sexta-feira, 20 de abril de 2018

Hóquei em Valongo – Uma fervorosa paixão sobre rodas


Atreve-mo-nos a afirmar que serão poucas as terras deste nosso Portugal onde o futebol não assume o estatuto (indiscutível) de Desporto Rei. Esta suposição assume contornos de certeza em pelo menos uma localidade nacional, situada a norte, na região do Grande Porto, famosa a nível nacional por ser o berço da regueifa, do biscoito, da ardósia e… do hóquei em patins. Valongo, é o nome da terra em que o hóquei patinado stica para fora do rinque as atenções dadas ao fenómeno futebol, por outras palavras, a terra onde o hóquei em patins é rei, é a modalidade que dita leis em Valongo… onde o futebol passa completamente despercebido!
Vem isto a propósito de uma recente remexida no baú das (minhas) lembranças profissionais, em que dei de caras com uma entusiasmante reportagem sobre a história da Associação Desportiva de Valongo (ADV), o popular Valongo, que ainda há pouco (2014) surpreendeu o Mundo na sequência da conquista do título de campeão nacional da 1ª Divisão de hóquei em patins. Essa incursão profissional à “capital do hóquei em patins nacional” – é assim que os valonguenses se referem carinhosamente à sua terra, alegando que ali se vive a modalidade de uma forma diferente daquela que se vive no resto do país –, que na verdade mais não foi do que uma bela tarde passada na companhia de dezenas de memórias sobre a vincada paixão desta cidade às portas do Porto pelo hóquei, deu-se na abertura da exposição “Hóquei de Valongo – Um percurso sobre rodas”, a qual havia estado patente entre abril e agosto de 2013 no Museu Municipal de Valongo.
É pois o relato dessa viagem por algumas paragens da história da ADV – relato esse efetuado para o órgão de comunicação social para o qual eu trabalhava – que aqui se publica no sentido de perpetuar nestas vitrinas virtuais esta curiosa paixão sobre rodas de Valongo pelo hóquei.

Hóquei de Valongo: uma fervorosa paixão em exposição

«Dúvidas parecem não existir de que o hóquei em patins é de longe a modalidade rainha em Valongo. Uma conclusão muito fácil de tirar não só pela visível paixão semanal que os valonguenses demonstram pela sua Associação Desportiva de Valongo mas também aquando da inauguração da exposição “Hóquei de Valongo: Um Percurso sobre Rodas”, na passada noite de 5 de abril (2013), no Museu Municipal, local onde os muitos visitantes que marcaram presença na abertura do evento – mas também os muitos outros que já lá deram uma vista de olhos nos dias seguintes – puderam embarcar numa fascinante viagem ao passado para conhecer – ou recordar – a história daquela que é uma das grandes marcas de referência do nosso concelho, a Associação Desportiva de Valongo (ADV).

Fundada em 1955, a ADV é para o povo valonguense mais do que uma mera coletividade desportiva, é acima de tudo uma paixão, uma fervorosa paixão, para muitos até um modo de vida. A história do popular Valongo confunde-se com a da própria cidade que lhe dá o nome, e até mesmo com o do restante concelho, não sendo nada exagerado dizer que o hóquei patins foi – e continua a sê-lo – um dos principais responsáveis pela colocação da marca “Valongo” no mapa nacional e internacional ao longo destas quase seis décadas de história. É um pouco essa a ideia retirada após o visionamento desta fascinante exposição que conta de fio a pavio a não menos fascinante vida da ADV.

