quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Flashes Biográficos (16): Neemias Queta - O primeiro português a pisar o palco da galática NBA

Esta é uma história que ainda agora começou a ser escrita, mas... desde já é histórica e irá ficar perpetuada nos anais da História do desporto português. Este facto ocorrido muito recentemente em 2021, significa na mitologia grega que estamos perante a subida ao Olimpo dos Deuses tal o significado que representa. mas esta para orgulho da nossa nação é uma epopeia bem portuguesa alcançada por um jovem nascido no Barreiro há 22 anos. O seu nome é Neemias Esdras Barbosa Queta, ou simplesmente Neemias Queta, que para sempre será recordado como o primeiro português na história da NBA, a liga norte-americana de basquetebol, a liga mais famosa e importante desta modalidade a nível planetário. 

O poste português nascido a 13 de julho de 1999 foi escolhido na posição 39 do draft pelos Sacramento Kings. Com 2,13 metros de altura, o atleta cresceu no Vale da Amoreira, começou a jogar no Barreirense, passou pelo Benfica, brilhou nas seleções jovens de Portugal, no basket universitário dos Estados Unidos da América e é assim o primeiro luso a jogar na melhor liga de basquetebol do mundo. É um sonho tornado realidade, não só para ele mas também para todos os amantes da modalidade nascidos em solo lusitano. Recorde-se que João “Betinho” Gomes participou no draft de 2007, mas a sorte não lhe sorriu, ao contrário de Neemias que na madrugada de 29 de julho de 2021 foi eleito na segunda ronda do draft.

 Neemias Queta e "Betinho" Gomes são dois atletas formados no Futebol Clube Barreirense que simbolizam o que de melhor se faz nos escalões de formação do clube.

Neemias Queta chegou ao Barreirense aos 10 de idade, começando a praticar minibasquetebol. No Barreiro permaneceu até aos 19 anos, sendo que com 17 anos já representava a equipa sénior, passando dois anos depois  para o Benfica, clube que representaria em apenas dois jogos pela equipa principal antes de viajar até aos Estados Unidos da América (EUA). Ali chegado ingressou na universidade de Utah State, onde atuou durante três temporadas ao serviço da equipa de basquetebol 'Aggies'. Na última temporada ao serviço dos ‘Aggies’, Neemias disputou 29 jogos, onde registou 433 pontos, 294 ressaltos, 77 assistências, 31 roubos de bola e 97 desarmes de lançamento. Um registo assombroso, e para se perceber a importância destes números temos de sublinhar que em 18 temporadas apenas dois jogadores conseguiram números superiores a 400 pontos, 50 assistências e 80 desarmes de lançamento, Neemias e Anthony Davis, sendo que este último é uma das estrelas atuais da NBA. Três anos depois de trocar Portugal pelos EUA, o jovem descendente de pais guineenses cumpre assim o sonho de chegar ao melhor campeonato de basquetebol do mundo. «Mal posso esperar por ir para Sacramento. Vamos, Kings!», escreveu o internacional luso na sua conta oficial na rede social Instagram assim que foi selecionado. Neemias é internacional pelas seleções jovens de Portugal, país que representou o EuroBasket Sub-18 de 2017, onde os lusos estiveram em bom plano e onde Queta se exibiu a um grande nível, de tal forma que essa boa performance lhe valeu a tal ida para os Estados Unidos. Em 2019 ajudou a nossa seleção a sagrar-se campeã do Europeu B da categoria de sub-20, tendo sido eleito para o cinco inicial do torneio. 

Do Vale da Amoreira para a NBA, este é um sonho que ainda só agora começou.

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Pedro Pablo Pichardo salta para o ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio (2020)

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 vão ficar gravados a letras de ouro na história do desporto português. Portugal alcançou naquela cidade nipónica a sua melhor prestação de sempre em Olimpíadas ao ultrapassar a anterior "fasquia" das três medalhas conquistadas num evento deste âmbito. A nação lusa arrecadou a quarta medalha olímpica nos Jogos de 2020 por intermédio do luso cubano Pedro Pablo Pichardo. E depois das medalhas de bronze de Fernando Pimenta (canoagem) e de Jorge Fonseca (judo) às quais se juntou a prata de Patrícia Mamona (triplo salto) eis que chegou o almejado ouro. Pedro Pablo Pichardo tornou-se campeão olímpico do triplo salto, num concurso em que bateu o recorde nacional no salto que lhe deu o ouro, a 17,98, estabelecendo um novo recorde nacional. Na sua primeira presença em Jogos Olímpicos, Pichardo tornou-se no quinto português a sagrar-se campeão olímpico, depois de Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro e Nélson Évora. Em Tóquio, o atleta luso-cubano, de 28 anos, liderou sempre a prova, começando com um salto de 17,61, que por si só já lhe daria o título. A seguir um salto igual ao centímetro e a fechar os três primeiros saltos o 17,98 que melhorou o recorde nacional que já era seu. Seguiu-se um nulo e Pichardo dispensou o 5.º salto, aparentemente depois de ferir o pé no 4.º salto. Ao 6.º, já campeão olímpico, ainda tentou passar os 18 metros, mas o salto acabou nulo. Yamingo Zhu, da China, foi medalha de prata e Hugues Fabrice Zango, do Burkina Faso bronze.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Fernando Pimenta conquista em Tóquio a segunda medalha olímpica da sua notável carreira

Como diz o velho chavão: "não há duas sem três", e eis que em Tóquio a nação portuguesa voltou a tocar o céu na sequência da conquista de mais uma medalha olímpica. E desta feita por intermédio de alguém que conhece bem a sensação de vencer uma medalha no maior evento desportivo do planeta, alguém que por direito próprio há muito que já garantiu um lugar na "imortalidade" do desporto português. Fernando Pimenta é o seu nome, para muitos o maior praticante de canoagem português de todos os tempos, opinião da qual concordamos em absoluto tendo em conta os resultados absolutamente extraordinários que tem alcançado ao longo da sua carreira.

E nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Pimenta conquistou a medalha de bronze na prova dos K1 1000 metros na canoagem, numa final onde viu a prata escapar apenas por 47 milésimos de segundo. O húngaro Kopasz ficou com o ouro, tendo liderado quase toda a prova e andou a discutir com o português o primeiro posto. O também húngaro Adam Varga, ficou com a medalha de prata (com o tempo de 3.22,431), batendo o português mesmo em cima da linha de meta. Pimenta terminou com 3.22,478 minutos.

A prova teve início com uma falsa partida, mas no reinício o português teve uma partida menos boa mas rapidamente assumiu a liderança, sempre com os húngaros à espreita. Kopasz passou para a frente na metade da prova, à frente de Pimenta e Adam Varga. Porém, o húngaro disparou e fez uma ponta final muito forte, ao contrário de Fernando Pimenta que foi perdendo fulgor nos derradeiros metros, até ser ultrapassado por Varga mesmo em cima da linha. Nas meias-finais, Fernando Pimenta tinha batido o recorde olímpico do K1 1000, com 3.22,942 minutos. Antes de colocar a medalha de bronze ao peito Pimenta era naturalmente um homem feliz: «Acima de tudo, sinto-me feliz. Não consegui vencer, os dois húngaros foram mais fortes, fizeram uma excelente prova, mas dei o meu melhor e isso é o mais importante, é sair daqui com a consciência super tranquila de que mostrei o meu valor, um ciclo olímpico em que estive sempre nas medalhas, nos mundiais e europeus», começou por dizer o atleta natural de Ponte de Lima à RTP. «Fui o atleta mais regular e não posso estar mais feliz do que isto. A minha carreira ainda agora começou, tenho que continuar a trabalhar mais e melhor. Estou super feliz, claro que queria vencer, depois de na meia-final bater o recorde olímpico. Estou aqui para representar Portugal e os portugueses da melhor forma. Sei que havia o sonho e a ilusão de o Pimenta ser campeão olímpico. Isto ainda não acabou, falta um próximo ciclo olímpico. O Pimenta está cá para as curvas. Ainda quero voltar aos Jogos Olímpicos. Já comecei a pensar em 2032, vai ser na Austrália. Quero agradecer a todos os portugueses. Só tenho de estar orgulhoso, agradecer ao meu treinador, a toda a estrutura da Federação pelo apoio, ao SL Benfica, a todos os limianos, sem esquecer o Náutico de Ponte de Lima e o município, à minha família», concluiu.

Como já referimos no início esta foi a segunda medalha olímpica de Fernando Pimenta, ele que em 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, havia vencido a medalha de prata no K2 1000, fazendo dupla com Emanuel Silva.

Assim sendo, Pimenta juntou-se a um restrito lote de atletas que venceram mais do que uma medalha olímpica nas suas carreiras, como são os casos do cavaleiro Luís Mena e Silva (venceu medalhas nos Jogos de 1936 e de 1948), de Carlos Lopes (Olimpíadas de 76 e de 84), Rosa Mota (duas medalhas nos Jogos Olímpicos de 1988) e de Fernanda Ribeiro (nos Jogos de 96 e de 2000), sendo que estes três últimos o fizeram no atletismo.

Este foi mais um pódio na carreira de Fernando Pimenta, que já leva mais de uma centena de subidas ao pódio em competições internacionais.

Com esta medalha de bronze olímpica conquistada por Pimenta, Portugal elevava para três o número de medalhas conquistadas em Tóquio2020, depois de Jorge Fonseca ter alcançado o bronze na categoria de -100 kg em judo, e de Patrícia Mamona ter arrebatado a medalha de prata no triplo salto. Portugal igualou desta forma o melhor pecúlio em Jogos Olímpicos, reeditando as três subidas ao pódio de Los Angeles 1984 e Atenas 2004.

Mas voltando a Fernando Pimenta, recordamos em seguida alguns dos principais resultados internacionais alcançados pelo atleta nascido a 13 de agosto de 1989 de há 16 anos a esta parte:

*2024: 1.º Campeonato da Europa (K1 5000 metros)

2.º Campeonato da Europa (K1 1500 metros)

*2023: 1.º Taça do Mundo (K1 1000 metros)

1.º Campeonato do Mundo (K2 maratona)

2.º Campeonato do Mundo (K1 5000 metros)

3.º Campeonato do Mundo (K1 1500 metros)

2.º Jogos Europeus (K1 1500 metros)

*2022: 1.º Taça do Mundo (K1 5000 metros)

1.º Campeonato do Mundo (K1 1000 metros)

1.º Campeonato do Mundo (K1 500 metros)

1.º Campeonato do Mundo (K2 500 metros)

*2021: 1.º Campeonato do Mundo (K1 1000 metros)

2.º Campeonato da Europa (K1 1000 metros); 3.º Jogos Olímpicos Tóquio2020 (K1 1000 metros); 3.º Campeonato da Europa (K1 5000);

3.º Taça do Mundo (K1 1000); e 3.º Taça do Mundo (K1 1000).

2020: 1.º Taça do Mundo (K1 1000); 1.º Taça do Mundo (K1 5000); e 2.º Taça do Mundo (K1 500).

2019: 1.º Taça do Mundo (K1 500); 1.º Taça do Mundo (K1 1000); 1.º Taça do Mundo (K1 5000); 2.º Jogos Europeus (K1 1000); 2.º Jogos Europeus (K1 5000); 3.º Taça do Mundo II (K1 500): 3.º Campeonato do mundo (K1 1000); e 3.º Campeonato do mundo (K1 5000).

2018:  1.º Campeonato da Europa (K1 1000); 1.º Campeonato do mundo (K1 1000);

1.º Campeonato do mundo (K1 5000); 1.º Taça do Mundo (K1 1000); 1.º Taça do Mundo (K1 5000); 2.º Taça do Mundo (K1 500); 2.º Jogos do Mediterrâneo (K1 500);

2.º Campeonato da Europa (K1 5000); e 3.º Campeonato da Europa (K1 500).

