terça-feira, 9 de julho de 2019

Guilherme Pinto Basto - O pai do futebol português


Há quem aponte o longínquo ano de 1875 como aquele em que uma bola de futebol saltou pela primeira vez em território português. A efeméride é atribuída Harry Hilton, um jovem oriundo de uma família aristocrata inglesa radicada na Madeira que nesse ano terá reunido um grupo de amigos para na Camacha dar uso ao seu mais recente brinquedo trazido da sua Inglaterra: uma bola de futebol. Pouco mais se sabe sobre a “brincadeira” do jovem Harry… Contudo, historiadores fizeram crer que este momento não passou senão de um instante lúdico de Harry Hilton e seus amigos, onde o esférico foi – sem regras – maltratado na sequência dos milhares de pontapés que recebeu.

Isto para dizer que de uma forma organizada e “futebolisticamente civilizada”, o mesmo é dizer com as regras do jogo devidamente aplicadas e cumpridas, o futebol teve o seu primeiro grande momento no nosso país em outubro de 1888, quando em Cascais um grupo de 23 veraneantes da alta sociedade portuguesa fizeram o primeiro “ensaio” de futebol.
Entre esses ilustres pioneiros do “desporto rei” em Portugal estava Guilherme Pinto Basto, o homem que na História ficou conhecido oficialmente como o introdutor do futebol em Portugal. Oriundo de uma rica e aristocrata família portuguesa, os Ferreira Pinto Basto, Guilherme nasceu a 1 de Fevereiro de 1864, na freguesia de Santa Catarina, em Lisboa, e cedo descobriu o fascínio pelo desporto. Um encanto que teve o seu primeiro capítulo oficial, por assim dizer, aos 14 anos, altura em que vai para Inglaterra com o intuito de completar os seus estudos.

Em “terras de Sua Majestade” frequenta o Colégio de Downside, onde já estudavam os seus irmãos Eduardo e Frederico Pinto Basto. Ai trava conhecimento com o “belo jogo” que desabrochava em terras britânicas. E em 1884 traz na bagagem a novidade para Portugal: uma bola de futebol. Reza a lenda que Pinto Basto guardou religiosamente a bola, exibindo-a somente perante os amigos para que estes conhecessem o mágico objeto que por aquela altura endoidecia os ingleses. Quatro anos mais tarde, os três irmãos Pinto Basto regressam mais uma vez a Portugal para gozar as férias de Verão e consigo trazem uma nova bola de futebol.
Com os conhecimentos sobre as leis e técnicas do jogo adquiridos os Pinto Basto rapidamente contagiaram os seus amigos mais próximos com o vício pelo jogo do pontapé na bola. Decorria o Verão de 1888 e na Quinta de Fronteireira, em Belas, davam-se os primeiros toques naquele objeto mágico. E eis que em outubro Guilherme Pinto Basto organiza aquele que é tido como o primeiro grande momento coletivo do futebol em Portugal, o primeiro “ensaio” da modalidade que com o passar dos anos se haveria de tornar rainha na quase totalidade do planeta.

O mítico local foi Cascais, e os seus terrenos da Parada, espaço onde ilustres personalidades da época responderam afirmativamente ao convite de Pinto Basto. 23 homens da mais alta e fina sociedade lisboeta entraram assim para a história. Nos poucos recortes da imprensa da época sabe-se muito pouco sobre os acontecimentos do célebre “ensaio”, sabendo-se apenas que os “players” passaram a manhã a retirar pedras do campo a fim de preparar a contenda. Depois desta tarde já nada seria como dantes, o futebol tinha conquistado o seu espaço no nosso país. O sucesso do “ensaio” de Cascais fez com que quatro meses depois (22 de janeiro de 1889) se organizasse um desafio mais a sério, digamos assim, num clima diferente do verificado nos terrenos da Parada entre um grupo de ricos e ilustres amigos que procuravam acima de tudo divertir-se. Desta feita Guilherme Pinto Basto escalou uma equipa de Lisboa, composta por portugueses, para defrontar um grupo de ingleses que por aquela altura se encontravam em serviço no Cabo Submarino, explorado por uma empresa inglesa e situado em Carcavelos. O cenário do “match” foi Lisboa, no local onde anos mais tarde seria edificado o Campo Pequeno. O resultado é mais uma vez desconhecido mas nas páginas dos jornais da época fica para a história o facto de que o “team” português, no qual Guilherme Pinto Basto atuou como guarda-redes (embora naquela época não houvessem posições ou táticas fixas, podendo hoje jogar como guarda-redes e amanhã como avançado) lutou com bravura, portando-se os seus integrantes como autênticos “sportsmens”.