Percorrendo os caminhos da História

Deambulando pela montra de memórias os olhos arregalam-se quando encaramos de frente as vitrinas espalhadas pelo local, que guardam os rostos das primeiras lendas do clube, das primeiras equipas, tudo envolto na magia do “preto e branco”. Em paralelo encontramos as linhas que traçam a história do Valongo. Os tempos em que grupos de rapazes empolgados com as inolvidáveis campanhas internacionais da seleção portuguesa de hóquei de finais da década de 40 e princípios da de 50 recorre às hortas locais (!) para poder imitar os seus heróis dos rinques. As hortas? Perguntar-se-á por esta altura o leitor. Sim, às hortas, já que sem meios económicos para comprar os sticks de madeira com que se jogava ao hóquei os rapazes de Valongo utilizavam os talos das couves para sticar as bolas de trapo. João Lino do Vale era um desses meninos que sonhava dia e noite com o hóquei em patins, e não demorou muito a organizar jogos inter-ruas na Fábrica “A Separadora”, em Campo. Brincadeiras que seriam oficializadas em 1955, ano em que Lino do Vale e o restante grupo de amigos fundam a ADV. 

De lá para cá a história faz-se com vitórias, muitas, com dezenas de conquistas – que podem ser comprovadas com os muitos troféus de campeões (regionais e nacionais) aqui expostos – com a formação de lendários hoquistas portugueses, e com centenas de factos desportivos que entraram para a história do próprio concelho de Valongo. Factos que estão eternizados em jornais, cujos “recortes” passados estão agora vivos nesta exposição. Um desses recortes – que nos chamou particularmente à atenção – remonta a 1978, ano em que o Valongo garantiu a qualificação para a Taça dos Clubes Campeões Europeus! A história mereceu honras no jornal “A Bola” da época, que dá uma página inteira (!) ao feito alcançado pelo emblema do nosso concelho. Nas páginas esbatidas pelo tempo recordamos o derradeiro jogo do campeonato nacional de 78, quando um empate a dois golos em casa diante do Oeiras garantiu a qualificação para a prova rainha do hóquei patinado europeu da época seguinte. Recordamos os festejos que se seguiram a esse feito, com o povo valonguense a carregar os seus heróis em ombros. A estreia na Europa deu-se então na Alemanha, mais precisamente em Iserlohm, onde nomes como Aguiar, Lino, Armindo, Pires, Américo, Queirós, Camões, e Vítor Francisco ascenderam ao patamar das lendas. Foram eles que apresentaram o Valongo ao “Velho Continente”. E já que falamos em nomes lendários do clube não podemos esquecer Eugénio, Carlos Camões, António Vale, José Nora, José Alves, entre muitos, muitos outros ícones dos patins e do stick que nasceram no Valongo e ajudaram-no a catapultar-se para os patamares mais altos do hóquei nacional e internacional.
E se estes homens tiveram um papel fundamental dentro do campo – ou do rinque, melhor dizendo – outros tiveram-no fora dele. Foram os dirigentes, casos de João Alves Vale, Joaquim Paupério, Álvaro Reis Figueira, e mais recentemente João Carlos Paupério, também eles com direito a destaque nesta exposição.

Nesta viagem pela história da ADV chama igualmente à atenção a vitrina onde estão guardadas algumas memórias alusivas à grande rivalidade existente com o FC Porto. Recordamos jogos emblemáticos daquele a que muitos chamam de dérbi do norte. Ante o rival azul e branco são célebres os jogos realizados (a céu aberto) no rinque da Praça Machado dos Santos, o popular “largo do patos” (já desaparecido), casa do Valongo durante anos a fio, numa época em que o atual Pavilhão Municipal ainda não havia sido erguido. Jogos em que os ramos das árvores em redor da citada praça se transformavam em “explosivas” bancadas repletas de fervorosos adeptos valonguenses que faziam do local um verdadeiro inferno para os adversários, em especial para os portistas, o velho inimigo, por assim dizer.