2017:  1.º Campeonato da Europa (K1 1.000); 1.º Campeonato do mundo (K1 5000);

1.º Taça do Mundo (K1 1000); 2.º Campeonato do mundo (K1 1000); 2.º Campeonato da Europa (K1 5000);  2.º Taça do Mundo (K1 500); 2.º Taça do Mundo (K1 5000); e

2.º Taça do Mundo II (K1 1000).

2016: 1.º Campeonato da Europa (K1 1000); 1.º Campeonato da Europa (K1 5000);

1.º Taça do Mundo (K1 5000); 2.º Taça do Mundo (K1 5000); 3.º Taça do Mundo III (K1 1000); 5.º Jogos Olímpicos Rio 2016 (K1 1000): 6.º Jogos Olímpicos Rio 2016 (K4 1000).

2015: 1.º Evento Teste Rio2016 (K1 1000); 1.º Taça do Mundo (K1 1000); 1.º Taça do Mundo (K1 5000); 2.º Jogos Europeus, em Baku (K1 1000); 2.º Jogos Europeus, em Baku (K1 5000); 2.º Campeonato da Europa (K4 1000); 3.º Campeonato da Europa (K1 1000); 3.º Campeonato do mundo (K1 1000); e 4.º Campeonato do mundo (K4 1000).

2014: 2.º Campeonato do mundo (K4 1000); 2.º Taça do Mundo (K1 5000); 2.º Taça do Mundo II (K1 500); 3.º Campeonato da Europa (K4 1000); 3.º Campeonato da Europa (K1 5000); 3.º Taça do Mundo (K1 500); 3.º Taça do Mundo (K1 1000); e 3.º Taça do Mundo II (K1 1000).

2013: 1.º Universíadas (K1 1000); 1.º Universíadas (K1 500); 1.º Taça do Mundo II (K2 500); 2.º Campeonato da Europa (K4 1000); 2.º Campeonato da Europa (K1 5000); 2.º Taça do Mundo (K4 1000); e 3.º Taça do Mundo (K2 500).

2012: 1.º Qualificação Olímpica Europeia (K1 200); 2.º Jogos Olímpicos Londres2012 (K2 1000); e 3.º Taça do Mundo (K2 1000).

2011: 1.º Campeonato da Europa (K4 1000); 1.º Taça do Mundo (K2 1000); 1.º Taça do Mundo (K4 1000); 1.º Taça do Mundo (K1 5000); 2.º Taça do Mundo II (K1 1000);  2.º Campeonato da Europa sub-23 (K2 500); 3.º Campeonato da Europa (K1 1000); 3.º Campeonato da Europa sub-23 (K2 500); 3.º Taça do Mundo II (K1 5000); 3.º Taça do mundo II (K4 1000); e 6.º Evento teste de Londres2012 (K1 1000).

2010: 1.º Campeonato da Europa sub-23 (K2 500); 2.º Campeonato do mundo (K2 500);

2.º Taça do Mundo (K2 500); 3.º Campeonato da Europa (K2 500); 3.º Campeonato da Europa sub-23 (K2 500); e 3.º Campeonato do mundo de maratonas sub-23.

2009: 1.º Campeonato da Europa sub-23 (K1 1000); 2.º Campeonato do mundo de maratonas de sub-23; e 3.º Campeonato da Europa sub-23 (K1 500).

2007: 1.º Campeonato da Europa de juniores (K1 1000); e 2.º nos Europeus de juniores (K1 500).

2005: 1.º no Festival Olímpico da Juventude Europeia (K4 500).

Impressionante!

*Nota: Palmarés atualizado. 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Patrícia Mamona voa para a prata olímpica em Tóquio

Abrem-se de novo as portas deste Museu para evocar a conquista de uma nova medalha nas Olimpíadas que decorrem por esta altura em Tóquio, e que pelo significado que naturalmente tem ficará perpetuada na história do nosso desporto. 
E desta vez foi Patrícia Mamona que arrecadou a medalha de prata no triplo salto ao chegar aos 15.01 metros, estabelecendo desde logo um recorde pessoal e nacional e que marca a primeira vez que atleta ultrapassa a barreira dos 15 metros.
A venezuelana Yulimar Rojas venceu a medalha de ouro com recorde mundial de 15.67 metros, ao passo que a espanhola Ana Peleteiro foi medalha de bronze com 14,87 metros, novo recorde nacional para a Espanha.
Esta é terceira presença da atleta portuguesa nos Jogos Olímpicos, após o sexto lugar em 2016 no Rio de Janeiro e do 13.º posto em 2012, em Londres.
«Estou nas nuvens, sem palavras. Parece tudo surreal. A primeira coisa que me vem à cabeça é o meu treinador, a minha família e este grande país que é Portugal. Vinha confiante da qualificação e sabia que este seria um momento especial para mim. São cinco anos a trabalhar para este momento, 20 anos no triplo salto. Estou orgulhosa de todos, da reação do público. Disseram que Portugal era um país pequeno, mas consegue coisas grandes. O apoio dos portugueses foi fundamental», disse a atleta à RTP.
Na hora da emoção a atleta de 32 anos disse ainda que «não posso dizer que é um momento de afirmação para todo o desporto português, mas é para o triplo salto. O Nelson Évora vai terminar a carreira nestes Jogos Olímpicos. Ele é uma inspiração para mim. Espero dar continuidade ao que ele tem feito. Sinto-me em forma, tenho muito para dar. Paris 2024 é daqui a três anos. Mas não quero pensar muito nisso. Quero desfrutar deste momento e deixar uma mensagem de agradecimento a todos os portugueses. Que seja um momento de inspiração para todos os que sonham. Se acreditarem mesmo que conseguem, vão atrás dos vossos sonhos». 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Judoca Jorge Fonseca arrecada novo bronze olímpico para Portugal

