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terça-feira, 8 de abril de 2025

Há 20 anos Tiago Monteiro tornava-se no primeiro português a subir ao pódio da Fórmula 1


Considerá-lo o melhor português de todos os tempos pode ser uma opinião muito subjetiva, mas olhar para ele como o luso mais bem-sucedido no circo da Fórmula 1 é um facto inquestionável. A constatação deste mesmo facto deu-se há precisamente 20 anos no decorrer da 47.ª edição do Campeonato do Mundo de Fórmula 1. A temporada de 2005 do Grande Circo ficaria marcada pela estreia do quarto piloto português a competir no patamar mais alto do automobilismo internacional. Depois de Nicha Cabral, de Pedro Matos Chaves e de Pedro Lamy, era agora a vez de Tiago Monteiro guiar um bólide de Fórmula 1. Nascido a 24 de julho de 1976, no Porto, Tiago começou a competir nas quatro rodas ao volante do Porsche Carrera do seu pai, galgando posteriormente degraus na escadaria do automobilismo internacional, ao competir na Fórmula 3000, na Fórmula 3, nas 24 horas de Le Mans, ou na World Series da Nissan. Até que em 2005 chega à Fórmula 1 (F1) pela mão da escudaria Jordan Toyota onde viria a escrever história não só no automobilismo nacional como internacional. Comecemos pela histórica e até hoje inigualável marca nacional. Estávamos a 19 de junho de 2005. Corria-se a 8.ª prova do Mundial de Fórmula 1 desse ano. O mítico circuito de Indianápolis era palco do Grande Prémio dos Estados Unidos da América (EUA) e poucos pensariam que o estreante piloto português pudesse naquele dia entrar na história da modalidade ao pontuar. Nas corridas anteriores, Tiago Monteiro o melhor que tinha conseguido fazer foram dois 10.º lugares, nos grandes prémios do Barém e do Canadá. Porém, uma grande peripécia ensombrou o Grande Prémio (GP) dos EUA e que acabaria por estar na base para o sucesso do piloto português naquele dia. Na altura, havia dois fornecedores de pneus, a Michelin e a Bridgestone, sendo que os da primeira marca não aguentaram a força exercida na sua zona lateral quando passavam pela parte oval do circuito norte-americano. Este problema deu origem a inúmeros acidentes durante as sessões de treinos em todas as equipas que usavam pneus Michelin, nomeadamente a Renault, a BAR Honda, a Williams, a McLaren, a Sauber, a Red Bull e a Toyota. As várias reuniões entre estas escuderias e a referida marca de pneus não deram em nada, e seria a própria Michelin a aconselhar as equipas a não competir no GP por falta de condições de segurança. Conclusão: apenas seis carros – todos eles equipados com pneus Bridgestone – alinharam no GP dos EUA em representação das escudarias Ferrari, Jordan e Minardi. 

O que para muitos foi um verdadeiro escândalo, para outros, como Tiago Monteiro, foi uma oportunidade de ouro para pontuar e quiçá chegar ao último lugar do pódio. Sim, porque na teoria os dois primeiros lugares do pódio dificilmente escapariam aos Ferraris de Michael Schumacher e de Rubens Barrichello. Para além de Tiago Monteiro, esta caricata corrida foi disputada ainda pelo indiano Narain Karthikeyan (colega de equipa do piloto luso), pelo holandês Christian Albers e pelo austríaco Patrick Friesacher, ambos da Minardi. Largando da 17.ª posição, Tiago Monteiro logo se posicionou atrás de Michael Schumacher, com Rubens Barrichello na liderança. Com o decorrer da corrida, o alemão trocou de posição com o seu colega de equipa, acabando por cortar a meta em primeiro, seguido do piloto brasileiro. Tiago Monteiro manteve até final o 3.º posto, o que não só lhe garantiu os primeiros pontos na F1 mas acima de tudo um histórico pódio, algo que nenhum outro português havia conseguido até então. Recorde-se que Pedro Lamy tinha sido o primeiro piloto português a pontuar num GP de F1, o que havia acontecido em 1995, no GP da Austrália, em que foi 6.º classificado. Tiago Monteiro fez mais do que isso, mesmo em circunstâncias bizarras. 

A estrela do português iria brilhar ainda mais nesta temporada, ao tornar-se no melhor piloto estreante de sempre na F1 com três recordes batidos: o facto de ter terminado 18 das 19 corridas realizadas, o facto de se ter tornado no piloto com mais quilómetros percorridos numa só temporada (5521 km), e o facto de ter triplicado o máximo de seis provas consecutivas terminadas por um rockie (estreante). Nessa mesma temporada, Tiago Monteiro iria ainda pontuar em mais uma ocasião, ao concluir o GP da Bélgica no 8.º lugar.

Vídeo: Notícia televisiva do feito de Tiago Monteiro

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Primeira medalha olímpica do judo nacional festejada com uns passinhos de dança

No preciso dia em que arranca mais uma edição daquele que é tido como o maior evento desportivo do Mundo, os Jogos Olímpicos, o nosso Museu vai continuar a recordar os momentos de glória dos atletas lusos no palco olímpico. E hoje viajamos até Sydney, que em 2000 acolheu a XXVII Olimpíada. Portugal guarda boas memórias de Sydney, já que dali trouxe duas medalhas, uma no atletismo, por intermédio de Fernanda Ribeiro, e outra no judo, pela mão de Nuno Delgado. Ambas de bronze. É da de judo que hoje vamos falar. Em 2000 pela primeira vez o judo português subia a um pódio olímpico. Nuno Delgado (nascido em Lisboa, a 27 de agosto de 1976) foi o herói nacional ao vencer a medalha de bronze na categoria de -81kg depois de ter derrotado o uruguaio Álvaro Paseyro por "ippon". Para sempre na memória ficam os festejos do luso, com pulos e passos de dança a sua medalha, naquela que foi a sua estreia nos Jogos Olímpicos. O judoca que então representava o Sport Algés e Dafundo, com 24 anos, venceu quatro combates consecutivos, mas perdeu na meia final com o sul-coreano In-chu Cho por decisão do júri. Nuno Delgado iniciou a sua caminhada de glória com um triunfo sobre o monegasco Vatricant ("ippon" em 28s) e continuou com vitórias perante o italiano Lepre (decisão unânime dos juízes), o australiano Kelly ("ippon" em 3m19s) e o iraniano Sarikhani ("ippon" em 4m32s). Nas meias-finais, a derrota (por "yuko") frente ao coreano Choi afastou-o das medalhas de ouro e de prata, mas o bronze acabou por ser garantido com o triunfo sobre o uruguaio Paseyro ("ippon" em 3m56s). Nuno dedicou o seu triunfo ao judo nacional, explicando que a estratégia de ataque contínuo no combate para o bronze foi planeada antes de entrar no tapete e assumiu com desportivismo a derrota na meia-final: «O coreano já me tinha batido nos Mundiais, por isso estava ansioso por voltar a encontrá-lo. Só que ele esteve melhor e foi taticamente muito bom, tenho de lhe dar os parabéns. Eu vim aqui para ganhar os combates todos, mas há que assentar os pés no chão e aceitar que houve um adversário que me bateu e foi justo». Dos seis judocas portugueses presentes em Sydney, Nuno Delgado foi o único estreante nos Jogos Olímpicos, mas na bagagem levava para a Austrália o título de campeão europeu, conquistado no ano anterior. No pós Sydney foi ainda vice-campeão europeu em 2003, sendo que em 2004 ele foi o atleta escolhido como porta-estandarte da delegação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Atenas. Vinte anos mais tarde, e ainda sobre a mítica medalha olímpica conquistada em Sydney, Nuno Delgado disse que aquelas foram "emoções fortes, momentos de satisfação. De alguma maneira, sinto uma enorme satisfação por ter contribuído para o caminho que a modalidade trilhou, pois evoluiu e cresceu, ganhou muitas medalhas nas grandes competições. É um prazer e orgulho fazer parte dessa história».


Vídeo: Reportagem da RTP que mostra o momento de glória olímpica de Nuno Delgado

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Debaixo de chuva e trovões a vela portuguesa chega de novo a uma medalha olímpica

A seguir ao atletismo a vela é a modalidade que mais medalhas conferiu a Portugal no que a Jogos Olímpicos concerne. Depois de Londres (1948), Helsínquia (1952) e Roma (1960) uma nova glória olímpica deu à costa em Atlanta, no ano de 1996, ano em que esta cidade norte-americana foi sede da XXVI olimpíada. Doze anos depois os Estados Unidos da América voltavam a receber a família olímpica e nunca se venderam tantos bilhetes como então, no balanço final é registada a venda de 10 milhões de bilhetes! A missão portuguesa fez-se representar por 107 atletas, 83 homens e 24 mulheres, repartidos por 18 modalidades. Uma delas foi a vela, que nestes Jogos apresentava uma dupla que haveria de entrar na história do nosso desporto, nomeadamente Hugo Rocha e Nuno Barreto. O primeiro atleta, nascido a 13 de abril de 1972, em Lisboa, era um repetente em matéria de Jogos Olímpicos, já que quatro anos antes havia estado em Barcelona, não tendo ido além de um 24.º lugar na Classe 470 juntamente com o seu par de então, Jorge Seruca. Vela portuguesa que no palco olímpico não subia ao pódio desde a medalha de prata na classe Star, conquistada em 1960 pelos irmãos Quina.