Histórias e factos que podem ser vistos e escutados pela voz de muitos dos próprios intervenientes desses acesos duelos, num documentário gravado que passa nos ecrãs espalhados pela exposição. Muito bom este pormenor».  
Devo dizer que esta foi das reportagens que mais prazer me deu, muito pela inolvidável viagem no tempo que fiz nessa tarde do não muito longínquo mês de abril de 2013. A ADV assume-se hoje como um dos grandes clubes do hóquei nacional, ombreando sem medo com os chamados “grandes” do desporto nacional: Benfica, FC Porto e Sporting. O ponto alto da vida da popular ADV seria vivido curiosamente um ano mais tarde após esta exposição ter estado patente, altura então em que o sonho de uma cidade inteira se tornou realidade: Valongo era campeão nacional de hóquei em patins. Feito esse que enquanto profissional da comunicação tive igualmente o privilégio de viver  in loco, e o qual passo a aqui a recordar nas linhas que nesse dia me saíram da alma: 

Valongo, campeão nacional da 1ª Divisão em 2013/14
«31 de maio de 2014. Dia em que se decidia o vencedor do Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Todos os caminhos iam dar a Valongo, e ao seu pavilhão municipal, que acolhia uma autêntica final entre as duas únicas equipas que poderiam ainda sonhar com o ceptro de campeão, a Associação Desportiva de Valongo e o Futebol Clube do Porto. Aos portistas bastava um empate para revalidar o título, enquanto que para concretizar o sonho de pela primeira vez ser campeão o Valongo precisava de uma vitória. O trajeto que vai do sonho à realidade durou 50 minutos, período de tempo em que o Valongo se tornou gigante e aniquilou por completo o favorito FC Porto, alcançando um triunfo por 5-3 que fez explodir de alegria o para lá de lotado – e infernal – Pavilhão Municipal. Aos 60 anos de idade o Valongo era finalmente campeão nacional de hóquei patins. Ao fim de 60 anos de intensa procura o título mais ambicionado tinha sido encontrado. Hugo Azevedo, André Girão, Nuno Araújo, Telmo Pinto, Miguel Viterbo, Rafa, João Souto, Henrique Magalhães, João Sampaio, Xavi Cardoso, ou Paulo Pereira ganharam a partir daquele dia o estatuto de imortais, de mitos, cujos nomes irão ser recordados para sempre quando de hóquei se falar nas ruas e cafés valonguenses. Hóquei em Valongo é sinal de paixão, sendo pois com sorrisos de orelha a orelha que o povo valonguense extravasa neste dia o que lhe vai na alma».

Nesse dia percebi a verdadeira razão pela qual o hóquei em patins é de longe Rei em Valongo. 

domingo, 15 de abril de 2018

Memórias do I Porto-Lisboa no rescaldo de uma visita ao Museu do Ciclismo (nas Caldas da Rainha)


Charles George,vencedor do I Porto-Lisboa
A recente passagem pela formosa cidade das Caldas da Rainha abre caminho para a memória que hoje vamos evocar nas nossas vitrinas virtuais. A história leva-nos até 1911, ano em que se disputou a primeira grande prova do ciclismo português: a clássica Porto-Lisboa. 

Esta memória foi tema de conversa na nossa passagem pelo Museu do Ciclismo, situado precisamente nas Caldas da Rainha, ao qual efetuamos uma breve mas fascinante visita que nos levou a percorrer inúmeros capítulos da História de uma modalidade popular e muito acarinhada em Portugal. Ali, fomos guiados pelo conhecido entusiasta e profundo conhecedor da(s) História(s) do ciclismo nacional e internacional, Mário Lino, figura ilustre da modalidade (enquanto historiador) que nos deixou verdadeiramente encantados com as suas memórias velocipédicas. Uma delas abordou precisamente a primeira edição da corrida Porto-Lisboa, realizada a 5 de novembro de 1911. Esta foi, como já foi referido, a primeira grande competição velocipédica a surgir no nosso país, e que para muitos historiadores terá servido de rampa de lançamento para a atual prova rainha do ciclismo luso, a Volta a Portugal. 


