendo a partir daqui e ao longo das décadas seguintes o chefe de secção. E mais do que isto, ele foi digamos que o guardião da mística que a coletividade construiu a partir dali e que permitiu fazer com que o Ramaldense seja ainda hoje o maior emblema da história do hóquei em campo luso. Alberto José Guimarães foi o impulsionador de uma paixão que contagiou centenas de atletas, treinadores e dirigentes ao longo de décadas a fio e sob o signo do amadorismo, em que muitas vezes pagavam do próprio bolso para jogar, para viajar de modo a defender o clube fora da sua região.

Mas, a paixão pelo clube, pelo hóquei, superavam tudo, e muitas vezes o Ramaldense lá improvisava alguma fonte de receita para custear despesas, um sorteio de qualquer coisa, por exemplo.

A mística foi passando de geração em geração, foi sendo traduzida em êxitos desportivos, formando novos atletas numa freguesia que foi respirando hóquei por todos os seus cantos, com quase todos os meninos a improvisarem renhidos jogos com os tais troços de couve. Nomes como Arlindo Silva, João Batista, Jorge Pinho, Litos, Armando, Coelho, Nelo, Agostinho, Rui Resende, Berto Pereira, Vítor Moutinho, Terrinha, entre tantos, mas tantos outros que ajudaram a escrever esta história de glória.

Mas para falar desta história, ou de um bocadinho desta história, nada melhor do que ouvir alguém que não só a viveu de perto, mas como também ajudou a escrevê-la.

E esse alguém é tão somente uma das maiores glórias não só do clube como do próprio hóquei em campo português, de seu nome Jorge Pinto.

Num breve registo biográfico, dizer que esta lenda da modalidade no nosso iniciou-se no hóquei em campo aos 15 anos de idade, estando a ele ligado como jogador ate aos 43 anos, sempre defendendo as cores do histórico Ramaldense. Foi 10 vezes internacional sub-21 pela seleção nacional, tendo participado num Campeonato da Europa neste escalão. Pelo combinado nacional de seniores vestiu a camisola em oito ocasiões, tendo disputado um Campeonato da Europa.

Ao serviço do Ramaldense conquistou inúmeros títulos nacionais, a saber 3 Campeonatos Nacionais de Juniores, 14 Campeonatos Nacionais de Seniores, 7 Taças de Portugal, 2 Supertaças, uma Taça Luso Galaica, uma Taça Luso e um Torneio Internacional disputado em Londres. Contas feitas, este ícone venceu quase metade dos campeonatos nacionais a nível sénior que o histórico clube detém no seu palmarés (33), para ser mais exatos), venceu 7 das 10 Taças de Portugal que os tricolores arrecadaram ao longo da sua história, venceu 2 das 4 supertaças que a coletividade detém nas suas vitrinas, e marcou presença nos dois títulos internacionais que este emblema venceu.

Jorge Pinho, atualmente com 65 anos, é pois um histórico do clube, um guardião da história deste centenário e popular emblema e foi com ele que estivemos à conversa neste dia tão especial para o Ramaldense.

ENTREVISTA

Jorge Pinho com as cores 
do Ramaldense e da seleção nacional
Jorge Pinho: lenda do hóquei em campo do Ramaldense recorda alguns episódios de uma história que ajudou a escrever

Museu Virtual do Desporto Português (MVDP): O Jorge Pinto foi um dos muitos ícones da história do hóquei em campo do Ramaldense, e nesse sentido como explica o facto da freguesia de Ramalde ter uma ligação e uma paixão tão forte com a modalidade, e ao mesmo tempo um viveiro de tantos campeões?

Jorge Pinho (JP): A freguesia tem uma forte paixão pela modalidade, porque viu no Ramaldense um expoente máximo no desporto da terra e na divulgação da própria freguesia, tanto a nível nacional como internacional. E com os resultados a aparecerem, como os títulos de campeões nacionais, os jovens começaram a gostar da modalidade e vinham para o clube no sentido de a praticar, embora na altura só havia competição a nível de juniores e seniores.



MVDP: No seu caso concreto, quando e como despertou o interesse pelo hóquei em campo?