É com imenso orgulho e emoção que abrimos hoje as portas do nosso Museu para evocar e enaltecer a conquista de uma medalha olímpica pelo nosso país nos Jogos que decorrem presentemente em Tóquio. Feito alcançado pelo judoca Jorge Fonseca, que arrecadou a medalha de bronze na categoria de -100 quilos do torneio de judo. 
É o primeiro pódio português nestes Jogos Olímpicos de Tóquio e a terceira medalha de bronze para o judo nacional no evento, após as conquistas de Nuno Delgado, em Sydney 2000, e de Telma Monteiro, no Rio de Janeiro 2016.
Jorge Fonseca conquistou o terceiro lugar do pódio depois de derrotar o canadiano Shady Elhanas, por waza-ari, num combate renhido. Fonseca falhou a final olímpica na categoria de -100kg após ter sido derrotado pelo coreano Guam Cho, explicando então que estava limitado por uma lesão na mão esquerda, referindo mais tarde que se tratava de uma cãibra. E no combate pelo bronze, o português conseguiu um waza-ari a cerca de 30 segundos do final, ainda sofreu uma penalização, mas segurou o resultado e assegurou o pódio.
«Estou feliz. Trabalhei para o ouro, infelizmente não correu bem, mas consegui o bronze. Queria muito esta medalha, estava desejoso de a ganhar. Agora vou trabalhar para ir buscar o ouro a Paris», afirmou o atleta à RTP. «Sou bicampeão do mundo, o meu lugar é o ouro. Quero mais, quero ser o melhor de todos os tempos no desporto nacional», concluiu, agradecendo ainda o apoio dos portugueses.
No trajeto até ao bronze, Jorge Fonseca venceu o belga Toma Nikiforov e o russo Niiaz Iliasov, mas acabou por sair então derrotado pelo coreano Guham Cho no combate que dava acesso à final.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Primeira medalha olímpica do judo nacional festejada com uns passinhos de dança

No preciso dia em que arranca mais uma edição daquele que é tido como o maior evento desportivo do Mundo, os Jogos Olímpicos, o nosso Museu vai continuar a recordar os momentos de glória dos atletas lusos no palco olímpico. E hoje viajamos até Sydney, que em 2000 acolheu a XXVII Olimpíada. Portugal guarda boas memórias de Sydney, já que dali trouxe duas medalhas, uma no atletismo, por intermédio de Fernanda Ribeiro, e outra no judo, pela mão de Nuno Delgado. Ambas de bronze. É da de judo que hoje vamos falar. Em 2000 pela primeira vez o judo português subia a um pódio olímpico. Nuno Delgado (nascido em Lisboa, a 27 de agosto de 1976) foi o herói nacional ao vencer a medalha de bronze na categoria de -81kg depois de ter derrotado o uruguaio Álvaro Paseyro por "ippon". Para sempre na memória ficam os festejos do luso, com pulos e passos de dança a sua medalha, naquela que foi a sua estreia nos Jogos Olímpicos. O judoca que então representava o Sport Algés e Dafundo, com 24 anos, venceu quatro combates consecutivos, mas perdeu na meia final com o sul-coreano In-chu Cho por decisão do júri. Nuno Delgado iniciou a sua caminhada de glória com um triunfo sobre o monegasco Vatricant ("ippon" em 28s) e continuou com vitórias perante o italiano Lepre (decisão unânime dos juízes), o australiano Kelly ("ippon" em 3m19s) e o iraniano Sarikhani ("ippon" em 4m32s). Nas meias-finais, a derrota (por "yuko") frente ao coreano Choi afastou-o das medalhas de ouro e de prata, mas o bronze acabou por ser garantido com o triunfo sobre o uruguaio Paseyro ("ippon" em 3m56s). Nuno dedicou o seu triunfo ao judo nacional, explicando que a estratégia de ataque contínuo no combate para o bronze foi planeada antes de entrar no tapete e assumiu com desportivismo a derrota na meia-final: «O coreano já me tinha batido nos Mundiais, por isso estava ansioso por voltar a encontrá-lo. Só que ele esteve melhor e foi taticamente muito bom, tenho de lhe dar os parabéns. Eu vim aqui para ganhar os combates todos, mas há que assentar os pés no chão e aceitar que houve um adversário que me bateu e foi justo». Dos seis judocas portugueses presentes em Sydney, Nuno Delgado foi o único estreante nos Jogos Olímpicos, mas na bagagem levava para a Austrália o título de campeão europeu, conquistado no ano anterior. No pós Sydney foi ainda vice-campeão europeu em 2003, sendo que em 2004 ele foi o atleta escolhido como porta-estandarte da delegação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Atenas. Vinte anos mais tarde, e ainda sobre a mítica medalha olímpica conquistada em Sydney, Nuno Delgado disse que aquelas foram "emoções fortes, momentos de satisfação. De alguma maneira, sinto uma enorme satisfação por ter contribuído para o caminho que a modalidade trilhou, pois evoluiu e cresceu, ganhou muitas medalhas nas grandes competições. É um prazer e orgulho fazer parte dessa história».


Vídeo: Reportagem da RTP que mostra o momento de glória olímpica de Nuno Delgado

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Debaixo de chuva e trovões a vela portuguesa chega de novo a uma medalha olímpica

A seguir ao atletismo a vela é a modalidade que mais medalhas conferiu a Portugal no que a Jogos Olímpicos concerne. Depois de Londres (1948), Helsínquia (1952) e Roma (1960) uma nova glória olímpica deu à costa em Atlanta, no ano de 1996, ano em que esta cidade norte-americana foi sede da XXVI olimpíada. Doze anos depois os Estados Unidos da América voltavam a receber a família olímpica e nunca se venderam tantos bilhetes como então, no balanço final é registada a venda de 10 milhões de bilhetes! A missão portuguesa fez-se representar por 107 atletas, 83 homens e 24 mulheres, repartidos por 18 modalidades. Uma delas foi a vela, que nestes Jogos apresentava uma dupla que haveria de entrar na história do nosso desporto, nomeadamente Hugo Rocha e Nuno Barreto. O primeiro atleta, nascido a 13 de abril de 1972, em Lisboa, era um repetente em matéria de Jogos Olímpicos, já que quatro anos antes havia estado em Barcelona, não tendo ido além de um 24.º lugar na Classe 470 juntamente com o seu par de então, Jorge Seruca. Vela portuguesa que no palco olímpico não subia ao pódio desde a medalha de prata na classe Star, conquistada em 1960 pelos irmãos Quina.