Recuando um pouco mais no tempo, e em jeito de nota de rodapé, para lembrar que os primeiros registos de competição velocipédica em Portugal remontam ao século XIX. Reza a História que em 1885 no âmbito das competições de atletismo organizadas pelo Ginásio Club Português decorrem no Hipódromo de Belém corridas de bicicletas, tendo nelas participado e triunfado nomes como Domingos Basto, Jorge Norton, ou Herbert Dagge, este último tido como o pai do ciclismo em Portugal. É nesse mesmo século XIX que aparece o primeiro grande ciclista português, o figueirense José Bento Pessoa, que até finais deste século vence inúmeras provas – realizadas, sobretudo, em velódromos – que se vão disputando em Lisboa e no Porto, mas também no estrangeiro.

Nos inícios do século XX o ciclismo ganha força em Portugal, com a ocorrência das provas de estrada, como é o exemplo do Caldas-Lisboa (1901), do Grande Prémio de Outono (1906), ou do Campeonato da Rampa (1908), entre outras. Esta popularidade terá levado a que em 1911 a União Velocipédica Portuguesa (UVP) idealizasse uma prova de maior calibre, à semelhança do que acontecia em França e Itália, por exemplo, onde clássicas de uma só etapa como a Bordéus-Paris ou a Milão-San Remo começavam a centrar em si os olhares de um número crescente de entusiastas. Ainda segundo a História, a primeira vez que a UVP tentou colocar em prática o Porto-Lisboa, a intenção saiu gorada por falta de participantes! Facto ocorrido em 1910, quando dos inicialmente 20 inscritos naquela que seria a primeira edição da clássica apenas três marcaram presença na linha de partida! Face a isto, a realização da prova foi cancelada.  


Tal não iria acontecer no ano seguinte, quando a UVP lançou de novo a ideia de realizar a prova. Assim, no dia 5 de novembro, 15 ciclistas compareceram na Praça da Batalha, no Porto, para dar vida aquela que hoje encarada como a primeira grande competição de ciclismo a ter lugar em Portugal e que durante a sua existência foi considerada a grande clássica velocipédica cá do burgo. Nesse dia, ou melhor, nessa noite, já que os ponteiros do relógio marcavam a uma e meia da manhã, partiram da Praça da Batalha os seguintes ciclistas: Alberto Albuquerque, Luís Baptista, Joaquim Marques de Sá, Artur de Campos, Charles George, Joaquim Dias Maia, Carlos Fernandes, Luís Policarpo da Silva, Joaquim de Oliveira, João de Lacerda, José da Costa Nascimento, Joaquim Delgado, Faustino Rosa da Silva, Silvério Rocha e Laranjeira Guerra. Homens cujos nomes entram pois na História. Segundo registos da atual Federação Portuguesa de Ciclismo, a prova teve inúmeras peripécias ao longo dos seus 340km – a distância entre as duas maiores cidades do país –, como, por exemplo, o facto de um grupo ter seguido por Espinho e outro pelos Carvalhos. Outro episódio caricato alude ao acordo para divisão do prémio final entre Laranjeira Guerra, João Lacerda e Faustino Rosa, os quais estavam certos da desclassificação dos seus colegas que haviam seguido pelo lado errado. Porém, a caravana lá chegou a Lisboa, 17 horas/48minutos/34 segundos após a partida, tendo o francês Charles George (do Lusitano) cortado a meta na primeira posição. No entanto, este seria um falso arranque para a clássica, tendo a UVP anulado a prova pelas irregularidades atrás descritas. 


Como já foi dito, o Porto-Lisboa foi até ao aparecimento da Volta a Portugal a prova mais popular do ciclismo nacional, juntando nas estradas por onde serpenteava, e desde a sua primeira edição, largos milhares de pessoas para ver e incentivar o pelotão. A clássica realizou-se até 2004, sendo que ao longo da sua história teve algumas interrupções, umas vezes por falta de verbas para a colocar na estrada, outras devido às duas Guerras Mundiais. O já referido aparecimento da Volta a Portugal (em 1927) e o facto de nos anos 70 a clássica ser dividida em duas etapas acabaria por anunciar uma lenta morte anunciada, algo que iria acontecer no início do novo milénio. 