Cascais havia sido o ensaio e Lisboa o arranque definitivo, o futebol estava de pedra e cal em Portugal.
Dali em diante os jogos sucederam-se em catadupa, e com eles começaram a fundar-se os primeiros clubes de futebol. Como não podia deixar os Pinto Basto mais uma vez foram pioneiros neste capítulo, fundando o Foot-Ball Club Lisbonense, para em seguida outros grupos organizados proliferarem pela capital e pouco mais tarde por outros pontos do país.

O primeiro grande “sportsmen” português

A paixão de Guilherme Pinto Basto pelo desporto era desmedida, e o seu entusiasmo e dedicação não se ficou apenas pelo futebol, muito pelo contrário. Praticou patinagem, hóquei, corridas de cavalo, ciclismo, automobilismo, vela, remo, golfe, caça, ténis, tendo inclusive participado em touradas, como bandarilheiro, a pedido da Rainha D. Amélia. Ele foi considerado o primeiro grande “sportsmen” de Portugal, o primeiro grande desportista multifacetado, e a paixão pelo desporto fez com que com a idade de 86 anos ele fosse considerado o desportista mais idoso em actividade no país!

O grupo que em Cascais deu o pontapé de saída do futebol em Portugal.
Guilherme Pinto Basto é o terceiro na fila de cima a contar da direita para a esquerda.
Apesar de ter praticado inúmeras modalidades foi no futebol e no ténis que mais se notabilizou. Nesta última pertenceu-lhe igualmente o mérito de a dar a conhecer ao nosso país. Guilherme Pinto Basto não foi apenas o introdutor e principal dinamizar do ténis em terras lusitanas foi também um campeão, tendo-se consagrado por nove vezes campeão nacional! Seria o primeiro presidente da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis, em 1925.
Voltando ao futebol ele faria história ao participar no primeiro grande duelo entre equipas de Lisboa e Porto, em 1894, do qual já aqui falámos em “visitas” passadas. Em breves linhas recorde-se que este duelo foi patrocinado pelo Rei D. Carlos, outro amante fervoroso do desporto, que ofereceu a primeira taça disputada num jogo de futebol no nosso país. Pinto Basto capitaneou a equipa de Lisboa que venceu a do Porto (formada na sua grande maioria por jogadores do recém fundado Football Club do Porto) por 1-0.
Os factos de ser oriundo de uma rica e aristocrata família e de ser um desportista nato valeu-lhe a amizade com o Rei D. Carlos, tendo privado de perto com o monarca por diversas vezes, tanto em festas como em eventos desportivos.

Em 1938 assinalou-se com pompa e circunstância no Estádio das Salésias o 50º aniversário da introdução oficial do futebol em Portugal. Presentes estiveram algumas das lendas que marcaram presença nos terrenos da Parada em outubro de 1888, entre outros Guilherme Pinto Basto. Passados 50 anos daquele mítico dia o pioneiro do futebol lusitano diria que aquele jogo era «uma brincadeira, jogava-se apenas entre pessoas que mantinham uma relação de amizade e de cortesia. Tínhamos todos condições e educação aproximadas. Não havia propriamente luta. O futebol era um divertimento próprio da idade. Não se falava nem se sonhava em futebol de campeonato, e menos ainda, de profissionalismo. Era tudo diferente…».