JP: No meu caso o interesse pela modalidade deu-se por mero acaso, ou seja, eu praticava futebol no escalão de juvenis, também no Ramaldense, e certo dia, um sábado, estava a ver um treino dos juniores do hóquei e faltava um elemento para formar duas equipas. Então o treinador, que era meu vizinho, e jogador dos seniores ma equipa de hóquei, pediu-me para fazer uma "perninha" com o intuito de para perfazer os 11 elementos. No final do treino disse que eu tinha muito jeito para aquilo e perguntou-me se queria jogar. Como eu na altura estava a jogar futebol disse-lhe que não. Passado um mês acabou campeonato de futebol e o senhor Arlindo Silva, que era o treinador dos juniores de hóquei, ao passar na minha porta disse-me que já tinha acabado o campeonato de futebol, e voltou a perguntar se eu queria ir jogar hóquei, ao que eu aceitei o convite. Pediu-me para levar duas fotos tipo passe, e nesse mesmo dia, uma quarta-feira, fui inscrito no Ramaldense, tendo no sábado seguinte já participado na final do Torneio de Início de juniores, contra o FC Porto, na condição de como suplente, tendo entrado na segunda parte desse  jogo. Desde aí fui sempre titular da equipa na posição de defesa direito. E foi assim que o meu interesse pela modalidade.

MVDP: Quem eram os grandes ídolos da altura em que o Jorge Pinho ficou ligado à modalidade do Ramaldense, ou seja, quem eram os grandes jogadores do clube que admirava enquanto jovem e sonhava seguir as pisadas?

JP: A equipa sénior estava recheada de muitos bons jogadores, mas tinha alguns que admirava, como era o caso do senhor Arlindo Silva, do senhor João, do senhor António  Pereira, do Coelho, do Nelo, sendo que mais tarde fui colega de equipa destes dois últimos jogadores no escalão de seniores.

MVDP: Sempre que o Ramaldense atuava em casa, o campo estava cheio. Como se explica esta paixão de Ramalde pelo clube e pelo hóquei?

JP: Eram pessoas que nos acompanhavam para todo o lado, inclusive para Lisboa, sempre que íamos participar no Campeonato Nacional. Faziam-se excursões com várias camionetas e a paixão tornou-se grande, derivado aos êxitos da equipa, que além de ter bons praticantes tinha atletas muito unidos e com muita raça, e que foram criando laços de amizade ao longo do tempo com a massa associativa. E daí, na minha opinião, a razão desta paixão pelo hóquei em campo em Ramalde.

MVDP: Qual foi o segredo do clube para o facto de ter obtido tanto sucesso nesta modalidade em particular?

JP: Principalmente o espírito de sacrifício, enquanto as outras equipas pouco treinavam, nós, Ramaldense, era-mos a equipa que mais treinava. Depois, a união, pois todos os jogadores eram de Ramalde. A amizade, o facto de sermos "um por todos, e todos por um", e acima de tudo a raça que todos tínhamos ajuda a explicar esse segredo do sucesso.

MVDP: Há então de certa forma uma mística associada a este sucesso que passou de década em década?

JP: Essa mística passava de geração em geração, e em alguns casos de pais para filhos, que já desde pequeninos acompanhavam os pais para os treinos e para os jogos. E daí ficavam a amar a modalidade e o clube.

MVDP: Sendo o Jorge Pinho um profundo conhecedor da história do clube, no que ao hóquei diz respeito, pensa que há alguma geração do Ramaldense que possa ter sido considerada a maior de sempre? Isto tendo em conta que o Ramaldense conquistou títulos nacionais em décadas distintas, desde 50, 60, 70 e 80, décadas em que o clube teve uma hegemonia a nível nacional.

JP: Sim, a geração das épocas de 70 e 80, onde me englobo, em que a equipa sénior era constituída por jogadores muito jovens que subiram da equipa júnior ao longo dos anos, o que permitiu termos uma equipa constituída sempre pelos mesmos jogadores.

MVDP: Com cerca de 90 anos de atividade, ou seja desde 1932, a secção de hóquei do clube produziu dezenas de craques. Algum destes na sua opinião, pode ser considerado o melhor jogador português de sempre? Ou os melhores da história?

JP: O Ramaldense para mim sempre teve muitos bons jogadores. No entanto, saliento um, do qual fui colega desde os juniores até ao fim da minha carreira, que era o João Batista, um jogador veloz, com uma técnica extraordinária, fora do normal, e um jogador com muito conhecimento de hóquei em campo.

MVDP: O nome de Alberto José Guimarães está para sempre ligado ao hóquei do Ramaldense. Ele foi o primeiro e grande impulsionador da modalidade dentro do clube. Chegou a conhecê-lo?