Estes foram alguns dos factos históricos que tivemos oportunidade de conhecer, ou reavivar, na vista ao Museu do Ciclismo, pela mão da verdadeira enciclopédia humana sobre tudo o que rodeia esta modalidade, o senhor Mário Lino. Ele é o grande dinamizador deste espaço sagrado do ciclismo, foi ele que doou o seu imenso e rico espólio para criação deste museu, que além de deliciosas fotografias que nos levam a visitar décadas e décadas de história do ciclismo em Portugal, agrega ainda troféus, camisolas, páginas e recortes de jornais, bicicletas (pois claro) e muitos outros documentos históricos que nos deixaram deslumbrados. «Esta é apenas uma pequena parte do meu espólio. Tenho muito mais!», palavras do próprio Mário Lino, que ofereceu então parte da sua coleção não só à sua cidade das Caldas da Rainha, como também, e sobretudo, ao ciclismo e à sua História. Bem haja. 


Terminamos esta nossa evocação à primeira clássica Porto-Lisboa com uma série de fotografias por nós registadas na inesquecível visita ao Museu do Ciclismo, destacando as primeiras duas imagens da série, onde em primeiro lugar surge a histórica ficha de participação no I Porto-Lisboa assinada pelo vencedor da prova, Charles George, ou como Carlos Jorge, como o próprio se apresentou – e aqui reside um apontamento curioso! – e também a vitrina dedicada única e exclusivamente a esse histórico dia 5 de novembro de 1911. 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Conimbricense encesta o primeiro título nacional do basket português



11 de junho de 1933 é uma data histórica para o basquetebol português e muito em particular para a cidade de Coimbra. Ali, no ano de 1910, nascia o Sport Clube Conimbricense, coletividade que ao longo dos seus mais de 100 anos de vida se dedicou à prática de inúmeras modalidades ditas “amadoras”, sendo que numa delas entrou mesmo para a história do desporto português. Falamos do basquetebol, modalidade que na temporada de 1932/33 conhece a primeira edição do Campeonato Nacional da 1ª Divisão, cujo vencedor foi precisamente o Conimbricense.
Ainda antes de recordarmos (ainda que ao de leve) o feito do emblema da cidade do Mondego, será de bom-tom lembrar que o basquetebol chegou a Portugal em 1913 pela mão do professor de Educação Física suíço Rodolfo Horney, que então exercia a sua atividade profissional em Lisboa. Contudo, apenas cerca de uma década mais tarde, mais concretamente em 1922, há registos da primeira competição, a qual seria disputada pelas seleções regionais de Lisboa, do Porto e de Coimbra, tendo esta última saído vencedora. Bom pronuncio, já que dez anos volvidos o Conimbricense foi coroado como o primeiro campeão nacional de basket.
Neste arranque de competição entre clubes no que a Portugal diz respeito, oito emblemas lutarem entre si pela coroa de campeão, nomeadamente o Futebol Clube do Porto, o Fluvial Portuense, o Académico do Porto, o Guifões, o Sporting de Braga, o Atlético de Braga, o Sporting de Gouveia e o Conimbricense. Uma nota curiosa neste cenário é que neste tiro de partida nenhuma equipa do sul se aventurou neste primeiro campeonato organizado pela Federação Portuguesa de Basquetebol – entidade fundada em 1927, na cidade do Porto.
A final do primeiro campeonato nacional realizou-se em Aveiro, tendo sido disputada entre o Conimbricense e o Guifões, tendo os primeiros vencido por 25-23 (após prolongamento).
Para a eternidade ficam os nomes dos heróis dessa histórica conquista que ainda hoje enche de orgulho Coimbra: Fernandes Costa, Feliciano Gaudêncio, Manuel da Costa, Arlindo Mariano e António Carvalho (todos na imagem).