Divertimento, puro e simples, era assim que Pinto Basto encarava o desporto. Fora dele foi um empresário de sucesso, trabalhando com afinco na empresa da família, a E. Pinto Basto & Cª Lda, e foi sócio gerente da fábrica de porcelanas da Vista Alegre, fundada pelo seu visavó, José Ferreira Pinto Basto. Foi ainda distinguido como Comendador da Ordem de Cristo em Portugal, Cavaleiro da Legião de Honra de França, e Comendador da Real Ordem do Danebor da Dinamarca. Faleceu em Lisboa a 26 de julho de 1957.

quinta-feira, 21 de março de 2019

(Algumas) Histórias da Golden Era (anos 20) do polo aquático português


Cascais, assistiu à primeira demonstração
de polo aquático em Portugal, no ano de 1907

Num país – como o nosso - louco por futebol é natural que o tempo de antena para outras modalidades seja diminuto, ou muitas vezes, inexistente. Modalidades há cujo encanto tarda em conquistar plateias maiores… em exibir-se em palcos de destaque. O exemplo do pólo aquático bem pode ser encaixado neste cenário, já que no presente é uma modalidade que se passeia bem longe das luzes da ribalta do nosso desporto.
Contudo, nem sempre foi assim. Houve uma década em que o polo viveu, digamos que, a sua Golden Era em território nacional. Entusiasmo, competitividade, qualidade, acesa rivalidade e acima de tudo mediatismo, foram ingredientes que tornaram o polo aquático em Portugal um fenómeno de popularidade nos anos 20 do século passado.
Viajemos pois a bordo da máquina do tempo até esse período da História, para reviver alguns capítulos que marcaram a melhor fase do polo nacional.

Ainda antes de ancorarmos no início da década de 20, há que primeiro recordar a chegada do polo aquático a Portugal, algo que, de acordo com os historiadores, aconteceu em 1907, pela mão de marinheiros ingleses que aqui trabalhavam. Relatos apontam que a primeira aparição oficial do polo em solo – ou melhor, em mar – nacional ocorreu em Cascais, a 13 de outubro do citado ano, quando no âmbito de um festival náutico esse grupo de marinheiros deu vida ao que muitos de pronto apelidaram de… andebol de água!
Com este arranque, o polo aquático tornava-se assim na segunda modalidade coletiva a ser introduzida em Portugal… a seguir ao futebol.
Contudo, este match experimental não cativou logo a nação, demorando cerca de uma década a afirmar-se cá pelo burgo. 

Foi na região de Lisboa que a modalidade viria a desenvolver-se em meados dos anos 10. Há escritos que apontam que na Doca do Espanhol e na Doca de Santo Amaro se desenrolavam por esta altura grandes jogos de polo aquático, aos quais assistiam numerosas pessoas.
É também em 1915 que é fundado aquele que muitos consideram ser o clube que deu um grande impulso à modalidade, o Sport Algés e Dafundo. Inúmeras páginas históricas foram escritas por este emblema na sequência de acalorados e épicos duelos travados a sul com o rival (de então) Sporting e mais a norte com o FC Porto. ´
E igualmente na reta final dos anos 10 que começam a realizar-se os primeiros campeonatos regionais: primeiro em Lisboa (1915) e depois no Porto (1921).
O interesse em torno do polo ultrapassa nos anos 20 as duas maiores cidades do país, estendendo-se até à Pérola do Atlântico, vulgo, a Madeira.
Graças à sua condição geográfica, a ilha torna-se igualmente num animado centro do polo aquático, criando mesmo um campeonato próprio, isto é, à margem do campeonato nacional, cuja primeira edição acontece em 1922.

Lisboa: palco das primeiras batalhas lendárias

Sporting, campeão nacional em 1922
Pode dizer-se que os primeiros duelos de polo aquático empolgantes e acesos – com uma dose de picardia e dureza à mistura – aconteceram em Lisboa e foram protagonizados pelo Algés e pelo Sporting, as duas grandes potências da época. Os leões criaram a secção de polo aquático em 1917, precisamente no mesmo ano em que é fundada a Liga Portuguesa dos Clubes de Natação, organismo que haveria de tutelar os primeiros campeonatos regulares (regionais e nacionais) no país.
Mas é no início dos anos 20 que o polo leonino ganha projeção com a chegada de alguns reforços de peso, oriundos do Clube Naval de Lisboa, entre outros, Joaquim Oliveira Duarte. Este médico e oficial da Marinha foi nadador, remador, futebolista, e atleta de polo aquático (era guarda-redes) de um clube do qual anos mais tarde viria a ser presidente!
Aliás, grande parte da equipa do Sporting em 1921 era multifacetada no plano desportivo, senão vejamos: António Silva também jogava rugby; Francisco Leote praticava também atletismo e rugby; Mário Garcia jogava rugby e hóquei em campo; Emile Renou era campeão nacional de salto em altura; e Guilherme Coopers era um craque em saltos para a água, onde chegou a ser campeão nacional.