Mas tudo mudou no dia 30 de julho de 1996, um dia tempestuoso, com relâmpagos e trovões a pairarem sobre o Centro Olímpico de Savanah, a cerca de 370 km de Atlanta, local onde decorreram as provas de vela. Concluída a 11.ª regata na Classe 470 Hugo Rocha e Nuno Barreto regressam à marina de Savanah com a medalha de bronze ao peito. Na partida para esta derradeira regata, o treinador da dupla portuguesa, Luís Rocha, que como curiosidade era irmão de Hugo Rocha, antevia que a dupla de velejadores sabia aguentar a pressão e quem sabe dessa forma poderia conquistar uma medalha. Portugal que era naquela altura 3.º colocado na classificação geral, a um ponto da Grã-Bretanha, depois de ter andado em 2.º lugar no final da 4.ª regata.  Hugo Rocha e Nuno Barreto (nascido a 29 de abril de 1972) provaram em Atlanta que eram os legítimos descendentes de uma longa dinastia de sucesso na vela portuguesa. Na classificação final a Ucrânia ficou com o ouro, a Grã-Bretanha com a prata e Portugal com o bronze. Chegados ao nosso país, foram recebidos como heróis, sobretudo em Faro, cidade familiar para ambos, já que tinha sido ali, ao serviço do Ginásio de Faro, que tinham dado nas vistas na modalidade. Na capital do Algarve desfilaram de medalha de bronze ao peito pelas ruas debaixo de merecidos aplausos. Esta mesma dupla tentou um novo sucesso olímpico quatro anos depois, em Sidney, mas não iria além do 16.º lugar na Classe Tornado. Nesta mesma classe Nuno Barreto repetiu o 16.º lugar nas Olimpíadas de Atenas, em 2004, desta feita na companhia de Diogo Cayolla.

Vídeo: Reportagem da RTP em Atlanta após a conquista da medalha de bronze em vela

quarta-feira, 7 de abril de 2021

No Vale da Morte (na Califórnia) o ultramaratonista Carlos Sá escreveu uma página dourada do desporto português

Este é daqueles feitos que merece figurar no livro dos recordes, desde logo pela extrema dificuldade que a si agrega. Um feito que roça a superação das forças humanas, atingindo o espírito da persistência e do sacrifício só possível de ser alcançado pelos super atletas. Hoje visitamos o épico triunfo de um atleta português numa das mais duras e seletivas provas mundiais de uma modalidade para homens (e mulheres) de "barba rija", como se costuma dizer na gíria sempre que pela frente temos um obstáculo dificílimo de superar. 

Sem mais demoras viajemos até Dead Valey (o Vale da Morte), nos Estados Unidos da América, onde desde 1987 se realiza a duríssima ultramaratona Badwater. E eis que na edição de 2013 a vitória sorriu a um português. Carlos Sá de seu nome, um nome que graças a este feito passou a ter o estatuto de lenda. Nascido na véspera do Natal de 1973 na freguesia de Vilar do Monte, no Concelho de Barcelos, Carlos Alberto Gomes de Sá percebeu aos 12 anos de idade que a corrida era uma paixão e desde pronto calcou as sapatilhas para começar a construir uma carreira notável. Munido de um espírito de sacrifício e aventureiro Carlos tornou-se num atleta de eleição. A aposta nos ultra trails dá-se por volta de 2008, altura em que se inicia nas ultramaratonas com a presença na Ultra Trail da Geira, prova com 45 km em que se classificou  em 2.º lugar e onde confirmou as suas qualidades como um atleta de grande resistência. A partir daqui os ultra trails foram uma constante na sua carreira, somando vitórias e posições de destaque em diversas provas nacionais e internacionais. 

Até que chegamos a 2013, ano em que o atleta luso decide participar naquela que é tida como a mais dura das ultramaratonas internacionais, a Badwater Ultramarathon, na Califórnia. Então com 39 anos, o atleta de Barcelos alcançou ali o maior feito de um atleta português em corridas extremas de longa distância, terminando em 1.º lugar uma prova com 217 quilómetros (percorridos numa única etapa) e que liga os pontos mais baixo e mais alto do território continental dos Estados Unidos da América. Até às 90 milhas da prova o atleta luso dividiu a liderança da prova que contou com 97 competidores de 22 nacionalidades diferentes, sendo que nos quilómetros seguintes Carlos Sá conseguiu isolar-se e chegar à subida final com uma vantagem que lhe permitiu fazer uma gestão da corrida, terminando assim a prova no 1.º lugar. A vitória em Badwater, no calor tórrido do deserto da Califórnia, consagrou-o como um dos melhores do Mundo nesta corrida dura e onde os índices de desistências são sempre elevados, ou não estivéssemos perante uma prova realizada sob extremas condições climatéricas – a região do deserto do Vale da Morte detém inclusivamente o recorde como o ponto mais quente da Terra (56,7 graus Celsius, no dia 10 de julho de 1913). 16 de julho de 2013 é assim um dia que fica gravado a letras de ouro na história de Carlos Sá e do desporto nacional. 

Vídeo: Reportagem da vitória de Carlos Sá em Dead Valley

terça-feira, 13 de outubro de 2020

O momento em que a geração dourada do ténis de mesa nacional tocou o céu!

Por muitos anos que alguém viva este é daqueles feitos desportivos que ficará perpetuado no tempo. É ademais uma façanha alcançada por aquela a que muitos chamam de geração de ouro de uma modalidade muito querida entre os portugueses. Um feito inédito que só por isto torna esta conquista num sonho que há 20 ou 30 anos atrás seria de impossível concretização ou não estivesse então Portugal a anos luz das maiores potências deste desporto. Sem mais demoras recuamos até 28 de setembro de 2014, dia em que pela primeira vez Portugal sagrou-se campeão da Europa de ténis de mesa por equipas, um feito alçando em Lisboa após derrotar uma das melhores seleções da modalidade, a Alemanha, hexacampeã europeia. E a histórica foi escrita por nomes que hoje são verdadeiras lendas do ténis de mesa nacional, jovens jogadores cujo talento foi moldado e colocado ao serviço do combinado nacional no Europeu que nesse ano decorreu no MeoArena, em Lisboa, e que juntou no nosso país a nata mesatenista continental. Marcos Freitas, Tiago Apolónia, João Monteiro, são nomes que ficarão pois para a eternidade na história do desporto nacional, pois graças à sua estupenda exibição a seleção nacional venceu por 3-1 a poderosa equipa alemã perante milhares de entusiastas adeptos que vibraram no MeoArena, incluindo o então primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho. Foram precisas mais de duas horas e meia de jogo (da final) para que a seleção nacional batesse a Alemanha, tendo a epopeia começado com Marcos Freitas, que venceu Steffen Mengel por 3-0. Para a mesa saltou em seguida João Monteiro, que seria derrotado por Timo Boll, por 3-2. A vantagem lusa na grande final do Europeu seria recuperada por Tiago Apolónia que bateu o então número um do ranking Dimitrij Ovtcharov, por 3-1. O inédito título português seria carimbado por Marcos Freitas, que vergou Timo Boll a uma derrota por 3-1. A MeoArena explodiu de alegria, Portugal era campeão Europeu. Até este dia, e por equipas, Portugal tinha como melhor resultado em Campeonatos da Europa uma medalha de bronze conquistada em Gdansk, em 2011, um 5.º lugar nos Jogos Olímpicos de Londres (2012) e a 5.ª posição no Mundial de Tóquio, em 2014.
No rescaldo desta épica e inesquecível conquista, e em declarações à imprensa, Marcos Freitas disse que «ser campeão da Europa pela primeira vez e em casa é um sonho. Era muito difícil, mas começámos o jogo bem e neste momento estou muito satisfeito. O fim foi muito rápido, nem me lembro do ponto. Sei que festejámos todos juntos».
Por sua vez, Tiago Apolónia referiu que «ganhar em Lisboa, contra a Alemanha, é o sonho de uma carreira. As mensagens, chamadas e todo o apoio recebido nos últimos dias foram decisivos. A vitória é para eles. (...) Nos últimos 15 anos, a Alemanha tem sido a grande potência europeia. Vivo lá há sete anos, perdemos muitas vezes contra eles. Isto é um sonho. O público foi fantástico, importantíssimo. Deram muita força. A vitória é de todos, de Portugal».
Já João Monteiro salientou que «muitas vezes é mais difícil estar a torcer por fora. Tentamos sempre apoiar e transmitir força aos nossos companheiros. O público é e sempre foi uma mais-valia para nós. A vitória também é deles. Fomos campeões da Europa e ainda por cima frente ao nosso público».
Eufórico estava igualmente o selecionador nacional, Pedro Rufino, para quem este foi o dia mais feliz da sua vida. «O pormenor fez toda a diferença. Eles merecem ser os atuais campeões da Europa. Penso que seleção portuguesa é muito temida em todo o Mundo e especialmente na Europa. Não foi por sermos campeões que nos vão olhar de outra maneira. A própria seleção alemã sabia que, embora favorita, Portugal tinha uma pequena hipótese, felizmente deu em título para Portugal. Estou muito, muito contente, feliz. É o dia mais feliz da minha vida desportiva».