JP: Sim, cheguei a conhecer e a conviver com esse grande senhor, o Alberto Guimarães, tanto na vida desportiva, como na vida social. Era uma pessoa extraordinária, amigo do seu amigo, que nada deixava faltar ao hóquei do clube, dentro das suas possibilidades. Mas era também uma pessoa muito correta e exigente no termo disciplinar com os jogadores. Se o pudesse definir numa só palavra diria que era: Extraordinário.

Jorge Pinho, uma lenda 
do Ramaldense
MVDP: Ao longo da sua história o hóquei em campo do Ramaldense viveu inúmeros momentos inesquecíveis. O Jorge Pinho esteve em muitos deles. Nesse sentido pergunto-lhe quais os momentos mais marcantes da vida do clube no âmbito desta modalidade?

JP: Tive de facto vários momentos marcantes, tanto pela positiva, como pela negativa. Pela negativa recordo um célebre jogo no campo de treinos do Estádio da Luz, com o Benfica, onde tememos pela nossa vida. Foi após o 25 de Abril, numa altura em que se criou uma guerra norte-sul em termos futebolísticos. Sempre que o FC Porto ia ao sul as camionetas dos portistas eram apedrejadas, e quando o Benfica vinha ao Porto era o contrário, as camionetas dos adeptos benfiquistas eram apedrejadas. Nós, num desses jogos em que fomos a casa do Benfica, na semana anterior as camionetas dos adeptos benfiquistas tinham sido apedrejadas no Porto. Ora, como éramos do Porto cidade a vingança foi sobre a nossa equipa. Lembro-me que ainda a caminho dos balneários fomos autenticamente bombardeados com pedras, e quem nos valeu na altura foi o grande Humberto Coelho, que ainda jogava futebol, e que estava a almoçar no restaurante do Benfica. Então, ele viu os jogadores do clube que o viu nascer para o futebol serem apedrejados, e de pronto abriu as portas do restaurante para que nos pudéssemos refugiar no interior do mesmo. Nessa altura o presidente do Benfica era o senhor Fernando Martins, que depois nos pediu imensa desculpa pelos atos dos seus adeptos. Pela positiva lembro-me de um celebre campeonato nacional em que as equipas de Lisboa se recusaram a participar devido a divergências com a Federação Portuguesa de Hóquei e o campeonato foi disputado com duas equipas: o FC Porto e o Ramaldense, a duas mãos. Na primeira mão, no Campo da Constituição, ficou 0-0. Na segunda mão, qualquer equipa teria que vencer para ser campeão nacional. Ao intervalo perdíamos por 1-0. O meu saudoso pai, que também era um adepto ferrenho do clube e da modalidade, foi ao balneário e disse-nos a todos: "Malta, se vocês derem a volta ao resultado e ganharem o jogo ofereço um almoço e um lanche em Vale de Cambra para todos os atletas e dirigentes". Então um dos nossos colegas de campo diz-lhe: "Marque já o dia que vamos dar a vota já a isto". Passados 10 minutos já ganhávamos por 2-1, tendo-nos tornados mais uma vez campeões nacionais e o dito almoço e lanche foi realizado. Marcou-me bastante pela positiva esta nossa atitude e raça para dar a volta ao resultado.

MVDP: E qual foi seu momento mais marcante vivido com a camisola do Ramaldense?

JP: Outro dos momentos mais marcantes, foi em pleno jogo com o GD Viso, para a Taça de Portugal, o falecimento do nosso chefe de secção, o senhor Camilo Batista, pois era um sofredor pelo seu Ramaldense, e um leixonense de gema. Ele tinha problemas cardíacos, e estávamos sempre a dizer-lhe para ter calma porque um dia ainda morria no nosso meio. Ele dizia sempre que se assim fosse morria no meio de quem gostava. Quis o destino que isso sucedesse mesmo. No meio do seu Ramaldense e no campo do seu Leixões. Outro momento também inesquecível vivido com a camisola do Ramaldense foi um 3º. lugar conquistado na Taça dos Campeões Europeus, em Belfast, na Irlanda do Norte

MVDP: O poderio do hóquei em campo nacional sempre esteve no norte, e no Porto em particular. Como explica esta tendência?

JP: No norte sempre existiu maior poderio porque havia maior gosto pela modalidade e empenho pela mesma. Havia muito mais praticantes e muitas mais equipas, em relação ao sul, onde na altura havia uma equipa também com muito empenho pela modalidade, que era o Futebol Benfica.