Foram estes homens que estiveram na génese do reinado do leão no polo aquático regional e nacional em diversos períodos na golden era da modalidade.
Reinado que tem início em 1922, com o Sporting a levar a melhor no Campeonato de Lisboa sobre o Casa Pia e o Algés e Dafundo, as outras equipas que compunham este “triangular” disputado nos meses de julho e agosto. Os verde-e-brancos venceram os quatro jogos disputados, vingando assim a amarga derrota nesta competição averbada no ano anterior diante do seu eterno rival no seio desta modalidade, o Algés.
Ao vencerem o regional lisboeta de forma destacada com 8 pontos, mais 5 que o Algés, que partiu para a 6.ª e última jornada da prova para defrontar o Sporting já ciente de que não iria revalidar o título da temporada transata, os leões classificaram-se para a final do Campeonato Nacional, que iria ser disputada com o campeão do Porto, o Clube Escola Náutica.
Final que decorreu em Viana do Castelo. E que final haveria de ser!
Ao intervalo o Sporting vencia os portuenses por claros 3-0, graças a golos de Emile Renou (2) e Mário Garcia. E eis que para a segunda parte aconteceu algo… insólito! Os campeões do Porto resolveram não comparecer na quadra desenhada no Rio Lima, ao que parece porque não conseguiam agarrar bem a bola, alegando que esta estava encerada e que para a manusear os jogadores do Sporting haviam untado as mãos com cola! E assim a vitória foi atribuída ao Sporting que conquistava o primeiro de quatro títulos nacionais alcançados nesta década.

Madeira: um caso à parte

Império, que em 1922 venceu o Campeonato da Madeira
É a 22 de agosto de 1922 que na Madeira é criada a Liga Madeirense de Desportos Aquáticos (LMDA). Neste dia, representantes do Clube Sport Marítimo, Clube Desportivo Nacional, União Football Club e o Clube Sports da Madeira reúnem-se na sede desta última coletividade para fundar a citada liga cuja missão passava pelo promoção e organização de modalidades aquáticas na ilha, entre outras, o polo aquático. Esta espécie de federação regional teve como grande mentor Álvaro Reis Gomes.
Definidos e estruturados os estatutos deste organismo, arranca neste mesmo ano o primeiro campeonato da Madeira de waterpolo – nome pelo qual era na época designada a modalidade no nosso país. Prova que seria disputada pelo Clube Sport Marítimo, Grupo Desportivo Nacional, Club Sports da Madeira, Império Foot-ball Club e União Foot-ball Club.

E tal como no continente os embates de polo aquático na ilha eram extremamente competitivos, sendo exemplo disso a primeira edição do regional madeirense, que chegou ao final com Marítimo e Império empatados em termos de pontuais. O tira-teimas foi marcado para a Baía da Pontinha, no Funchal, onde o Império haveria de se tornar no primeiro campeão madeirense após derrotar os maritimistas por 3-1. Os relatos desse jogo apontam para uma afluência massiva de público... pagante, tendo a receita sido de 53 escudos.
A liga cresceu nos anos que se seguiram, tendo sido criados os campeonatos das segundas e das terceiras categorias, tal era o elevado número de praticantes da modalidade. O declínio dá-se por volta de 1928, porque de repente começou a haver um desinteresse dos clubes em participar nas provas da LMDA, muito por culpa da acentuada expansão do... football!