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

2020: o ano em que Félix da Costa escreveu uma das páginas mais brilhantes da História do automobilismo português

Se não é o maior feito da História do automobilismo português é sem margem para dúvida um dos mais pomposos e dignos de serem perpetuados na memória de todos os apaixonados pelo desporto. Uma façanha que ainda segue perto na estrada do tempo, já que foi alcançada neste ano de 2020 por um prodígio do volante. António Félix da Costa, o seu nome. Nascido em Cascais a 31 de agosto de 1991 este Ás do Volante sagrou-se campeão do Mundo de Fórmula E (uma categoria de automobilismo organizada pela FIA com carros monopostos exclusivamente elétricos) ao serviço da equipa DS Techeetah. Félix da Costa garantiu o título a duas corridas do final da temporada, em Berlim, ao cortar a meta em logo atrás do vencedor, o seu colega de equipa Jean Eric Vergne. O piloto juntou-se à DS Techeetah em 2019 e um ano depois trazia para Portugal o maior título conquistado pelo automobilismo luso. Na época de 2019/20 da Fórmula E, o piloto conseguiu o seu primeiro pódio (consequência de um 2.º lugar) no Chile, ficando atrás Maximilian Günther. No grande prémio seguinte, no México, Félix da Costa arrebata um novo 2.º posto, sendo que a primeira vitória seria alcançada em Marrakesh. Após a paragem da temporada por força da pandemia de COVID-19, Félix da Costa teve uma reentrada em grande nas pistas, conquistado duas vitórias no Circuito Templehof de Berlim, ao que se seguiu o tal 2.º posto no mesmo traçado que selou o título mundial de pilotos e o campeonato de Construtores para DS Techeetah. Félix da Costa contabilizou um total de 158 pontos em todas as corridas disputadas, deixando bem longe o belga Stoffel Vandoorne, que com 87 pontos encerrou a temporada na segunda posição da classificação final.
O piloto cascalense juntou-se assim ao restrito lote de vencedores de uma competição que só conheceu o primeiro campeonato em 2014/15, tendo o brasileiro Nelson Piquet Jr. como o seu primeiro campeão; seguindo-se o suíço Sébastien Buèmi (2015/16); o brasileiro Lucas di Grassi (2016/17) e o francês  Jean Eirc Vergne (bi-campeão mundial em 2017/18 e 2018/19).
Num breve olhar pelo retrovisor da carreira de Félix da Costa, podemos constatar que tal como tantos outros pilotos iniciou-se nos kartings, com 9 anos de idade, onde era apelidado de "formiga" devido à sua baixa estatura física.
O seu talento traduziu-se de pronto em títulos, como comprovam a conquista do Campeonato Nacional e do Open Portugal, em 2002. Aos poucos, Portugal começa a tornar-se demasiado pequeno para o jovem prodígio das quatro rodas, e aos 15 anos sagrou-se vice-campeão da World Series Karting, para além de ter sido terceiro classificado no Open Master de Itália, uma das mais reconhecidas provas europeias da modalidade. Em 2007 assina contrato com o maior construtor de karts mundial, a Tony Kart.
Passou de seguida para a World Series by Renault 2.0, competindo neste troféu em 2008 e 2009, sendo que neste último ano alcançou o seu primeiro título de monolugares, no campeonato Norte Europeu.
2010 é um ano marcante na carreira do jovem piloto, já que concretizou o sonho da esmagadora maioria, se não de todos, os pilotos de monolugares, isto é, sentar-se ao volante de um carro de F1. Félix da Costa foi convidado para testar um Force India de F1, tornando-se, aos 19 anos, o português mais novo de sempre a conduzir um monolugar destes. Apesar de não ficar na F1 Félix da Costa não parou de acelerar rumo ao sucesso nas pistas, e em 2014/15 entra num novo campeonato de automobilismo, a Fórmula E, sendo que no ano de estreia venceu a sua terceira corrida, realizada em Buenos Aires, na Argentina. Cinco anos depois alcançou o que já se sabe, o Mundo! Por este feito, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou-o com a Ordem de Mérito.

Vídeo que mostra o percurso de Félix da Costa no automobilismo e que o levou ao título na Fórmula E

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Flashes Biográficos (15): Jorge Fonseca


Jorge Fonseca (Judo): Estamos perante um atleta cuja ascensão ao patamar dos Deuses do Desporto envolveu um misto de superação, coragem, sacrifício e ambição. A sua história é digna de um filme, um filme onde muitas lágrimas foram vertidas mas onde tudo acabou bem. Em glória, melhor dizendo.
Mas esta é uma história que ainda está a ser escrita por um homem em quem o judo português deposita muitas esperanças para o futuro imediato. O seu nome é Jorge Fonseca, e apresenta como cartão de visita o facto de ser o único homem que até aos dias de hoje deu à nação luso uma coroa mundial, o mesmo será dizer um título de campeão do Mundo de judo.
Jorge Ivayr Rodrigues da Fonseca nasceu a 30 de outubro de 1992, em S. Tomé e Príncipe e com 11 anos veio para Portugal. Deixou-se encantar pelo judo numa escola da Damaia, assistindo aos combates de Pedro Soares, que mais tarde seria seu treinador no Sporting. O bichinho pegou e Jorge deu início a um percurso árduo para ser o judoca de excelência que viria a tornar-se anos mais tarde.
2013 é o seu primeiro ano de glória, já que além da conquista do título nacional de sub-23 torna-se no primeiro judoca masculino português a sagrar-se campeão da Europa deste mesmo escalão. Mas a alegria trazida pela glória no tatami daria lugar dois anos depois à dor provocada pela doença. Em 2015 é diagnosticado a Jorge Fonseca um tumor numa das pernas. Contrariamente ao que muitos atletas fariam, Jorge não baixou os braços, enfrentou o combate mais difícil da sua vida e... saiu vencedor. Venceu o cancro. Durante a doença fez uma vida normal, treinou sempre com o objetivo de chegar mais longe na sua modalidade. Essa perseverança levou-o ao patamar mais almejado por qualquer atleta deste planeta, os Jogos Olímpicos. Em 2016, no Rio de Janeiro, Jorge Fonseca integrou a comitiva lusa nas primeiras Olimpíadas realizadas na América do Sul, tendo caído na segunda eliminatória da categoria -100 kg ante o checo e futuro campeão olímpico Lukáš Krpálek.
A bonança iria chegar três anos depois, quando o judoca luso atingiu o ponto mais alto (até agora) da sua carreira. Em Tóquio ele trouxe para Portugal o primeiro título mundial na categoria de -100 kg, após vencer o russo Niyaz Ilyasov na final e depois de ter ultrapassado diversos pesos pesados na corrida ao ouro, como o azeri Elmar Gasimov, o georgiano Liparteliani, o chileno Briceno, o indiano Avtar Singh e o irlandês Benjamin Fletcher.
«Senti-me o melhor judoca do mundo, trabalhei imenso para isto e é um momento muito grande na minha vida. [Ouvir o hino] é uma situação incrível, nunca o tinha ouvido em campeonatos do mundo. Espero voltar a ouvir muitas vezes», disse então à imprensa o judoca português após a conquista da primeira medalha de ouro para Portugal em Mundiais.
2019 foi mesmo um ano memorável para Fonseca, já que além do até então inédito título mundial arrecadou a medalha de prata nos Jogos Europeus disputados em Minsk. Na final (mista) a equipa lusa - composta por Bárbara Timo, Anri Egutidze, Rochele Nunes, Jorge Fonseca, Telma Monteiro e Jorge Fernandes - perdeu com a Rússia e ficou com a prata.
Também ao nível de clubes a estrela de Jorge Fonseca tem brilhado bem alto além fronteiras. Com o símbolo do Sporting Clube de Portugal ao peito o judoca é atualmente bi-campeão europeu, tendo o primeiro ceptro continental surgido em 2018, ano em que os leões - treinados pelo ex-judoca Pedro Soares - derrotaram numa final disputada em Bucareste a equipa russa do Yawara-Neva. Um ano mais tarde, e a atuar em casa, mais concretamente em Odivelas, o Sporting vence pelo segundo ano consecutivo o título europeu, ao voltar a derrotar os russos do Yawara Neva, por 3-2, numa reedição da final do ano anterior. Já em 2020 o infortúnio voltou a bater à porta de Jorge Fonseca, com o atleta a testar positivo à Covid-19. E mais uma vez, tal como na luta contra o cancro, o judoca voltou a vencer, superando com determinação a doença.