Mas tudo mudou no dia 30 de julho de 1996, um dia tempestuoso, com relâmpagos e trovões a pairarem sobre o Centro Olímpico de Savanah, a cerca de 370 km de Atlanta, local onde decorreram as provas de vela. Concluída a 11.ª regata na Classe 470 Hugo Rocha e Nuno Barreto regressam à marina de Savanah com a medalha de bronze ao peito. Na partida para esta derradeira regata, o treinador da dupla portuguesa, Luís Rocha, que como curiosidade era irmão de Hugo Rocha, antevia que a dupla de velejadores sabia aguentar a pressão e quem sabe dessa forma poderia conquistar uma medalha. Portugal que era naquela altura 3.º colocado na classificação geral, a um ponto da Grã-Bretanha, depois de ter andado em 2.º lugar no final da 4.ª regata.  Hugo Rocha e Nuno Barreto (nascido a 29 de abril de 1972) provaram em Atlanta que eram os legítimos descendentes de uma longa dinastia de sucesso na vela portuguesa. Na classificação final a Ucrânia ficou com o ouro, a Grã-Bretanha com a prata e Portugal com o bronze. Chegados ao nosso país, foram recebidos como heróis, sobretudo em Faro, cidade familiar para ambos, já que tinha sido ali, ao serviço do Ginásio de Faro, que tinham dado nas vistas na modalidade. Na capital do Algarve desfilaram de medalha de bronze ao peito pelas ruas debaixo de merecidos aplausos. Esta mesma dupla tentou um novo sucesso olímpico quatro anos depois, em Sidney, mas não iria além do 16.º lugar na Classe Tornado. Nesta mesma classe Nuno Barreto repetiu o 16.º lugar nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, desta feita na companhia de Diogo Cayolla.

Vídeo: Reportagem da RTP em Atlanta após a conquista da medalha de bronze em vela

quinta-feira, 8 de julho de 2021

No berço das Olimpíadas Sérgio Paulinho sprintou para a prata

Foi em Atenas que em 1896 se escreveu o primeiro capítulo da história dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Mais de um século depois a capital grega foi novamente escolhida para sediar aquele que é indiscutivelmente um dos maiores acontecimentos do globo. Olimpíadas estas de boa memória para o desporto português já que um pouco contra os prognósticos o herói que iremos recordar nas próximas linhas conquistou mais uma medalha para o nosso medalheiro olímpico. Estávamos a 14 de agosto de 2004, apenas o segundo dia da XXVIII Olimpíada, e nas ruas de Atenas arrancava a prova de estrada em ciclismo. A equipa portuguesa, selecionada por José Poeira, era composta por quatro ciclistas, nomeadamente Cândido Barbosa, Nuno Ribeiro, Gonçalo Amorim e Sérgio Paulinho. Para tentar chegar a uma medalha o quarteto luso tinha pela frente um duro obstáculo 17 voltas ao circuito de 13,2 quilómetros desenhado no centro de Atenas, num total de 224 quilómetros. O dia era de muito calor, e o ciclista português em que estavam depositadas as maiores esperanças para atingir um bom resultado acaba por desistir. Pois é, Cândido Barbosa, conhecido como o "Foguete de Rebordosa", cedeu ao desgaste e acabou por sucumbir. Mas a grande surpresa acabaria por chegar por intermédio de um dos improváveis (candidatos a um bom resultado) atletas da seleção lusitana, Sérgio Paulinho, de apenas 24 anos, que no seu ainda curto currículo carregava a coroa de ser o então atual campeão nacional de contra-relógio e contar igualmente com um par de vitórias na Volta a Portugal. Ninguém esperava que o então inexperiente ciclista pudesse chegar tão longe como chegou naquela tórrida tarde de 4 de agosto. A três voltas do fim da corrida Paulinho - que defendia na época as cores LA Alumínios - começa a mostrar-se, ao chegar-se à frente para fazer companhia ao italiano Paolo Bettini, duas vezes campeão do mundo. Com os favoritos espanhóis já fora da discussão pelas medalhas, as duas últimas voltas foram decisivas. 15 anos mais tarde, numa entrevista ao Observador, Sérgio Paulinho lembra-se das últimas duas voltas, «que foram muito rápidas. Só eu consegui seguir o ataque do Bettini, e depois aguentei-me». Na roda do italiano, o português lembrou ainda que a chegar à meta «já vinha com cãibras, mas ainda assim tentei surpreender aquele que era o melhor do mundo em corridas de um dia. Era difícil batê-lo, mas a esperança era sempre a última a morrer». A poucos metros da meta Bettini sprintou para a medalha de ouro, para apenas um segundo depois Sérgio Paulinho cortar a meta e ser premiado com a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas, a primeira para o ciclismo português em Olimpíadas. Paulinho terminou a prova com o tempo de 5h41m45s. No terceiro lugar ficou o belga Axel Merckx, filho do mítico ciclista Eddy Merckx. Para sempre ficará na memória de todos o momento em que Sérgio Paulinho se baixou para receber a medalha de prata e depois recebeu a coroa de folhas de oliveira, histórica manifestação grega para condecorar os vencedores das diversas provas nos primeiros Jogos.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Como não há duas sem três, os cavaleiros portugueses foram a Londres (1948) arrecadar uma nova medalha de bronze olímpica

Luís Mena e Silva, tornou-se em 1948 
no primeiro português a vencer duas
medalhas olímpicas
Portugal guarda boas memórias dos Jogos Olímpicos de 1948, que tiverem como sede a cidade de Londres. Olimpíadas estas que registaram a presença da maior delegação olímpica de Portugal até então. A nação lusa fez-se representar por 47 atletas, competindo em sete modalidades, nomeadamente atletismo, esgrima, hipismo, natação, remo, tiro e vela. 