De volta ao Continente... com finais (1923 e 1924) envoltas em polémicas

Duelo entre Algés e Sporting, em 1923
O polo aquático desde a sua implementação em Portugal que era olhado como um desporto algo violento. Eram normais as quezílias entre atletas dentro de água, sem que o árbitro se apercebesse do agressivo contacto físico que quase sempre existia, sobretudo nos jogos mais decisivos, como por exemplo o Sporting – Algés de 1923, que iria decidir o título regional lisboeta desse ano. Os dois maiores emblemas da capital terminaram o campeonato com o mesmo número de pontos, sendo que ambos os jogos realizados entre eles terminaram empatados (2-2 e 1-1), pelo que houve necessidade de a 30 de setembro de 1923 ser disputada uma espécie de negra para decidir o campeão.
A violência entre jogadores nos confrontos Sporting – Algés, ou vice-versa, era uma constante. E na finalíssima, digamos assim, esta tendência voltou a confirmar-se. Exemplo disso foi um jogador do Algés que se encontrava fora da água após ter sido suspenso temporariamente pelo árbitro, ter subitamente voltado a entrar na quadra para agredir barbaramente um jogador leonino, no caso Henrique Teles. Após o período de suspensão ter terminado o jogador agressor do Algés voltou ao jogo como se nada tivesse acontecido, facto que motivou o protesto dos sportinguistas. Como o árbitro permitiu a reentrada do dito jogador, o Sporting resolveu abandonar o encontro e assim entregar o título de Lisboa numa bandeja ao Algés, que simultaneamente e sem opositor a norte foi igualmente considerado campeão nacional.
Estes foram os primeiros títulos conquistados por este emblema quer no plano regional, quer no nacional. Algés que assim enriquecia o seu palmarés, juntando estas duas conquistas à “Taça Maria Emília”, arrecadada em 1916 num torneio realizado na Praia da Cruz Quebrada, e que constituiu a primeira vitória relevante do waterpolo deste clube.
Por esta altura, o regional lisboeta já era disputado em três categorias, facto que atestava a popularidade da modalidade.

Um ano volvido e nova polémica fora de água permitiu ao Algés revalidar os dois ceptros. A 1.ª categoria do regional lisboeta foi disputada unicamente pelos dois velhos inimigos durante o mês de outubro. E depois de um empate a uma bola no primeiro encontro a polémica estoirou no segundo jogo.
Tudo porque numa altura em que o Sporting vencia por 1-0 o cronómetro do jogo simplesmente desapareceu! Enquanto isto, os jogadores das duas equipas brindavam o número público com cenas de pancadaria. A Liga Portuguesa dos Amadores de Natação decide então suspender a partida de modo a abrir um inquérito enquanto anunciava um terceiro jogo. O Sporting discordou e decidiu retirar a sua equipa da prova e assim oferecer pelo segundo ano consecutivo os títulos regional e nacional ao seu rival.

1926: ano de estreias e de reconquistas

Hermano Patrone, tem o seu nome perpetuado
numa alameda em Algés
Após um ano (1925) de interregno, fruto de muitas faltas de comparência, eis que em 1926 o waterpolo volta a fervilhar. É por esta altura, aliás, que para o Algés entra aquele que ainda hoje é considerado um dos maiores jogadores portugueses da História: Hermano Patrone. É igualmente neste ano que em Lisboa tem lugar o primeiro jogo internacional de uma seleção nacional de polo aquático, tendo o combinado luso sido derrotado pelos vizinhos espanhóis por 2-1. Entretanto, na Doca de Santos, na Doca do Espanhol, ou na Praia de Algés continuam a realizar-se escaldantes e emotivos matchs em condições... artesanais: um retângulo flutuante onde se desenrolavam os jogos que se deslocava constantemente pela força do vento e das ondas. Nas extremidades do retângulo duas balizas suspensas por bidões! Era assim o waterpolo nacional na sua Golden Era.

E se em 1923 e 1924 o Sporting protestou os duelos decisivos contra o Algés, desta vez foram estes últimos a fazer birra pelo facto de os leões apresentarem ao longo do Campeonato de Lisboa um jogador (Esteban Torok) que não era português. O Algés comandou o coro de protestos, no qual estavam incluídos outros emblemas da capital (e redondezas). Aliás, o regional de 1926 ficou marcado pelo número elevado de participantes no campeonato de 1.ªs categorias, pois além de Algés e Sporting também competiram o Vitória de Setúbal, o Clube Internacional de Football (CIF), o Pedrouços (nada a ver com a localidade da Maia) e o Nacional (que veio fazer uma perninha ao continente).
O protesto do Algés fez com que este clube não comparecesse no derradeiro e decisivo encontro do campeonato, entregando desta forma o título ao Sporting, onde pontificavam agora nomes como Coelho da Costa, Salazar Carreira, ou Jaime Montalvão. O título regional permitiu aos sportinguistas disputarem o título nacional em Aveiro, diante do campeão do Porto, naquele ano o Comercial. A supremacia dos clubes do sul continuava a ser evidente, como comprova o resultado final de 4-0 a favor dos leões.