Vídeo que mostra a conquista da medalha de ouro por parte de Jorge Fonseca 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ENTREVISTA - José Garrido relembra o "dream team" do Sporting que conquistou para Portugal a primeira prova europeia de hóquei patins

José Garrido, com as cores do seu Sporting
Pode ir longe na estrada do tempo, mas jamais irá cair na berma do esquecimento, tal foi a sua importância não só para a história do hóquei em patins português, como do próprio desporto nacional. Falamos da épica caminhada da equipa do Sporting Clube de Portugal na edição de 1976/77 da então Taça dos Clubes Campeões Europeus - hoje denominada de Liga Europeia. Perdão, da equipa do Sporting não, do dream team (equipa de sonho) dos leões de Alvalade, daquela que nos dias de hoje é recordada como a equipa maravilha do hóquei patins... planetário! Não estaremos a exagerar, longe disso. Na realidade esta equipa transportou a modalidade para a dimensão do espetáculo, graças ao virtuosismo individual de jogadores como Sobrinho, Chana, Ramalhete, Júlio Rendeiro, ou o mestre dos mestres, António Livramento. Se de futebol estivéssemos a falar, diríamos que se tratou de uma equipa de galáticos, de autênticos magos do stick e dos patins. Além de interpretar o hóquei em patins com uma qualidade ímpar, aquela lendária equipa do Sporting conquistou um lugar na história por ter sido a primeira a trazer para solo português um troféu continental ao nível de clubes. Já lá vão 37 anos, mas não se esquece, jamais. E porque o Museu Virtual do Desporto Português tem por missão guardar para a eternidade os feitos - e os seus protagonistas - do desporto nacional, eis que recebemos hoje a visita de um ilustre membro da equipa maravilha do Sporting dessa inesquecível época de 76/77. José António Pereira Garrido, ou simplesmente, Garrido, fez, a nosso convite, uma viagem no tempo para recordar - ainda que em breves palavras - os dias de glórias vividos de leão ao peito, e muito em particular a caminhada triunfal na prova rainha do hóquei patinado europeu. O stick é seu Garrido. 

Museu Virtual do Desporto Português (MVDP): Como qualquer história também a do Garrido teve um início...
Garrido (G): ... Sim, a minha história começa quando eu tinha 9 anos de idade, altura em que na rua aprendi a equilibrar-me nos patins que o meu pai me tinha oferecido. Lembro-me que os usava presos a umas galochas (!). Como vivia em Benfica (nota: Garrido é natural de Lisboa, onde nasceu a 8 de janeiro de 1957) dirigi-me à secção de hóquei em patins do Clube Futebol Benfica, o popular Fófó, no sentido de ali, no clube do meu bairro, começar a praticar a modalidade um pouco mais a sério. Para minha grande desilusão fui recusado! Deram-me a justificação de pretenderem integrar miúdos com mais experiência...

MVDP: ... Mas não se deu por vencido logo à primeira...
G: ...Não. Aos 10 anos, acompanhado pelo meu pai, fui treinar ao Sporting, que era, e é, o meu clube. Fiquei, e comecei a treinar naquele mesmo dia. Recordo que o treinador era o Luís Barata, e após dois meses de treinos tornei-me jogador federado. Estive dois anos na equipa de iniciados, e depois de uma época como juvenil passei diretamente para a equipa de juniores. Em todos estes escalões ganhei títulos, quer distritais, quer nacionais. Aliás, foi enquanto atleta júnior que fui chamado à seleção nacional da categoria, tendo sido campeão europeu em dois anos seguidos, em 1975 e em 1976, sendo que o primeiro título foi alcançado em Darmstadt, na Alemanha. João de Brito era o selecionador nacional dessa altura. Um ano mais tarde voltei a ser campeão europeu, desta feita em Barcelos, com Luís Barata na qualidade de selecionador. Em 1977 subir a sénior, integrando aquela que já era a super equipa de hóquei patins daqueles anos.
A célebre equipa do Sporting que em 1977 conquistou de forma brilhante a Europa do hóquei em patins (Garrido é o primeiro jogador da fila de cima a contar da direita para a esquerda)
MVDP: Chegou ao patamar sénior precisamente na época em que o Sporting encantou o planeta do hóquei em patins com a conquista da Taça dos Campeões Europeus, a primeira eurotaça que viajou para Portugal, no que a hóquei patinado diz respeito. É caso para dizer que o Garrido não poderia ter tido melhor estreia no escalão sénior.
G: Sim, em 1977, no meu primeiro ano de sénior, integrei aquela super equipa que a nível nacional ganhou tudo o que havia para ganhar. Posso dizer que encontrei um ambiente fantástico naquele balneário. Tive o prazer de conviver com grandes hoquistas e sobretudo com grandes homens que me ajudaram a formar-me não só como jogador como também como ser humano. Como referiu na pergunta, este primeiro ano de sénior coincidiu com a conquista europeia, a primeira e única da minha carreira - ao nível de clubes - e sem dúvida o título mais saboroso que obtive. Recordo-me, em particular, da inesquecível chegada a Lisboa - no regresso de Espanha, após ter conquistado o título no rinque do Villanueva - onde uma multidão nos esperava.

O duelo na piscina do Voltregá
MVDP: Apesar de aquele Sporting ter uma equipa do outro mundo a caminhada para o título foi dura, como comprova a meia final diante do campeão da Europa em título, o Voltregá.
G: A primeira mão da meia final foi jogada em Espanha, ao ar livre, e à chuva! Nós propusemos jogar quando a chuva abrandasse ou então no dia seguinte, o que não foi aceite pela equipa da casa. A bola praticamente não rolava e nós ficavámos em zonas pontuais - do rinque - prevalecendo o passe.
Perdemos por 5-2. Em Lisboa vencemos por 8-3 diante de um pavilhão cheio. Na final jogámos a primeira mão em Lisboa, e recordo-me que não cabia um alfinete na Nave de Alvalade. Curiosamente, quatro horas antes do início do jogo toda a equipa foi lanchar a uma churrascaria que havia na zona do Campo Grande e o pavilhão já estava lotado! Vencemos por 6-0.
Em Espanha, na segunda mão, o Sporting fez-se acompanhar por muitos adeptos e voltámos a vencer, desta vez por 6-3, depois de entrarmos a perder por 0-2.
Nesse jogo, o Livramento, o Chana, e o Ramalhete fizeram um jogo brilhante, ao ponto de os próprios adeptos espanhóis nos aplaudirem de pé no final.

Garrido, na atualidade
MVDP: Por falar em António Livramento, o que recorda dessa lenda do hóquei em patins mundial?
G: Não existem palavras para descrever o António Livramento, o melhor jogador do Mundo de todos os tempos. Era acima de tudo um grande ser humano, e mesmo sabendo que era o melhor hoquista do planeta mantinha-se humilde, e sempre pronto para ajudar os colegas. Ainda em relação aquela grande equipa do Sporting não posso deixar de salientar dois outros grandes nomes do clube. O primeiro, o nosso treinador, o Torcato Ferreira, e o segundo um grande senhor, um grande presidente, o senhor João Rocha, que nos levou a alcançar todos esses feitos.

MDVP: Para terminar esta breve visita ao Museu Virtual do Desporto Português, continua ligado à modalidade?
G: Depois de sair do Sporting defendi as cores do Belenenses, Sesimbra, Sanjoanense, e o Campo de Ourique, onde dei por encerrada a minha carreira. Hoje, continuo a jogar ao nível de veteranos, só para matar saudades dos velhos tempos.

VÍDEO: VILlANUEVA - SPORTING (2ª mão da final da Taça dos Campeões Europeus de 1977)
                                     

terça-feira, 8 de julho de 2014

Nicolau e Trindade, os mestres na arte de pedalar que deram vida à rivalidade entre Benfica e Sporting

José Maria Nicolau (Benfica)
e Alfredo Trindade (Sporting)
Nasceu dentro de um campo de futebol mas foi graças ao ciclismo que atingiu a gigantesca dimensão patenteada nos dias de hoje. Esta é uma visão sustentada por muitos historiadores desportivos lusitanos, para quem a eterna, intensa, e apaixonante rivalidade entre Benfica e Sporting viu a luz do dia graças às corridas de bicicletas travadas nos princípios da década de 30 do século passado, muito por culpa de duas das maiores figuras do ciclismo nacional, Alfredo Trindade e José Maria Nicolau. Ambos naturais do Cartaxo eles edificaram nas estradas - quase medievais - do Portugal de então duelos intensos e apaixonantes, duelos que chegariam ao patamar do misticismo do desporto nacional, duelos que levaram os nomes de Benfica e Sporting aos cantos mais escondidos do país. Eles foram os heróis de uma época em que as grandes festas desportivas - ou os grandes eventos - eram quase um exclusivo das grandes cidades - Lisboa, Porto, ou Coimbra - deixando as pequenas povoações - sobretudo as do interior - órfãs da emoção e entusiasmo que o fenómeno desportivo emana. E aqui há pois que fazer uma vénia ao ciclismo, a modalidade responsável por levar a festa do desporto, as emoções do desporto, aos recantos mais longínquos daquele Portugal de início de século. A chegada de uma corrida velocipédica a uma qualquer aldeia ou vila do interior dava quase aso a honras de feriado municipal! O ciclismo galvanizava o povo, que apinhava as bermas das estradas por onde a caravana serpenteasse, na ânsia de ver os heróis do pedal. Nicolau e Trindade foram durante anos as personagens principais desta onda de entusiasmo, foram eles os responsáveis pelo crescimento - em termos de adeptos - de Benfica e Sporting um pouco por todo o território nacional, e na opinião de muitos a popularização - como hoje a conhecemos - do dérbi eterno a eles se deve.