MVDP: Ainda por falar do hóquei jogado a norte, o FC Porto sempre foi o vosso maior rival Havia um gosto especial vencer o vizinho da Cidade Invicta, quer fosse num jogo ou simplesmente ter "roubado" um campeonato?

JP: Sim, havia sempre uma grande rivalidade entre as duas equipas, porque geralmente eram duas as melhores, e o FC Porto vinha sempre buscar jogadores ao Ramaldense. Portanto, havia sempre aquela rivalidade de jogar colega contra colega, mas neste caso com camisolas diferentes.

MVDP:  Há algum dérbi portuense que ainda se recorda por algum momento mais especial ou que lhe tivesse ficado gravado na memória?

JP: Sim, recordo um GD Viso-Ramaldense, disputado em Vila Nova da Telha, em que em numa disputa de uma bola com um adversário, devido ao poderio físico dele, em relação a mim, mas sem maldade alguma, num ombro a ombro na disputa de uma bola cai e bati com a cabeça. Continuei a jogar e no fim do jogo fui parar ao hospital porque não me lembrava de nada. Nesse jogo vencemos por 1-0, mas felizmente nada de grave aconteceu.

MVDP: Enquanto crónico campeão nacional o Ramaldense participou algumas vezes na Taça dos Campeões Europeus da modalidade. O que guarda dessa competição com alguns dos melhores clubes da Europa no âmbito desta modalidade? Deu para aprender, para perceber que o nosso hóquei estava a "anos luz" do que praticava lá fora, ou pelo contrário...

JP:  Por diversas vezes fomos participar nas provas europeias. Claro que sempre que nos deslocávamos a essas competições à partida já íamos inferiorizados, pois o nosso hóquei era disputado em campos de terra, enquanto todos os nossos adversários jogavam em relvados propícios para a modalidade. Aprendemos muito ao jogarmos com adversários com estatuto superior ao nosso, mas ao longo dos anos já nos acostumávamos aos relvados e conseguimos até o tal 3.º lugar na Europa. Além disso, acho que foi uma mais valia para a modalidade em si.

MVDP: Olhando hoje para trás, do que tem mais saudades neste seu percurso pelo Ramaldense?

JP: A pratica da modalidade, a amizade, e o convívio entre todos nós, pois na nossa vida social estávamos quase sempre todos juntos. Éramos uma família tricolor.

MVDP:  Há alguma figura dentro do clube que o tenha marcado para a vida de certa forma?

JP: Sim, e muito, um senhor com S grande, de nome Arlindo Silva, que além de ser a pessoa que me impulsionou para a modalidade, era um exemplo e um autêntico Mestre, tanto na formação desportiva, como na formação de homens.

MVDP: O Jorge Pinho foi igualmente internacional por Portugal. Foi o seu ponto alto da carreira, ou teve outros com a camisola do Ramaldense?

JP: Sim, pelo clube tive imensos pontos altos que nunca irei esquecer. Desde os vários campeonatos nacionais conquistados, tanto de juniores como nos seniores, passando pelas conquistas de Taças de Portugal, das Supertaças, dos torneios internacionais. Mas o ponto mais alto da carreira de qualquer desportista não deixa de ser a seleção nacional, e eu não fujo a regra.

Jorge Pinho com as cores de Portugal
MVDP: Tem alguma história inesquecível com a camisola de Portugal?

JP: Com a camisola da seleção ficou-me gravado na memória o apuramento para a fase final do Campeonato da Europa de Sub-21, em Itália, mais propriamente em Turim. Eliminámos a Itália, por 2-1, sendo que estive envolvido nos dois golos da nossa seleção. Eliminámos ainda a França e depois de empatarmos a zero fomos apurados para a fase final, em Inglaterra. Também me ficou na memória a derrota de Portugal, em seniores, para o Campeonato da Europa, por 12-1, com a seleção da Bélgica, onde o jogo foi realizado a noite, e onde nunca tínhamos jogado, e em que foi um descalabro.

MVDP: Como é que vê o hóquei em campo de hoje comprado com o hóquei em campo do seu tempo?

JP: Hoje o hóquei em campo, é mais tecnicista, mais veloz derivado a todos jogarem em campos sintéticos. Mas na minha opinião acho que perdeu toda a beleza em si, ao serem modificadas muitas das regras existentes anteriormente. Há também muitas deslocações para disputar os diversos campeonatos, o que torna muito dispendiosa a modalidade, já que não há quase ajudas nenhumas das entidades, excetuando alguns casos. Clubes como o nosso não tinham ajudas, e daí a haver muito menos praticantes da modalidade a nível nacional. Resumindo, antigamente havia muitos praticantes, mas não havia condições para a pratica da modalidade, sendo que agora há condições (relvados sintéticos), mas não há é praticantes, e estas são as grandes diferenças entre o passado e o presente.