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Flashes Biográficos (2)... Manuel Faria

MANUEL FARIA (Atletismo): Saborear pela primeira vez o doce gosto da vitória é um momento memorável, seja qual for a modalidade. E mais épica e inesquecível se torna caso tenha sido alcançada numa prova de prestígio internacional, como é exemplo a tradicional Corrida de S. Silvestre de São Paulo, a pioneira de todas as corridas de S. Silvestre que hoje em dia se realizam em vários pontos do globo. Não vamos entrar em detalhes históricos muito longos sobre a popular corrida de rua que nasceu em 1925 na citada urbe brasileira, pela mão do jornalista e advogado paulista Cásper Líbero, um milionário entusiasta do fenómeno desportivo que numa viagem a Paris morreu de encantos por uma corrida noturna realizada nas ruas da capital francesa, tendo no regresso à sua pátria decidido ali implementar a ideia. Vamos sim evocar o nome do primeiro herói lusitano a subir ao lugar mais alto do pódio da afamada corrida noturna, recuando para isso até 1956, ano em que Manuel Faria inscreveu pela primeira vez o seu nome na prestigiada lista de vencedores do certame.
Nascido em Abrantes, a 12 de dezembro de 1930, desenvolveu a sua aptidão – e paixão – pelo atletismo ao serviço do clube do seu coração, o Sporting, onde deu os primeiros passos enquanto atleta pela mão do lendário Moniz Pereira. Entre 1950 e 1956, o ano da vitória na S. Silvestre paulista, Manuel Faria arrecadou vários títulos de leão ao peito, desde campeonatos nacionais de juniores nos 5000m e nos 1500m, campeonatos nacionais de corta-mato, a triunfos nas então famosas estafetas Lisboa – Cascais, sendo que em alguns destes títulos estabeleceu mesmo novos recordes nacionais. Sensivelmente pelo meio (deste período), em 1954, viaja até São Paulo, para aí correr pela primeira a Corrida de S. Silvestre, não indo porém além do 40º lugar. Dois anos mais tarde voltou a São Paulo, desta vez para ganhar! Por isso, a noite de 31 de dezembro de 1956 é histórica para o atletismo português. Entre a partida, na Avenida Cásper Líbero – precisamente o patrono desta corrida – e a chegada na Rua da Conceição, o atleta português percorreu 7,4 km num registo de 00,28,58m, estabelecendo também aqui um novo recorde. Mais do que isso tornou-se no primeiro português a vencer a famosa S. Silvestre de São Paulo, escrevendo assim (então) uma das páginas mais pomposas do desporto nacional além fronteiras. Um ano mais tarde, Manuel Faria volta a São Paulo, e de novo para ganhar a corrida de S. Silvestre, desta feita o êxito teve contornos de relevância ainda maiores, já que para trás o sportinguista deixou alguns pesos pesados do atletismo de então, sendo o russo Vladimir Kutz – então campeão olímpico e recordistas mundial nos 5000m e 10000m – o nome mais sonante que foi batido pelo corredor luso. Recebido em Lisboa como um verdadeiro herói, o atleta continuou nos anos seguintes a colecionar inúmeros títulos de campeão nacional – de corta-mato (em que foi penta campeão nacional entre 1955 e 1959), nos 5000m (em quatro ocasiões), 10000 (por três vezes) e nos 1500m. Isto, para além de ter batido inúmeros recordes em várias disciplinas do atletismo. Faleceu a 4 de agosto de 2004, com 73 anos. 
Ainda sobre a Corrida de S. Silvestre de São Paulo, e em jeito de nota de rodapé, é de referir que só nos anos 80 Portugal voltaria a inscrever o seu nome na lista de vencedores, por intermédio de Carlos Lopes (1982 e 1984), Rosa Mota (entre 1981 e 1986, sendo que a menina da Foz é ainda hoje a atleta, na variante feminina da corrida, com mais vitória na prova) e Aurora Cunha (1988).