O baixinho e franzino Trindade
e o gigante e robusto Nicolau
Mais do que rivais, mais do que astros na arte de pedalar, eles eram sobretudo amigos, grandes amigos. Nasceram, como vimos, no mesmo concelho, o Cartaxo, no ano de 1908, separados apenas por nove meses de diferença. Apesar de mais velho que o seu conterrâneo, Trindade (que nasceu no dia 3 de janeiro) abraçou o ciclismo depois de Nicolau (que veio ao Mundo a 15 de outubro). José Maria Nicolau iniciou a sua aventura velocipédia em 1928 - curiosamente um ano depois da ocorrência da primeira edição da Volta a Portugal - no Carcavelinhos, ao passo que Trindade começou a correr em 1931 na pequena coletividade lisboeta do União do Rio de Janeiro (com sede no Bairro Alto). Apesar de terem semelhanças ao nível de berço, de Bilhete de Identidade, e de terem sido ambos talentos natos na arte de pedalar, Trindade e Nicolau eram a antítese um do outro em termos de estrutura física. O primeiro era baixinho, franzino, ao passo que o segundo era alto, robusto, uma força da natureza. Nada que os impedisse, cada um à sua maneira, de escrever algumas das páginas mais deslumbrantes da história do ciclismo nacional, sobretudo na prova rainha do calendário velocipédico português, a Volta a Portugal.

Uma das muitas batalhas épicas travadas
entre os dois ciclistas com
as camisolas dos emblemas da capital
O primeiro duelo mítico entre os dois lendários corredores aconteceu na segunda edição da Volta, em 1931. Na altura, Nicolau vestia já a camisola do Benfica, clube para o qual havia entrado dois anos antes, ao passo que Trindade - como já vimos - fazia a sua estreia na alta roda do ciclismo nacional com as cores do União do Rio de Janeiro. Eles seriam os protagonistas de um pelotão composto por 29 corredores que no dia 6 de setembro desse ano partiu desde a Cova da Piedade até Setúbal numa tirada de 40km, a qual seria ganha pelo ciclista do Benfica. Ao longo da prova a robustez física e coragem infindável de Nicolau travou acesos e épicos duelos com a frágil mas batalhadora figura de Trindade, discutindo taco a taco a vitória na Volta até à última etapa, que ligou as Caldas da Rainha ao Estoril. Ali, a nação benfiquista entrou em delírio, graças à vitória final de Nicolau (vencedor de sete etapas nesta edição), que assim vencia a primeira Volta a Portugal da sua nobre carreira, com uma vantagem de 29 segundos sobre o amigo e rival Trindade - que seria segundo posicionado - na classificação geral.

Rivais, mas amigos, tanto na estrada
como na vida
Um ano depois deu-se a desforra, Trindade venceu a Volta. Ainda com as cores do clube do Bairro Alto o pequeno, mas endiabrado, ciclista levou a melhor sobre o seu eterno rival por apenas três segundos de diferença. 56 ciclistas voltaram a partir da Cova da Piedade rumo a Setúbal numa primeira etapa onde logo se viu que a discussão pela vitória final iria ser entre Trindade e Nicolau. Ao longo das 19 etapas o duelo entre ambos animou uma corrida que pela primeira vez ultrapassou as fronteiras do território nacional, ao efetuar uma passagem por Vigo, onde Alfredo Trindade conquistava uma das suas quatro vitórias de etapa alcançadas ao longo da Volta de 32. José Maria Nicolau ainda vestiu da amarelo até à sétima etapa, vindo a perder - até final - a camisola mais desejada da corrida para Trindade na tirada número oito, que ligou Elvas a Castelo Branco. Rezam as crónicas que o triunfo final de Trindade se ficou a dever ao azar extremo de Nicolau. Uma queda do ciclista do Benfica na etapa número nove, que ligou Castelo Branco a Viseu, fê-lo perder terreno para o corredor do União do Rio de Janeiro, que concluiu essa tirada com 17 minutos de vantagem sobre o seu conterrâneo. Porém, a garra e determinação de Nicolau viriam ao de cima nas etapas seguintes, tendo o corredor recuperado algum tempo no decorrer da prova, fruto de algumas vitórias em etapas (conquistou 11 triunfos nas 19 etapas da Volta de 32). Porém, e como diz o velho ditado, um azar nunca vem só, e na etapa final (que ligou o Bombarral a Lisboa), com a Volta ao rubro no que toca à incógnita quanto ao seu vencedor, uma nova queda de José Maria Nicolau desfez as dúvidas quanto ao campeão, e mesmo ganhando essa derradeira etapa o corredor do Benfica não conseguiu anular os três segundos de desvantagem em relação a Alfredo Trindade, que assim vencia a primeira Volta a Portugal da sua carreira.

Nicolau e Trindade posam
para a fotografia junto de uma
das grandes divas do cinema
lusitano: Beatriz Costa
Já com a camisola do Sporting como manto sagrado Alfredo Trindade tornou-se - no ano seguinte - no primeiro ciclista a bisar naquela que era já a prova rainha do ciclismo português. A Volta de 1933 foi talvez aquela em que a luta acérrima entre os dois ciclistas menos se fez notar, já que logo na segunda etapa - que ligou Lisboa a Santarém - Nicolau adoeceu e foi forçado a desistir, estendendo desta forma a passadeira ao pequeno corredor do Sporting (vencedor de oito etapas nesta edição), o qual iria terminar a prova no primeiro posto com uma vantagem abismal de 44 minutos (!) sobre o segundo colocado, o seu companheiro de equipa Ezequiel Lino.
Na Volta do ano seguinte os papéis inverteram-se, ou seja, o azar bateu à porta de Trindade, forçado a abandonar a corrida na terceira etapa (Faro-Évora) após uma aparatosa queda que o iria levar ao hospital. Sem adversários capazes de travar a sua genialidade, Nicolau ficou à vontade para conquistar a sua segunda Volta a Portugal, terminando a última etapa com uma vantagem de 18 minutos na classificação geral sobre o sportinguista Ezequiel Lino.
Este seria o derradeiro capítulo da mítica dupla no seio da Volta a Portugal, embora na edição de 1935 tivessem ambos integrado o pelotão na partida da Cova da Piedade, acabando os dois por desistir no decorrer da prova. Contudo, a empolgante fábula de Trindade e Nicolau não se resumiu à prova rainha do ciclismo luso, muito pelo contrário. Clássicas como Porto-Lisboa, Porto-Vigo, ou Lisboa-Coimbra, testemunharam emocionantes capítulos da génese do fervoroso dérbi Benfica-Sporting.
Abandonaram ambos as lides do ciclismo - enquanto praticantes - no final da década de 30, tendo ambos enverdado posteriormente pela carreira de treinadores. Facto curioso é que o leão Trindade era o treinador do Benfica quando o maior mito da história do clube - no que concerne a ciclismo - faleceu na sequência de um acidente de viação, em agosto de 1969. Oito anos mais tarde foi a vez de Trindade pedalar rumo à eternidade, onde por certo continua a travar apaixonantes duelos com o seu amigo Nicolau.

Vídeo: EXCERTO DO DOCUMENTÁRIO: 
ALFREDO TRINDADE VS JOSÉ MARIA NICOLAU

quinta-feira, 28 de março de 2013

O "doutor" das damas lusitanas

Modalidade de cariz intlectual, o jogo das damas tem - em Portugal - atraído a si um elevado número de praticantes, que nas décadas mais recentes colocaram este jogo de tabuleiro em altos patamares de popularidade. Têm sido pois muitas as competições ocorridas em solo lusitano, onde largas dezenas de jogadores vindos dos quatro cantos do país travam entre si emocionantes e intensos duelos, mas um desses damistas tem-se destacado entre os demais.  
No mundo das damas é tratado por “doutor”, uma designação que o próprio desconhece a razão de existir, mas que ao olharmos de relance para o seu rico e extenso palmarés se fica facilmente a perceber o porquê da atribuição de um título tão pomposo. Vaz Vieira, ou melhor, “doutor” Vaz Vieira, assim é que é, considerado de forma unânime no “planeta” das damas como o melhor jogador português de todos os tempos. Com ele cruzei-me há tempos num dos muitos opens que já leva na sua longa e gloriosa carreira, e numa breve troca de palavras pude ficar a conhecer ao pormenor o historial desta lenda - já ganhou por direito próprio esse estatuto - nascida há 69 anos (no ano de 1943) em Guimarães, mas que de há umas décadas a esta parte faz de Coimbra o seu lar. 

No desfiar da nossa conversa recordou o passado, o seu passado glorioso ao serviço de uma modalidade pela qual se apaixonou ainda menino, numa altura em que os lares portugueses estavam ainda despidos das novas tecnologias – com a televisão e os computadores à cabeça – e como tal os serões em família eram passados com a saudável e alegre disputa de jogos tradicionais, como o rami, o abafa, o xadrez, ou as damas. A modalidade que o tornou célebre foi-lhe apresentada pelo pai, também eles um grande jogador, o pai que o fazia chorar sempre que o vencia, e logo depois o espicaçava com o seu triunfo. Mas como em tudo na vida Vaz Vieira é uma pessoa persistente, foi aprimorando a sua técnica mental de jogo, e chegou a uma altura em que o próprio progenitor já não o vencia. 