Águas turbas no plano regional em 1927

Não era apenas a violência em muitos jogos que caracterizava o waterpolo luso por estes dias, era igualmente a discórdia entre clubes e demais entidades. Prova disso é que em 1927 os principais clubes de Lisboa, tendo à cabeça o Algés, decidem criar um novo organismo que tivesse como função a tutela da modalidade, fazendo assim frente à Delegação de Lisboa da Liga Portuguesa de Natação, que tinha como um dos seus poucos aliados o... Sporting.
Esta fidelidade concedeu aos leões mais um título regional, uma vez que o campeonato lisboeta continuava a ser tutelado pela Liga. Desta vez a polémica não se deu dentro de água, onde os sportinguistas não tiveram rivais, mas sim na secretaria. Polémicas à parte, a Doca de Alcântara iria receber em novembro de 1927 a final do campeonato nacional entre Sporting e o campeão do Porto, o Nun' Álvares. Venceram os lisboetas, por claros 5-0, mantendo assim a supremacia do waterpolo sulista no plano nacional.

FC Porto contraria tendência sulista

FC Porto, conquistou para o Norte em 1928
o primeiro título nacional
Porém, no ano seguinte o cenário iria mudar, muito por causa da ação de uma lendária equipa do FC Porto, que entretanto começava a despontar nos jogos realizados no Rio Douro. No dia 30 de setembro de 1928, José Pinto, Luís do Canto Monis, José Sequeira Jr., Florentino Ramalho, Florentino Mota, João Pedro Brenha, António Augusto Antunes e César Machado ascendem à categoria de heróis após derrotarem na sua Cidade os campeões de Lisboa, o Sporting, e oferecerem o primeiro título nacional ao norte do país.
Enquanto isso, na capital continuava a luta pelo controlo da modalidade entre a Federação e a Liga. É também neste ano de 1928 que começa a ser erguida a primeira catedral do polo aquático e da natação em Portugal, isto é, a primeira piscina na verdadeira ascensão da palavra. Trata-se da piscina do Algés e Dafundo, que nos anos que se seguiram tantos e tantos campeões viria a formar... sobretudo na natação, porque o fervor do polo aquático começava a abrandar.

A tentativa frustrada da fusão entre Federação e Liga em Lisboa marcou o ano de 1929. Um ano em que o Sporting (que com esta divisão entre organismos continuava a ser tranquilamente o campeão do regional lisboeta) vingou diante do FC Porto a derrota no ano anterior, recuperando o ceptro nacional após vitória em dia de feriado (5 de outubro) por 2-1.
Depois de um notável fulgor em finais da década anterior que se viria a confirmar na primeira metade dos anos 20, o polo começava a perder notoriedade à medida que se aproximava a década de 30.
E isto numa altura (1930) em que finalmente a sul do país se levantava a bandeira branca em sinal de paz – e concordância – entre Federação e Liga, que ao fundirem-se num só organismo voltaram a trazer tranquilidade e interesse ao Campeonato de Lisboa.

Pela primeira vez o Benfica participou na prova, que seria ganha pelo Algés, que no encontro decisivo derrotou o velho inimigo de Alvalade por 2-1. Sem rival a norte, o Algés sagrar-se-ia novamente campeão nacional.
É a partir deste ano que muitos clubes começam a ignorar o polo aquático, a abandonar os campeonatos regionais e consequentemente os nacionais, e a modalidade perde expressão. Desde logo popularidade, já que órfão de jogos (com interesse) o público começa a afastar-se. A própria comunicação social começa a ignorar o polo aquático que a partir daqui atravessa uma longa travessia no deserto no que a campeonatos nacionais diz respeito, pese embora em 1952 a nossa seleção tenha atingido o seu momento de glória no âmbito desta modalidade: a presença nos Jogos Olímpicos.
Só nos finais dos anos 70, o polo aquático voltaria a ganhar algum dinamismo em termos nacionais, com o regresso dos campeonatos nacionais, em 1985, mas sem o fulgor da Golden Era dos anos 20.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Flashes Biográficos (3): Jorge Theriaga... o maior astro da História do bilhar nacional