Uma das muitas equipas do Ramaldense campeãs nacionais 
com a ajuda de Jorge Pinho

MVDP: Para terminar, como vê hoje o hóquei em campo em Portugal e a modalidade no seio do Ramaldense e o que falta ao clube para voltar a ser a potência que foi no passado?

JP: Para tristeza minha o Ramaldense hoje não tem hóquei em campo, teve de suspender a modalidade. Como sabem somos um clube de bairro, mas histórico e fazemos hoje (5 de abril) 100 ANOS DE EXIXTÊNCIA. Vivemos da carolice das pessoas, embora com alguma ajuda da Junta de Freguesia de Ramalde. Não temos campo próprio, foi nos tirado. Antes jogávamos (hóquei) no sintético do Viso, mas derivado as (elevadas) verbas não podemos competir, já que eram os jogadores a suportar quase as despesas todas. Queríamos voltar a ser a maior potencia no hóquei em campo, se voltarmos a reativar o secção com a formação.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ENTREVISTA - José Garrido relembra o "dream team" do Sporting que conquistou para Portugal a primeira prova europeia de hóquei patins

José Garrido, com as cores do seu Sporting
Pode ir longe na estrada do tempo, mas jamais irá cair na berma do esquecimento, tal foi a sua importância não só para a história do hóquei em patins português, como do próprio desporto nacional. Falamos da épica caminhada da equipa do Sporting Clube de Portugal na edição de 1976/77 da então Taça dos Clubes Campeões Europeus - hoje denominada de Liga Europeia. Perdão, da equipa do Sporting não, do dream team (equipa de sonho) dos leões de Alvalade, daquela que nos dias de hoje é recordada como a equipa maravilha do hóquei patins... planetário! Não estaremos a exagerar, longe disso. Na realidade esta equipa transportou a modalidade para a dimensão do espetáculo, graças ao virtuosismo individual de jogadores como Sobrinho, Chana, Ramalhete, Júlio Rendeiro, ou o mestre dos mestres, António Livramento. Se de futebol estivéssemos a falar, diríamos que se tratou de uma equipa de galáticos, de autênticos magos do stick e dos patins. Além de interpretar o hóquei em patins com uma qualidade ímpar, aquela lendária equipa do Sporting conquistou um lugar na história por ter sido a primeira a trazer para solo português um troféu continental ao nível de clubes. Já lá vão 37 anos, mas não se esquece, jamais. E porque o Museu Virtual do Desporto Português tem por missão guardar para a eternidade os feitos - e os seus protagonistas - do desporto nacional, eis que recebemos hoje a visita de um ilustre membro da equipa maravilha do Sporting dessa inesquecível época de 76/77. José António Pereira Garrido, ou simplesmente, Garrido, fez, a nosso convite, uma viagem no tempo para recordar - ainda que em breves palavras - os dias de glórias vividos de leão ao peito, e muito em particular a caminhada triunfal na prova rainha do hóquei patinado europeu. O stick é seu Garrido. 

Museu Virtual do Desporto Português (MVDP): Como qualquer história também a do Garrido teve um início...
Garrido (G): ... Sim, a minha história começa quando eu tinha 9 anos de idade, altura em que na rua aprendi a equilibrar-me nos patins que o meu pai me tinha oferecido. Lembro-me que os usava presos a umas galochas (!). Como vivia em Benfica (nota: Garrido é natural de Lisboa, onde nasceu a 8 de janeiro de 1957) dirigi-me à secção de hóquei em patins do Clube Futebol Benfica, o popular Fófó, no sentido de ali, no clube do meu bairro, começar a praticar a modalidade um pouco mais a sério. Para minha grande desilusão fui recusado! Deram-me a justificação de pretenderem integrar miúdos com mais experiência...