Estes Jogos ficaram para a posterioridade como aqueles em que Portugal alcançou o que até então nunca tinha sido conseguido por uma missão olímpica portuguesa, uma vez que o regresso a casa se fez com mais do que uma medalha na bagagem, mais concretamente uma medalha de prata na vela e outra de bronze no hipismo. Sobre a medalha conquistada na vela pelos irmãos Fernando e Duarte Bello, que foram segundos classificados na classe «Swallow», já aqui falámos noutras viagens ao passado, e nesse sentido vamos recordar o novo feito olímpico do hipismo português.

Hipismo que nunca é por demais recordar deu a primeira medalha olímpica a Portugal, uma efeméride que se deu nas Olimpíadas de 1924, em Paris, no caso uma medalha de bronze, ao que se seguiu uma outra medalha de bronze nos Jogos de Berlim, em 36, dois factos que também já aqui foram evocados no nosso Museu. Como diz o velho ditado: não há duas sem três e eis que em 1948 Portugal alcança uma nova medalha de bronze na prova de ensino por equipas, graças aos desempenhos individuais de Fernando Paes (9.º), Francisco Valadas Jr. (10.º) e Luís Mena e Silva (12.º). Este último tornou-se, aliás, o primeiro português a vencer duas medalhas olímpicas, uma vez que nos Jogos de Berlim de 1936 já tinha sido um dos medalhados no concurso de saltos por equipas, onde Portugal também fora 3.º classificado.

Porém, esta nova conquista lusitana não deixou de estar envolta em alguma polémica. Ou seja, Portugal havia-se classificado em 4.º lugar na referida prova de ensino, atrás da Suécia, França e Estados Unidos da América. A medalha de ouro começou pois por ser atribuída aos suecos, mas como dessa equipa fazia parte um sargento e à luz dos regulamentos internacionais não era permitido que os militares que integrassem as equipas nacionais não fossem oficiais, os nórdicos foram denunciados pelos franceses, tendo os suecos sido desclassificados. Conclusão, a França passava a ser campeã campeão olímpica desta modalidade, os norte-americanos ficavam com a prata e os portugueses subiam do quarto ao terceiro lugar, conquistando a medalha de bronze. Para a histórica ficam ainda os nomes dos cavalos montados pelos cavaleiros lusos nos Jogos de 48: Fernando Paes: Matamás; Francisco Valadas: Feitiço; Luís Mena e Silva: Fascinante.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Uma, duas... três medalhas olímpicas a bordo de um barco à vela

Rebello de Andrade e Fiúza
Noutras viagens ao passado do nosso desporto já aqui evocámos dois memoráveis capítulos da história da vela nacional no maior palco desportivo do planeta: os Jogos Olímpicos. Mas como diz o ditado "não há duas sem três" e hoje vamos viajar até 1952, ano em que Helsínquia acolhe as Olimpíadas. Portugal apresentava nesta edição a maior delegação de sempre até à data, com 73 atletas participantes, sendo que pela primeira vez a comitiva lusa era integrada por atletas femininas, numa época em que a Mocidade Portuguesa defendia que as mulheres não deviam praticar “desportos prejudiciais à missão natural das mulheres”. Dália Cunha, Natália Cunha e Lurdes Amorim foram os nomes que assim entraram na história. E uma das nove modalidades em que Portugal se fez representar na capital finlandesa foi a vela, modalidade que na época vivia tempos de glamour e glória, quer a nível nacional, quer a nível internacional.

1952 foi mesmo um ano memorável para a modalidade, visto que na Baía de Cascais Portugal havia sido 4.ª classificado no Campeonato do Mundo por intermédio da dupla composta por Francisco Fiúza e Francisco Rebello de Andrade. Esta dupla, porém, haveria de conquistar louros maiores tempos depois no maior e mais importante evento desportivo planetário, os Jogos Olímpicos. Para Joaquim Fiúza, esta era a terceira presença nas Olimpíadas, tendo feito a estreia em 1936, em Berlim, sendo que na altura não fez melhor do que o 10.º lugar na classe Star, tendo então como parceiro António Herédia.

No pós-guerra, o velejador integrou a comitiva portuguesa nos Jogos de 1948, em Londres, tendo feito dupla com Júlio Leite Gourinho e ficou em 6.º também na classe Star. A glória chegaria em 1952, ao lado de Rebello de Andrade, com quem ficou no terceiro lugar da prova da classe Star, a bordo do Espadarte - o nome da embarcação utilizada. Portugal ganhava assim a medalha de bronze, a sua segunda medalha na vela, depois de os irmãos Bello (Francisco e Duarte) terem conquistado a medalha de prata nos Jogos de 48 e de os também irmãos Quina, Mário e José Manuel, terem arrecadado a prata nos Jogos de Roma, em 1960, dois feitos que já aqui evocámos no nosso Museu.

Mas voltando a 1952, Portugal fica então em 3.º na classe Star, atrás da Itália (medalha de ouro) e dos Estados Unidos da América (medalha de prata). Esta prova ficou mítica pela batalha travada por italianos e norte-americanos na luta pelo ouro, um duelo intenso, tendo os Estados Unidos vencido as sete regatas que compunham a competição, embora no somatório a Itália tenham vencido pela regularidade. Em termos de pontuação os italianos arrecadaram o ouro com 7635 pontos, seguidos dos Estados Unidos da América com 7215 pontos e de Portugal com 4903 pontos

Na hora da sua morte, em março de 2010, Francisco Fiúza foi recordado pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal, Vicente Moura, como "um dos mais prestigiados velejadores portugueses de sempre, que todos respeitam e que nunca se afastou e nem deixou de se interessar pelas coisas do mar e da vela". Fiúza tinha um conhecimento como poucos sobre o mar. Em 1957 e 1958, concretizou um sonho de ser campeão da Europa e por nove vezes foi ainda campeão nacional. No seu dia a dia dividia-se entre a atividade vitivinícola e a vela, a sua grande paixão, tendo enquanto atleta, protagonizando participações vitoriosas nas mais variadas provas e países. Porém, a medalha de bronze conquistada em Helsínquia foi mesmo o seu momento de glória.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

José Bento Pessoa: a primeira grande estrela do desporto luso além fronteiras

Diz a história que o primeiro grande desportista português a brilhar além fronteiras fê-lo em cima de uma bicicleta. E fê-lo numa altura em que o desporto nacional era ainda uma criança, em que se começava a enraizar na cultura portuguesa.