Ainda deambulando pelo passado viajou até Moçambique, onde viveu grande parte da infância, junto dos seus pais, e onde vivenciou outra paixão desportiva, o futebol. Ao serviço do Benfica de Lourenço Marques foi mesmo campeão provincial, tendo mais tarde aquando da sua vinda para a metrópole integrado a equipa de juvenis da Académica de Coimbra, onde foi treinado pelo lendário mestre José Maria Pedroto. Por Coimbra ficou. Estudou na mítica universidade da cidade do Mondego, a mesma universidade onde desenvolveu a sua carreira de docente, e orientador de estágios. Em Coimbra casou, sem nunca esquecer a paixão de infância pelas damas, aliada à paixão entretanto travada com a Briosa.

Nas damas tornou-se então o campeão dos campeões. Ao longo de décadas somou títulos atrás de títulos. 
Venceu 10 campeonatos nacionais seguidos, ao que se seguiu uma paragem de outra dezena de anos por motivos de saúde, e quando voltou novamente à ação foi de novo campeão! Detém um impressionante registo - até à data - de 86 vitórias em opens nacionais, número que nenhum outro damista se atreveu sequer a ameaçar. 
No plano associativo foi um dos fundadores da Federação Portuguesa de Damas, em 1980, onde hoje assume a função de presidente da mesa da Assembleia Geral. Do seu currículo constam ainda dois pomposos títulos de campeão do Mundo de damas clássicas, e muitos outros títulos conquistados em épocas em que a federação ainda não havia visto a luz do dia.

Impressionante, de facto. O segredo deste sucesso? Responde que é o trabalho, aliado ao gosto pela modalidade, de jogar somente pelo prazer, pelo prazer de jogar e não jogar pelo prazer de ganhar. 
Para si as damas são um desporto de grande beleza, nas suas palavras poucos jogos haverão com a beleza deste, capaz de proporcionar combinações fantásticas, um jogo onde se podem construir problemas com muito poucas peças, e problemas com muitas pedras e com dificuldade extrema. 
O fim da carreira ainda bem longe, pois continua enamorado por este jogo, deixando os títulos e as vitórias de lado, até porque há muito que já não é isso que o motiva a continuar.

Vídeo: Mestre Vaz Vieira durante um jogo 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O pai do surf português

Geograficamente presenteado com mais de 1200 km de costa marítima, Portugal cedo tirou proveito desta riqueza natural para se evidenciar nas modalidades desportivas praticadas em alto mar, com realce para a vela, sendo que nunca é por demais recordar que em 1856 foi fundado pelo rei D. Pedro V o primeiro clube da Península Ibérica dedicado às regatas. Vela que com o passar dos anos haveria de tornar-se - como temos vindo a fazer eco em anteriores visitas ao Museu Virtual do Desporto Português - num autêntico alfobre de campeões... campeões da Europa, do Mundo, e Olímpicos!
Mas nem só para a prática de vela o extenso mar lusitano tem sido aproveitado. Outra modalidade bem popular em terras lusas é o surf, um desporto - radical - de enorme espetacularidade onde Portugal tem colecionado alguns brilharetes, não tantos como na vela, é certo, mas que enche naturalmente de orgulho esta nação à beira mal plantada. E a história do surf português cruza-se inevitavelmente com a de Pedro Martins de Lima, um homem que muitos consideram o pai do surf português.

Oriundo de uma família de cavaleiros Pedro Martins de Lima veio ao Mundo a 14 de setembro de 1930, não sendo de estranhar que os seus primeiros passos no desporto tivessem sido dados no hipismo, modalidade que começou a praticar com apenas 6 anos de idade. Não muito tempo mais tarde deixou-se encantar pelos fascínios do mar, interessando-se pela vela, e pela pesca submarina, última modalidade esta que entretanto começa a praticar. No limiar da primeira metade do século XX descobre então uma das paixões da sua vida, o surf. Estavamos em 1946, uma época em que a modalidade de origens havaianas era totalmente, sim, é verdade (!), desconhecida num Portugal que durante séculos e séculos viu nascer centenas de aventureiros do mar. Face à inexistência de material essencial à prática da modalidade em Portugal, Martins de Lima iniciou o seu legado de rei dos mares lusitanos com a prática de bodyboard, usando para o efeito uma prancha rudimentar e umas barbatanas que um amigo lhe trouxera do estrangeiro.

Até que em 1959 consegue finalmente adquirir uma prancha de surf, para posteriormente se lançar ao mar. Sem companhia nesta aventura ele cimentou no nosso país uma modalidade que hoje em dia agrega em si milhares de praticantes. Mas nem sempre foi assim. No início Pedro Martins de Lima recorda - em inúmeras entrevistas dadas nos tempos mais recentes - que «naquele tempo era preciso ter coragem para surfar ondas grandes, mas também para enfrentar as consequências. Cheguei a ser preso por entrar no mar revolto. Os cabos-de-mar prendiam-me, mas os banheiros intercediam a meu favor porque já tinha salvo muita gente no mar. Era um país de marinheiros que não sabiam nadar»!!!
A bravura e insistência do surfista furou inúmeras ondas de resistência, e se o surf é hoje em dia uma das modalidades mais praticadas em Portugal a ele o deve, ao pai do surf nacional.

Vídeo: REPORTAGEM COM PEDRO MARTINS DE LIMA 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

"Cheira bem... cheira a Lisboa!»

"Cheira bem... cheira a Lisboa", popular canção alfacinha entoada habitualmente nas marchas populares de Santo António que dão um colorido diferente à capital portuguesa todos os anos durante o mês de junho foi igualmente interpretada durante anos a fio nos pavilhões lusitanos onde atuava aquele que é considerado por muitos como o maior basquetebolista português de todos os tempos: Carlos Lisboa. "Cheira bem... cheira a Lisboa" era pois uma espécie de tributo a um homem que após a sua entrada em cena catapultou o basket lusitano para níveis nunca dantes alcançados, níveis não só de espetacularidade mas sobretudo de interpretação técnico-tática de uma modalidade cujo número de entusiastas e praticantes em Portugal aumentou, e de que maneira, após a sua chegada às quadras.

Carlos Humberto Lehmann de Almeida Benholiel Lisboa Santos, de seu nome completo, nasceu a 23 de julho de 1958 na Cidade da Praia, em Cabo Verde, na época colónia portuguesa, tendo aos três anos de idade mudado para outra das colónias africanas que por aqueles dias estavam sob a tutela de Portugal, neste caso Moçambique. Ali, o jovem Carlos travou conhecimento com aquela que viria a ser uma das grandes paixões da sua vida, o basquetebol. Reza a lenda que enquanto criança dormia com uma bola de basquetebol debaixo da sua cama, sendo que todos os dias a primeira ação que fazia assim que acordava era pegar no referido esférico e batê-lo no chão do seu quarto.
Iniciou a sua carreira desportiva no Sporting de Lourenço Marques, onde alinhou nos escalões de iniciados e juvenis. Até que em finais de 1974, após a independência das colónias lusas em África, Carlos Lisboa chega a Portugal (continental) na companhia dos seus familiares, onde prossegue o seu sonho nos juvenis do Benfica, clube onde anos mais tarde haveria de se tornar numa lenda, mas que nesta primeira passagem não permaneceu mais do que uma temporada, deixando o emblema encarnado com algum descontentamento por alegadamente ser pouco utilizado.
Mudou de clube mas não de cidade, permanecendo em Lisboa, mudando-se de armas e bagagens para o grande rival dos benfiquistas, o Sporting. Uma decisão muito influenciada por Mário Albuquerque, na época treinador da equipa de juniores leonina, e além do mais grande ídolo de infância do jovem Carlos Lisboa. Sem demoras os responsáveis sportinguistas reconheceram o enorme talento de Lisboa, não sendo de estranhar que ainda com idade de júnior (18 anos) fizesse a sua estreia no combinado sénior do Sporting! Na primeira temporada (76/77) de leão ao peito na elite do basket português Lisboa não venceu qualquer título, mas mostrou os atributos que viriam a fazer dele a maior estrela de todos os tempos desta modalidade em Portugal: rapidez, técnica, e um poder notável de concretização (em especial atrás da linha dos três pontos).

Os primeiros rugidos do leão Carlos

Na época seguinte não só confirmou a sua mestria como venceu os seus primeiros títulos oficiais de leão ao peito. Foi uma das peças fundamentais na conquista da dobradinha de 77/78, isto é, vitória no campeonato nacional e na Taça de Portugal, e ainda mais fundamental viria a ser nos anos seguintes, tornando-se desde logo na grande estrela do basquetebol do Sporting. Voltaria a vencer o título máximo do basket lusitano (o campeonato nacional) ao serviço do clube de Alvalade em mais duas ocasiões, 80/81, e 81/82, assim como uma segunda Taça de Portugal (em 79/80). Este seria sem dúvida o período áureo do basquetebol do Sporting, e muito devido ao contributo de Carlos Lisboa, a quem a Direção dos leões atribuíra em 1981 o Prémio Stromp, o mais alto galardão para atletas de alta competição dentro do clube.