MVDP: ... Mas não se deu por vencido logo à primeira...
G: ...Não. Aos 10 anos, acompanhado pelo meu pai, fui treinar ao Sporting, que era, e é, o meu clube. Fiquei, e comecei a treinar naquele mesmo dia. Recordo que o treinador era o Luís Barata, e após dois meses de treinos tornei-me jogador federado. Estive dois anos na equipa de iniciados, e depois de uma época como juvenil passei diretamente para a equipa de juniores. Em todos estes escalões ganhei títulos, quer distritais, quer nacionais. Aliás, foi enquanto atleta júnior que fui chamado à seleção nacional da categoria, tendo sido campeão europeu em dois anos seguidos, em 1975 e em 1976, sendo que o primeiro título foi alcançado em Darmstadt, na Alemanha. João de Brito era o selecionador nacional dessa altura. Um ano mais tarde voltei a ser campeão europeu, desta feita em Barcelos, com Luís Barata na qualidade de selecionador. Em 1977 subir a sénior, integrando aquela que já era a super equipa de hóquei patins daqueles anos.
A célebre equipa do Sporting que em 1977 conquistou de forma brilhante a Europa do hóquei em patins (Garrido é o primeiro jogador da fila de cima a contar da direita para a esquerda)
MVDP: Chegou ao patamar sénior precisamente na época em que o Sporting encantou o planeta do hóquei em patins com a conquista da Taça dos Campeões Europeus, a primeira eurotaça que viajou para Portugal, no que a hóquei patinado diz respeito. É caso para dizer que o Garrido não poderia ter tido melhor estreia no escalão sénior.
G: Sim, em 1977, no meu primeiro ano de sénior, integrei aquela super equipa que a nível nacional ganhou tudo o que havia para ganhar. Posso dizer que encontrei um ambiente fantástico naquele balneário. Tive o prazer de conviver com grandes hoquistas e sobretudo com grandes homens que me ajudaram a formar-me não só como jogador como também como ser humano. Como referiu na pergunta, este primeiro ano de sénior coincidiu com a conquista europeia, a primeira e única da minha carreira - ao nível de clubes - e sem dúvida o título mais saboroso que obtive. Recordo-me, em particular, da inesquecível chegada a Lisboa - no regresso de Espanha, após ter conquistado o título no rinque do Villanueva - onde uma multidão nos esperava.

O duelo na piscina do Voltregá
MVDP: Apesar de aquele Sporting ter uma equipa do outro mundo a caminhada para o título foi dura, como comprova a meia final diante do campeão da Europa em título, o Voltregá.
G: A primeira mão da meia final foi jogada em Espanha, ao ar livre, e à chuva! Nós propusemos jogar quando a chuva abrandasse ou então no dia seguinte, o que não foi aceite pela equipa da casa. A bola praticamente não rolava e nós ficavámos em zonas pontuais - do rinque - prevalecendo o passe.
Perdemos por 5-2. Em Lisboa vencemos por 8-3 diante de um pavilhão cheio. Na final jogámos a primeira mão em Lisboa, e recordo-me que não cabia um alfinete na Nave de Alvalade. Curiosamente, quatro horas antes do início do jogo toda a equipa foi lanchar a uma churrascaria que havia na zona do Campo Grande e o pavilhão já estava lotado! Vencemos por 6-0.
Em Espanha, na segunda mão, o Sporting fez-se acompanhar por muitos adeptos e voltámos a vencer, desta vez por 6-3, depois de entrarmos a perder por 0-2.
Nesse jogo, o Livramento, o Chana, e o Ramalhete fizeram um jogo brilhante, ao ponto de os próprios adeptos espanhóis nos aplaudirem de pé no final.

Garrido, na atualidade
MVDP: Por falar em António Livramento, o que recorda dessa lenda do hóquei em patins mundial?
G: Não existem palavras para descrever o António Livramento, o melhor jogador do Mundo de todos os tempos. Era acima de tudo um grande ser humano, e mesmo sabendo que era o melhor hoquista do planeta mantinha-se humilde, e sempre pronto para ajudar os colegas. Ainda em relação aquela grande equipa do Sporting não posso deixar de salientar dois outros grandes nomes do clube. O primeiro, o nosso treinador, o Torcato Ferreira, e o segundo um grande senhor, um grande presidente, o senhor João Rocha, que nos levou a alcançar todos esses feitos.

MDVP: Para terminar esta breve visita ao Museu Virtual do Desporto Português, continua ligado à modalidade?
G: Depois de sair do Sporting defendi as cores do Belenenses, Sesimbra, Sanjoanense, e o Campo de Ourique, onde dei por encerrada a minha carreira. Hoje, continuo a jogar ao nível de veteranos, só para matar saudades dos velhos tempos.

VÍDEO: VILlANUEVA - SPORTING (2ª mão da final da Taça dos Campeões Europeus de 1977)