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

1958: O ano em que o Grande Circo assentou arraiais em Portugal

Caminhamos a grande velocidade para o 60º aniversário da primeira aparição do Grande Circo em terras lusitanas. Facto ocorrido a 24 de agosto de 1958, dia em que a Avenida da Boavista - e artérias circundantes -, no Porto, abriu alas para receber os ases da Fórmula 1. Inserida no calendário da nona temporada do Campeonato do Mundo da modalidade, a prova juntou na Cidade Invicta um naipe alargado de (hoje em dia) lendas das quatro rodas, entre outros o australiano Jack Brabham, os britânicos Stirling Moss, Graham Hill e Mike Hawthorn, ou a italiana Maria Teresa de Filippis, nem mais nem menos do que a primeira senhora a pilotar um monolugar de F1. Olhando à época, quiçá faltou neste verdadeiro leque de estrelas aquele que para muitos era tão só o melhor piloto da altura, pelo menos o mais titulado até então: Juan Manuel Fangio. O astro argentino, que até então contabilizava cinco títulos mundiais, não veio competir ao Porto, tendo participado em apenas dois grandes prémios ao longo de toda a época desportiva, num claro sinal de que estava já a preparar a sua retirada definitiva para as boxes! A ausência de Fangio não foi motivo suficiente para impedir que cerca de 150.000 pessoas se deslocassem ao circuito da Boavista para ver in loco a 9ª prova da temporada de 1958.
A corrida portuguesa - patrocinada pelo Automóvel Clube de Portugal - era a antepenúltima da temporada e apresentava como principal atrativo a luta entre Stirling Moss e Mike Hawthorn pelo título mundial, visto que à chegada ao Porto eram os dois pilotos melhor classificados para suceder a Juan Manuel Fangio no trono da F1. Nota curiosa deste 1º Grande Prémio (GP) de Portugal reside no facto de o primeiro piloto português a conduzir um monolugar ter estado com um pé na corrida, embora à última da hora tenha optado por não pilotar o Maserati 250F. Falamos de Casimiro de Oliveira, o então afamado piloto portuense - irmão do cineasta Manoel de Oliveira - cuja ligação às corridas de automóveis remontava aos anos 30, e que em 1953 testou no circuito de Modena (Itália) um Ferrari F2, entrando assim para a história como o primeiro português a sentar-se num monolugar F1. No Porto, Casimiro de Oliveira ainda realizou uns testes pré-eliminares com o seu Maserati 250F, optando, no entanto, por não entrar em ação, já que, e segundo rezam as crónicas, o facto de não participar em corridas de há três anos àquela data fez com tivesse decidido ficar nas bancadas a assistir ao primeiro GP português.
O acidente de Graham Hill junto ao Café Bela Cruz
Assim, foram 15 os pilotos que se fizeram à estrada para disputar uma corrida que teve um total de 50 voltas - numa distância de 375kms, sendo que o cumprimento do circuito era de 7,5kms, abrangendo não só a Avenida da Boavista como também parte da Estrada da Circunvalação e da Avenida Antunes Guimarães.
Grande candidato à vitória era Stirling Moss, confirmando esse estatuto com a conquista da pole position nas duas sessões de treinos realizadas, logo seguido do seu maior rival na luta pelo ceptro mundial, Mike Hawthorn. A luta entre estes dois pilotos viria a ser emocionante durante as 50 voltas do GP, tendo o Ferrari de Hawthorn assumido o comando da corrida logo à segunda volta, pairando no ar a ideia de que o título poderia ficar ali decidido, junto à paisagem idílica do Atlântico a beijar a Avenida da Boavista e o deslumbrante Castelo do Queijo. Mas não.
Ai vai Moss na liderança da corrida na entrada da Avenida da Boavista
O Vanwall de Moss recuperou terreno, e à sétima voltou à liderança que não mais largou. Não só devido à mestria de Moss, mas de igual modo por culpa do azar que atacou Hawthorn no que restou da corrida. Além dos atrasos nas visitas efetuadas às boxes, este último piloto viu ainda o motor do seu Ferrari ir abaixo na última volta do GP, o que fez com que tivesse a necessidade de fazer uma manobra perigosa e contra as regras para voltar a lutar pelo primeiro posto, facto que levou a organização a equacionar a desclassificação do britânico - algo que não viria a acontecer muito devido ao desportivismo de Moss, que apelou para que o seu principal adversário na luta pelo título continuasse em competição. Contas finais do GP de Portugal de 1958, Stirling Moss subiu então ao lugar mais alto do pódio, com um registo de 2H11M27S, mais cinco minutos que o segundo colocado, precisamente Mike Hawthorn, ao passo que o também britânico Stuart Lewis-Evans fechou o pódio.
Seis foram os pilotos que não chegaram ao final deste GP de Portugal, entre eles o lendário Graham Hill, que à 25ª volta teve um acidente junto ao Café Bela Cruz que o obrigou a abandonar a corrida.
Stirling Moss no momento em que corta a meta do primeiro GP de Portugal em F1
O gesto de fair-play de Moss, ao apelar que Hawthorn não fosse desclassificado do GP de Portugal, e dessa forma não somasse qualquer ponto, viria a ser determinante no desfecho do campeonato, já que este último piloto viria a sagrar-se campeão mundial, sucedendo assim no trono ao lendário Fangio e tornando-se no primeiro britânico a vencer um Mundial de pilotos. Moss, que apesar de ser visto como uma lenda da F1, nunca se sagrou campeão mundial ao longo da sua brilhante carreira, acabou em segundo, de nada valendo a vitória no último GP da temporada, em Marrocos, visto que o abandono em Monza - realizado quinze dias após o GP de Portugal - ditou praticamente que Hawthorn seria o novo campeão do Mundo. Restou a consolação a Stirling Moss de ver a Vanwall sagrar-se campeã mundial de construtores nesse mítico ano de 1958, o ano em que Portugal ouviu pela primeira vez o entusiasmante ruído dos motores da F1.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Xavier de Araújo: o desportista dos "Sete Ofícios" que deu vida ao rugby português