Estávamos pois nos finais do século XIX quando um jovem oriundo da Figueira da Foz alcançou a glória internacional em cima da sua bicicleta, tornando-se assim num dos primeiros grandes ases do ciclismo planetário. José Bento Pessoa, o seu nome.

Nascido a 7 de março de 1874, na bonita cidade costeira da Figueira da Foz, como já vimos, era filho de um proprietário de uma sapataria e de uma doméstica, tendo passado a sua infância entre a Rua da Oliveira, onde residia, e a sapataria do seu progenitor. E foi precisamente para o estabelecimento de Ricardo Lourenço Pessoa - o pai - que José foi trabalhar assim que concluiu os estudos. Porém, o jovem figueirense estava longe de seguir o sonho do seu pai, que aspirava que José assumisse a batuta do negócio na loja de sapatos. Este estava mais inclinado para o desporto, ou não fosse ele um praticante nato de natação, remo, atletismo e até futebol, modalidade esta onde reza a história que foi um exímio guarda-redes. A certa altura a prática desportiva fez mossa no jovem José, que na sequência de uma queda fraturou um tornozelo. A conselho médico foi-lhe indicado então que praticasse ciclismo para curar as mazelas físicas. Mais do que a cura encontrou a sua grande vocação no desporto.

A 23 de fevereiro de 1894, em Coimbra, José Bento Pessoa realizou a sua primeira prova oficial, alinhando como júnior numa prova de 13 quilómetros onde acabou por ganhar a medalha de ouro. Tinha então 20 anos.

Um ano mais tarde ruma a Lisboa para trabalhar na loja de bicicletas de Manuel Beirão, representante da marca de bicicletas Brennabor. Na capital, José treinava de manhã e no resto do dia trabalhava na loja.

Em 1896 o jovem figueirense sofre um abalo com a morte do seu pai, decidindo deixar a loja de bicicletas em Lisboa para se tornar profissional de ciclismo, assinando contrato com a marca Raleigh, representada pela “Casa Esteves”. Filia-se então na União Velocipédica Espanhola, pois a União Velocipédica Portuguesa ainda não tinha sido criada, pelo que o ciclismo luso era então tutelado pelo organismo espanhol.

A 12 de abril de 1897, José Bento Pessoa alcança o primeiro grande título da sua carreira. Participando no primeiro campeonato de Espanha em ciclismo, em estrada, uma prova que tinha 100 quilómetros, com partida em Madrid, passagem por Ávila e regresso a Madrid, José entra para a história por ter cortado a meta em 1.º lugar e consequente por se ter tornado como o primeiro campeão de Espanha da modalidade. Nesta prova que ficou conhecida como os "100 quilómetros de Ávila", alinharam vinte ciclistas e o prémio atribuído era de 750 pesetas. Nesse mesmo ano de 1897 volta a fazer história. Em maio, na inauguração do Velódromo de Chamartin, Madrid, ganhou a prova internacional e bateu o recorde mundial dos 500 metros, que pertencia a Edmond Jacquelin, baixando o tempo de 34,6 para 33,2 segundos.

Em Espanha tornou-se um ídolo, pois em 68 corridas, venceu-as todas. Na última década do século XIX até sensivelmente 1905 correu em Espanha, França (Paris) Bélgica (Gand), Suíça (Genebra), Itália (Turim), Alemanha (Berlim) e Brasil (Pará), sendo que no país vizinho disputou provas em Vigo, Corunha, Sevilha, Bilbau, Salamanca, Ávila e Madrid. Perante tudo isto bem se pode dizer que o primeiro grande nome do ciclismo espanhol era... português.

Em Berlim, a 8 de maio de 1898, atingiu novamente o Olimpo dos Deuses ao vencer o Grande Prémio Zimmerman, então a prova velocipédica mais importante da Europa, em honra de Arthur Augustus Zimmerman, vencedor do Campeão do Mundo Willy Arend.

Apesar de a estrela de José Bento Pessoa brilhar longe, a Figueira da Foz nunca o esqueceu, sendo que as suas vitórias eram festejadas com pompa e circunstância ali no burgo, com manifestações ruidosas e festivas. E sempre que vinha à sua terra natal era recebido como um verdadeiro herói, e reza a história que muitas vezes ia da estação dos caminhos-de-ferro até casa em ombros.

José Bento Pessoa retirou-se de competição em 1905, depois de uma digressão pelo Brasil. Regressado a casa comprou um forno de cal e montou o Cal-Hidráulico do Mondego, Lda., tendo este sido o seu negócio até ao fim da vida, vindo a falecer em 7 de julho 1954, com 80 anos de idade.

Em sua memória a Câmara Municipal da Figueira da Foz batizou o estádio municipal local com o seu nome.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

No Vale da Morte (na Califórnia) o ultramaratonista Carlos Sá escreveu uma página dourada do desporto português

Este é daqueles feitos que merece figurar no livro dos recordes, desde logo pela extrema dificuldade que a si agrega. Um feito que roça a superação das forças humanas, atingindo o espírito da persistência e do sacrifício só possível de ser alcançado pelos super atletas. Hoje visitamos o épico triunfo de um atleta português numa das mais duras e seletivas provas mundiais de uma modalidade para homens (e mulheres) de "barba rija", como se costuma dizer na gíria sempre que pela frente temos um obstáculo dificílimo de superar. 