Após este período dourado o base (a posição onde atuava preferencialmente) viu-se obrigado a mudar de ares, face à decisão do Sporting terminar com a sua secção de basquetebol, que tanta glória havia trazido ao clube durante a década de 80!

O já célebre atleta continuou então na Grande Área Metropolitana de Lisboa, optando pelo Queluz para dar continuidade à sua já brilhante carreira, tendo na altura recusado ofertas de clubes de outra dimensão, caso do FC Porto. E no clube do Concelho de Sintra a estreia não poderia ter sido melhor. Por si comandado o pequeno emblema sintrense arrecadou em 82/83 o primeiro título da sua história, a Taça de Portugal, após uma vitória épica - e renhida - na final ante o colosso Benfica por 86-85. Mas o melhor ainda estava para vir. Melhor do que nunca Carlos Lisboa conduziria na temporada seguinte o Queluz a nova coroa de glória, desta feita o título de campeão nacional. Notável.

Rei no Benfica com o sonho da NBA ali tão perto

Ter Lisboa era mais do que ter aquele que na altura era já indiscutivelmente o melhor basquetebolista nacional, era ter a oportunidade de conquistar títulos. E foi em busca de títulos que no verão de 1984 o Benfica fez de tudo para que Carlos Lisboa voltasse a vestir de encarnado. Uma batalha que seria vencida, e traduzida em êxitos imediatos na primeira temporada do basquetebolista ao serviço da equipa principal da Luz, quando venceu o ceptro de campeão nacional 84/85. A estrela de Lisboa brilhava a grande altura, e não terá sido de estranhar que em meados de 1985 tivesse estado muito perto de concretizar o sonho de qualquer basquetebolista à face da terra: jogar na NBA norte-americana, a maior liga do Mundo!

Ao longo de centenas de entrevistas dadas Lisboa recordou na primeira pessoa o momento em que esse sonho nasceu... e morreu logo de seguida: «Um dia recebi uma carta de um treinador norte-americano a manifestar interesse no meu concurso para um projeto de uma equipa que iria entrar na NBA. Na altura, falava-se da introdução de novas ‘franchises’ na Liga. Contudo, por razões que desconheço, o projeto não foi para a frente e o tal alargamento só veio a realizar-se anos mais tarde, com a entrada das equipas de Toronto e Vancouver». Nâo foi para a NBA, é certo, mas continuou por mais uma série de anos a fazer magia nos pavilhões portugueses e internacionais com as cores do Benfica. Dentro de portas ajudou os lisboetas a vencerem um total de 10 campeonatos nacionais (!), sendo sete deles de forma consecutiva - entre 1988 e 1995 -, bem como cinco Taças de Portugal, seis Taças da Liga, e cinco Supertaças! Palmarés impressionante.

Durante a década de 90 Lisboa fez do Benfica a melhor equipa de todos os tempos do basquetebol português, um autêntico dream team (equipa de sonho), onde era secundado por estrelas como Pedro Miguel, Henrique Vieira, Carlos Seixas, Steve Rocha, Mike Plowden, ou Jean Jacques. Ver aquele Benfica a jogar era ver não só o melhor basket que se jogava em Portugal como um dos melhores de toda a Europa, e a prova disso é que em diversas épocas o Benfica ombreou de igual para igual, sim, de igual para igual, com algumas das melhores equipas europeias de então, casos do Real Madrid, Partizan, Panathinaikos, Maccabi Tel-Aviv, Juventud Badalona, entre muitas outras que passaram pela Luz em épicos e memoráveis confrontos a contrar para a desaparecida Taça dos Campeões Europeus (mais tarde rebatizada como Euroliga). Nesses jogos europeus Carlos Lisboa como se transfigurava, levava o seu talento aos extremos, e consequentemente o público afeto ao seu clube ao delírio, em especial quando "aplicava" os seus quase infalíveis "tiros" de três pontos. Ao serviço da seleção nacional esteve em 103 encontros (43 dos quais pela equipa principal).

Colocou com ponto final na sua lendária carreira em 1996, mas sem dizer adeus à modalidade que o havia tornado célebre e que ele também havia tornado popular em terras lusitanas. Abraçou a carreira de treinador, primeiro no Estoril Basket, onde esteve durante uma temporada, até que em 96/97 volta ao seu Benfica para tentar, agora como treinador, repetir os êxitos alcançados não muitos anos antes. Não foi tão feliz, é certo, nos três anos em que ali ficou, acabando posteriormente por ingressar no Aveiro Basket em 2001, emblema nortenho que representou até 2004. E foi então que mais uma vez não resistiu aos apelos do coração, voltando de novo ao Benfica, desta feita para desempenhar as funções de diretor desportivo das modalidades ditas "amadoras".

Em 2011/12 foi desafiado a voltar ao terreno de jogo, isto é, treinar a principal equipa benfiquista no assalto a um título nacional que fugia já há longos anos para o rival FC Porto. E no regresso ao banco de treinador Lisboa não poderia ter sido mais feliz, já que viria a conduzir os lisboetas ao título de campeão nacional, conquistado no derradeiro jogo da final em pleno reduto do... FC Porto! Conquista memorável e saborosa, sem dúvida, para um homem que depois do futebolista Eusébio da Silva Ferreira é considerado como a grande figura do Sport Lisboa e Benfica. De tal modo que após o seu abandono enquanto atleta o Benfica decidiu retirar a mágica camisola número 7 da sua equipa de basquetebol, pendurando-a no teto do pavilhão, em sinal de homenagem perpétua ao "senhor basquetebol português".

Vídeo: Alguns lances de Carlos Lisboa

Legenda das fotografias:
1-Carlos Lisboa
2-Defendendo o Sporting
3-Atuando pelo Benfica 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Francisco Lázaro: o louco herói lusitano...

Assinala-se neste ano de 2012 o centenário da morte de um homem cuja personalidade era composta por uma mescla de loucura e heroísmo. Uma figura cuja bravura e paixão desafiaram as leis da vida, tornando-o num dos primeiros ídolos do desporto lusitano. Francisco Lázaro, o seu nome, o homem que morreu a correr a maratona, como ainda hoje é recordado nos caminhos da história desportiva portuguesa, o homem que encarava o desporto como uma questão de vida (triunfo) ou de morte (derrota).

Nasceu no bairro de Benfica, em Lisboa, a 21 de janeiro do longínquo ano de 1888, e seria nos princípios do século XX que haveria de ver o seu nome ascender ao patamar das lendas na sequência do seu natural e ímpar talento - até então nunca visto - para as corridas de fundo. Lázaro saltou para a ribalta em 1908, um ano tumultuoso para Portugal, ano em que o rei D. Carlos - um profundo amante das atividades desportivas - e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados em pleno Terreiro do Paço (Lisboa) pelos "defensores" do republicanismo.

Mas para Francisco Lázaro, um rapaz de origens pobres, carpinteiro de profissão, 1908 foi o ano do arranque de uma curta mas gloriosa carreira enquanto maratonista. O jornal Tiro e Sport organizava a primeira maratona portuguesa, uma corrida de 24 km que seria ganha de forma sensacional - e arrasadora - por Lázaro, que deixou a concorrência a léguas de distância! Motivos de doença afastaram-no da prova de 1909, mas no ano seguinte haveria de voltar e provar que o triunfo de 1908 não fora obra do acaso. Em 1910 a organização alargava a maratona para 42 km, uma meta impossível de alcançar para um ser humano, diziam as vozes da época. Mas não para Francisco Lázaro, que treinava diariamente entre Benfica, onde morava, e a Travessa dos Fiéis de Deus no Bairro Alto, onde exercia a sua atividade profissional. Mais uma vez de forma magistral venceu a maratona, com o tempo de 2h57m35s, deixando o segundo classificado a mais de 15 minutos de distância! Como não há duas sem três em 1911 vence de novo a maratona portuguesa, desta feita com o registo de 3h09m57s, e por esta altura o seu nome era já enaltecido nos quatro cantos de Portugal. Já com as cores do Lisboa Sporting Clube, emblema que o acolheu após a saída do Sport Lisboa e Benfica, voltou a criar espanto e admiração na multidão que o idolatrava por aqueles dias, ao vencer a maratona lusitana de 1912 com um tempo recorde de 2h52m08s (!!!), um registo notável que desde logo fazia dele um forte candidato a vencer a maratona dos Jogos Olímpicos, que nesse ano teriam lugar em Estocolmo.

As esperanças lusas no sucesso de Lázaro eram bem reais, atendendo ao facto de que o fundista lisboeta havia gasto 2h52m08s para percorrer uma distância de 42,2km enquanto que o último campeão olímpico da maratona, o norte-americano John Hayes, havia registado nos Jogos de Londres - quatro anos antes - o tempo de 2h55m18s a percorrer uma distância de 42,196km! Números que deixavam o sonho de Lázaro tão perto da realidade.