JORGE THERIAGA (Bilhar): Numa anterior viagem ao passado da nobre e gloriosa História do nosso desporto, evocámos aquela que foi a primeira conquista internacional alcançada pelo bilhar português. Um feito alcançado por Alfredo Ferraz, que em 1939 venceu, em Lausanne, o Campeonato do Mundo de bilhar livre.
Esta efeméride leva-nos hoje a uma nova incursão ao passado, para recordar a maior lenda do bilhar nacional: Jorge Theriaga.
É unanimemente considerado o maior jogador português de todos os tempos, não só pelas dezenas de títulos nacionais e internacionais conquistados ao longo de mais de três décadas de atividade, mas sobretudo pela sua ímpar perícia enquanto bilharista.
Médico de profissão, Jorge Theriaga nasceu em Lisboa a 8 de março de 1954 e com apenas 18 anos começa a dar nas vistas no clube do seu coração, o Sporting, emblema do qual se fez associado com a tenra idade de 8 anos. Nesse ano de 72, o então estudante de medicina vence o seu primeiro título oficial, o campeonato de juniores de bilhar às 3 tabelas, a variante de bilhar em que se tornou mestre... e lenda.
Esta seria só a primeira tacada coroada de êxitos no que a títulos concerne. Senão vejamos.

Foi por 19 vezes campeão nacional individual (sénior), oito dos quais de forma consecutiva, sendo que o primeiro ceptro foi conquistado em 1979. A solo, venceu ainda uma Taça de Portugal. No plano coletivo foi por 11 vezes campeão nacional, conquistando ainda três taças de Portugal e seis supertaças nacionais.
O seu talento galgou já nos anos 80 as fronteiras nacionais, sendo que a nível individual logrou em 1986 alcançar um brilhante 3.º lugar no Campeonato da Europa às 3 Tabelas, nesse ano disputado na cidade luxemburguesa de Mondorf-les-Bains e onde o craque luso só seria derrotado pelo campeão em título, Torbjorn Blomdhal. 
Três anos mais tarde, na Áustria, o astro do bilhar português tocou finalmente o céu no plano individual, após vencer o Campeonato do Mundo de Triatlo (variante que integra as 3 tabelas, bilhar livre e 71/2).
Em 1994, na localidade alemã de Viersen, chega às medalhas de prata e de bronze no Campeonato do Mundo de 3 Tabelas em termos coletivos (fez dupla com Mário Ribeiro). Ali volta em 1995, para levar para casa, também no plano coletivo (e novamente ao serviço da seleção nacional), uma nova medalha de bronze. Neste mesmo ano, mas agora no plano individual, conquista em Praga uma medalha de bronze no Campeonato da Europa às 3 Tabelas, feito que repete quatro anos mais tarde no Porto.

No meio de tantos e tantos sucessos, há ainda a destacar as duas medalhas de ouro - equivalentes a títulos planetários - arrecadadas por Theriaga na Taça do Mundo às 3 Tabelas, tendo a primeira delas sido conquistada em 1994, no Grande Prémio da Holanda, em Dongen, e a segunda dois anos mais tarde no Grande Prémio da Turquia, em Antalya. No âmbito da Taça do Mundo arrecadou ainda quatro medalhas de prata (95, em Atenas, 97, em Seul, 98, em Korfu, e 99, em Oosterhout), bem como uma medalha de bronze, em 1996, em Atenas.
Tal como diz o velho ditado "quem sabe não esquece", aos 61 anos de idade, Jorge Theriaga volta a fazer história no bilhar nacional. A 17 de fevereiro de 2015, estabeleceu um novo recorde nacional, ao realizar numa só partida 40 carambolas em 10 entradas.
Este seu percurso valeu-lhe, naturalmente, inúmeras distinções, desde o Comité Olímpico Português, até ao Instituto Nacional do Desporto. Porém, a mais pomposa terá sido, provavelmente, a medalha de Bons Serviços Desportivos, que lhe foi atribuída pelo Governo Português em 1989.