Sem mais demoras viajemos até Dead Valey (o Vale da Morte), nos Estados Unidos da América, onde desde 1987 se realiza a duríssima ultramaratona Badwater. E eis que na edição de 2013 a vitória sorriu a um português. Carlos Sá de seu nome, um nome que graças a este feito passou a ter o estatuto de lenda. Nascido na véspera do Natal de 1973 na freguesia de Vilar do Monte, no Concelho de Barcelos, Carlos Alberto Gomes de Sá percebeu aos 12 anos de idade que a corrida era uma paixão e desde pronto calcou as sapatilhas para começar a construir uma carreira notável. Munido de um espírito de sacrifício e aventureiro Carlos tornou-se num atleta de eleição. A aposta nos ultra trails dá-se por volta de 2008, altura em que se inicia nas ultramaratonas com a presença na Ultra Trail da Geira, prova com 45 km em que se classificou  em 2.º lugar e onde confirmou as suas qualidades como um atleta de grande resistência. A partir daqui os ultra trails foram uma constante na sua carreira, somando vitórias e posições de destaque em diversas provas nacionais e internacionais. 

Até que chegamos a 2013, ano em que o atleta luso decide participar naquela que é tida como a mais dura das ultramaratonas internacionais, a Badwater Ultramarathon, na Califórnia. Então com 39 anos, o atleta de Barcelos alcançou ali o maior feito de um atleta português em corridas extremas de longa distância, terminando em 1.º lugar uma prova com 217 quilómetros (percorridos numa única etapa) e que liga os pontos mais baixo e mais alto do território continental dos Estados Unidos da América. Até às 90 milhas da prova o atleta luso dividiu a liderança da prova que contou com 97 competidores de 22 nacionalidades diferentes, sendo que nos quilómetros seguintes Carlos Sá conseguiu isolar-se e chegar à subida final com uma vantagem que lhe permitiu fazer uma gestão da corrida, terminando assim a prova no 1.º lugar. A vitória em Badwater, no calor tórrido do deserto da Califórnia, consagrou-o como um dos melhores do Mundo nesta corrida dura e onde os índices de desistências são sempre elevados, ou não estivéssemos perante uma prova realizada sob extremas condições climatéricas – a região do deserto do Vale da Morte detém inclusivamente o recorde como o ponto mais quente da Terra (56,7 graus Celsius, no dia 10 de julho de 1913). 16 de julho de 2013 é assim um dia que fica gravado a letras de ouro na história de Carlos Sá e do desporto nacional. 

Vídeo: Reportagem da vitória de Carlos Sá em Dead Valley

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Quando o ABC esteve à porta do paraíso... mas não conseguiu lá entrar!


A História do desporto está repleta de vitórias morais, daqueles momentos em que estivemos muito perto de tocar o céu, de nos tornarmos imortais, mas que na realidade acabamos por morrer na praia. É verdade que para essa mesma História quase sempre, para não dizer sempre, o que interessa são os vencedores, são eles que daqui a 100 ou 500 anos vão ser lembrados como pertencentes ao Olimpo dos Deuses do Desporto, ao passo que dos vencidos ninguém se irá lembrar.

No entanto, há vencidos que merecem uma palavra de apreço, que pelo caminho que trilharam até às portas do paraíso merecem ser lembrados quase como se vencedores se tratassem. Isto para dizer que por vezes há vitórias morais que pelo que significaram são quase tão importantes como um qualquer título. Esta "teoria" leva-nos até um dos maiores feitos do andebol português no plano internacional, um feito que esteve muito perto de se tornar num conto de fadas.

Corria o ano de 1994 quando aquela que era então a melhor equipa do panorama andebolístico nacional alcançou a final da maior competição planetária de clubes, a então Taça dos Campeões Europeus (TCE). Um feito então - e ainda hoje - inimaginável alcançado pelo ABC de Braga.

Era uma equipa fantástica que tinha como trunfo um coletivo muito forte que raramente cometia erros e onde se destacava Viktor Tchikoulaev”, central de origem ucraniana que posteriormente se tornou internacional português e que seria o melhor marcador desta edição de 93/94 da TCE. A par deste craque outros nomes impunham respeito no combinado bracarense, casos do guarda-redes Paulo Morgado, de Konstantin Dolgov, de Vladimir Bolotskih, de Carlos Galambas, ou de Eduardo Filipe, este último que dois anos antes havia sido uma das pedras fundamentais na conquista do Campeonato da Europa por parte da seleção nacional de cadetes. Era uma super equipa esta a do ABC, mas que teve o azar de na final da maior prova do andebol planetário ao nível de clubes ter encontrado a melhor equipa do Mundo daquela altura, os espanhóis do TEKA Santander, que contavam com grandes nomes do andebol internacional, como o guarda-redes Mats Olsson, o pivô Jurij Nesterov, o lateral Mikail Yakimovich ou o central Talant Dujshebaev.

Para atingir a final o ABC foi 1.º classificado no seu grupo (na fase de grupos), o qual contava com as equipas do Nimes, do Sandjjord e do Badel Zagreb. Outro dos responsáveis pela ascensão do ABC no plano internacional foi sem dúvida o treinador Aleksander Donner, que é ainda hoje para muitos o grande responsável pela evolução do andebol em Portugal.

O ABC vendeu muito cara essa final com o TEKA de Santander, como aliás comprovam os resultados nas duas mãos do momento decisivo. Podemos dizer que a turma lusa esteve em grande nível e no final caiu de pé, como um verdadeiro campeão. Em Braga, na primeira mão, num Pavilhão Flávio Sá Leite repleto, registou-se um empate a 22 golos, e no jogo de volta, em Santander o TEKA venceu por 23-21. A grande estrela dos espanhóis, Talant Dujshebaev, e tido como o melhor andebolista do planeta de então, disse mesmo que chegou a ficar nervoso, e que a sua equipa acabou por ser bafejada por alguma ponta de sorte, dizendo mesmo que não seria espanto nenhum se o ABC tivesse sido campeão da Europa, pois «tem equipa para isso».

Para a história fica pois o título de... segunda melhor equipa do Mundo, como disse então o presidente do ABC, José Vieira.

Algumas imagens da final (das duas mãos) da TCE de 1994 entre o ABC e o TEKA