Corrida para a morte

Em Estocolmo Portugal fez a sua primeira aparição olímpica. A delegação lusa foi composta por Fernando Correia (esgrima), Joaquim Vital, António Pereira (ambos atletas de luta), António Cortesão, António Stromp, e Francisco Lázaro, estes três últimos ligados ao atletismo. Por tudo o que havia construído até ali as esperanças na conquista de uma medalha estavam, como já vimos, todas depositadas no humilde carpinteiro de Benfica, cuja prova de fogo estava marcada para o dia 14 de julho, o grande dia, o dia da maratona.

O país esperava impaciente a estreia do ilustre atleta, que sabendo das elevadas espectativas dos seus conterrâneos encarou a maratona olímpica como uma questão de... vida ou de morte. Fisicamente Lázaro estava bem, segundo relatos da época almoçou por volta das 10h00, e apresentava um espírito para lá de confiante num bom resultado, o mesmo é dizer, ganhar. Foi levado em seguida, de automóvel, para o estádio olímpico, que era beijado por um calor sufocante, com o termómetro a marcar 32º à sombra!

Os maratonistas faziam o seu aquecimento na pista, todos menos... Francisco Lázaro! Armando Cortesão e Fernando Correia, membros da comitiva portuguesa, estranharam a ausência do fundista, tendo minutos depois encontrado Lázaro ainda no balneário a untar o corpo com... sebo! Questionado porque o fazia o atleta respondeu que era para evitar a perda de líquidos por transpiração, e percebendo que aquela atitude poderia causar uma desgraça (o sebo poderia tornar-se fatal devido ao sobreaquecimento orgânico) os dois elementos da delegação lusa tentaram de pronto dar-lhe um banho rápido para limpar o sebo, mas em vão. Francisco Lázaro rápido correu para a pista ao mesmo tempo em que repetia vezes sem conta a seguinte promessa: «Ou ganho, ou morro».

Às 13h48 dá-se o tiro de partida, e de pronto Francisco Lázaro coloca-se na frente da corrida, com o corpo todo besuntado de sebo, que tapava os poros da pele tapados, ao mesmo tempo em que contrariamente aos outros 71 concorrentes nem sequer levava uma boina a proteger a cabeça do sol abrasador que se abatia sobre Estocolmo. De forma estratégia os outros membros da comitiva portuguesa foram colocados ao longo do percurso para dar apoio a Lázaro, e ao quilómetro 15 quando passou por Joaquim Vital era 27º com um atraso de 4 minutos para o líder da corrida. Aos 25km era 18º, e estava cada vez mais perto dos homens da frente.

Bebia sofregamente a água que lhe era dada pelos seus conterrâneos, aos mesmo tempo em que dizia vezes sem conta que se sentia bem. Porém, a tragédia aconteceu já muito perto do fim, ao quilómetro 30. Fernando Correia, o chefe da missão portuguesa relatava dias depois para a revista Sports Ilustrados o episódio: «Os meus companheiros que estavam ao quilómetro 35 esperavam impacientes, sem ver Lázaro. Armando Cortesão, que estava a 2km do estádio para o ajudar no sprint final, veio ter comigo. Eu, no estádio, não compreendia a demora. Meti-me num automóvel com o Cortesão e segui pela estrada. Em vários automóveis vinham vários corredores estropiados mas nenhum deles era o Lázaro. Vi levantar os postos de controlo e retirar a força armada que policiou a pista. E Lázaro? Ninguém sabia dele. Regressei e na estrada encontra-mo-nos com o nosso embaixador (António Feijó). Já conhecedor da tragédia, procurava-nos. No seu automóvel seguimos para o hospital... Ali soubemos que o infeliz campeão tinha sido fulminado com um insolação ao quilómetro 30, que um médico o tinha recolhido e em automóvel o levado ao hospital: que três médicos o medicavam com carinho e já na estada lhe tinham aplicado gelo sobre a cabeça. Interrogámos o chefe da clínica, que gentilmente nos respondeu que tinha uma meningite declarada, possivelmente derrame nas meninges, motivada por um fulmimante coup de soleil». 
Francisco Lázaro viria a falecer no dia seguinte, às 6h30 da manhã. O sonho de vencer a medalha levou-o à dura realidade da morte. O país recebeu a notícia e chorou dias a fio. O corpo do atleta chegou a Lisboa dois meses depois do trágico dia. Atracou no Tejo a bordo do Vendysset, tendo sido recebido por um mar de gente, como nunca se havia visto por aquelas bandas. O cortejo fúnebre demorou quatro horas a percorrer as artérias que ligavam o Terreiro do Paço - o mesmo onde quatro anos antes assistiu e chorou a morte de D. Carlos e D. Luís Filipe - ao cemitério de Benfica. Lisboa parou nesse dia, tendo sido inundada pelas lágrimas que corriam pela face do povo dizia adeus ao seu herói. No rescaldo do triste acontecimento os jornais da época escreviam que: «Francisco Lázaro teve na morte a consagração que merecia. O seu nome ficará perpetuado através dos tempos a coragem de um homem meridional, a pertinácia de um atleta e a energia de um português modesto de nascimento e que tão grande era nas determinações da sua vontade, em actos de coragem e amor à sua terra». 

Francisco Lázaro pode até nem ter sido o primeiro campeão olímpico português, mas não há dúvidas de que foi o primeiro grande herói - desportivo - da brava nação lusitana. Louco, é certo, mas herói.

 Vídeo: Documentário biográfico de Francisco Lázaro

Legenda das fotografias:
1-Francisco Lázaro
2-Com o peito coberto de medalhas
3-Correndo a maratona que o levaria à morte (Lázaro é o atleta da direita)

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Canoagem portuguesa de "prata" nos Jogos Olímpicos de Londres/2012

O Museu Virtual do Desporto Português abre hoje propositadamente as suas portas para evocar mais um feito histórico alcançado pelos atletas lusitanos no maior evento desportivo do planeta: as Olimpíadas. Hoje, 8 de agosto de 2012, uma data que ficará gravada a letras de ouro na "grande enciclopédia" do desporto português, o dia em que Emanuel Silva e Fernando Pimenta entraram definitivamente para o Olimpo dos Deuses do nosso desporto, depois de terem alcançado a 2ª posição na final de K2 1000m masculinos em canoagem, prova inserida nos Jogos Olímpicos que por estes dias decorrem em Londres. Na magnífica pista de Eton Dorney a dupla portuguesa conquistou uma inédita medalha de prata para a canoagem lusitana, aliás, inédita em todos os sentidos, pois este foi a primeira medalha de sempre obtida por Portugal nesta modalidade no seio das Olimpíadas. Emanuel Silva e Fernando Pimenta fizeram desde início uma prova magistral, patenteando uma raça e uma entrega ímpares, deixando para trás alguns rivais de peso, que por certo, não contavam com este "atrevimento" dos portugueses, os quais terminaram a prova com um tempo de 3:09,699 minutos, a escassos 53 centésimos de segundo (!!!) da dupla vencedora, os alemães Rudolf Dombi e Roland Kokeny. No final da corrida os canoístas lusos não cabiam em si de alegria, como seria de esperar, já que este foi o ponto mais alto da sua carreira, pese embora tivessem confessado posteriormente que a prata acabou por saber a pouco, uma vez que o ouro fugiu a uns curtos centésimos de segundo, como já referimos.

Biografias...

Emanuel Silva, apesar dos seus 26 anos, é o mais experiente dos dois atletas, participando na sua terceira edição dos Jogos Olímpicos, depois de Atenas (2004) e Pequim (2008). Nasceu nos arredores de Braga, mais concretamente em S. Paio de Merelim, a 4 de dezembro de 1985. É detentor de um vasto e rico currículo não só na canoagem nacional como internacional, sendo neste último patamar de sublinhar as medalhas obtidas no Campeonato do Mundo de Juniores de 2003, em Komatsu (Japão), onde alcançou o ouro na prova de K1 500m, e a prata na corrida de K1 1000m. Como sénior atingiu o estrelato ao classificar-se com apenas 19 anos para as Olimpíadas de Atenas, em 2004, onde surpreendeu tudo e todos ao atingir a final de K1 1000m, tendo alcançado um memorável 7º lugar. Em 2005 vence o Campeonato da Europa sub-23 anos em K1 1000m, e neste mesmo ano alcança a sua primeira medalha enquanto atleta sénior, um feito ocorrido na cidade polaca de Poznan, onde arrecadou o bronze na sequência do 3º lugar de K1 1000m. No ano seguinte é de novo campeão da Europade sub-23 anos em K1 1000m, e em 2011 alcança novo feito no escalão de seniores, desta feita em K4 1000m, ao subir ao lugar mais alto do pódio na Taça do Mundo que decorreu em Poznan. Hoje, em Londres, no maior evento desportivo do planeta, atingiu, como já vimos, e nunca é demais relembrar, o ponto mais alto da sua carreira, a MEDALHA DE PRATA.

Fernando Pimenta é o mais novo destas duas novas lendas do desporto português. Nasceu em Ponte de Lima a 13 de agosto de 1989, e até chegar a Londres tinha como principal cartão de visita uma medalha de ouro em K4 1000m masculinos nos campeonatos da Europa realizados em 2011 na cidade sérvia de Belgrado.

Vídeo: FINAL DE K2 1000M DOS JOGOS OLÍMPICOS DE LONDRES