Xavier de Araújo
A lenda remete-nos para o ano de 1823, referindo que no decorrer de um match de football disputado por alunos da Rugby School o jovem William Webb Ellis terá agarrado - inexplicavelmente! - a bola com as mãos e com ela percorrido parte do terreno do jogo em direção à baliza contrária enquanto os seus adversários e colegas o tentavam agarrar. E assim nascia o rubgy! Pelo menos, esta é a versão mais popular, digamos assim, que historiadores afetos à modalidade recorrem para recordar o nascimento do rugby. Outros entendidos na matéria defendem que antes deste peculiar episódio outras escolas ingleses praticavam aquele que hoje um espetáculo desportivo que desperta paixões um pouco por todo o planeta, com especial incidência no Reino Unido e nos países do hemisfério sul. Mas não é a pergunta "como, quando e onde nasceu o rugby?" que faz hoje o Museu Virtual do Desporto Português abrir as suas portas, mas antes como é que a modalidade atracou no nosso país. E também aqui residem algumas dúvidas, já que vários autores apontam a data de 11 de dezembro de 1903 como o primeiro vestígio do rugby em terras lusas, um momento expresso num match ocorrido nos terrenos da Cruz Quebrada entre cidadãos ingleses a residir no nosso país - de um lado oficiais britânicos e do outro o Lisbon Football Club, também integrado por súbitos de Sua Majestade.

No entanto, este e outros encontros que dali para a frente poderão ter-se desenrolado em solo lusitano não passavam de meros momentos lúdicos de trabalhadores e oficiais ingleses que aqui assentaram arraiais. Um cenário que de certa forma se equipara aos primeiros anos do futebol em Portugal, em que os ingleses do Cabo Submarino deram um forte impulso para que a modalidade ganhasse raízes por estas bandas.
Mas tal como no futebol também o rugby teve uma figura central no que concerne à sua implementação e dinamização em território luso. E se no desporto rei essa figura foi Guilherme Pinto Basto, no rugby esse ilustre cidadão foi Francisco Xavier de Araújo. Uma curiosidade salta desde logo à vista quando recordamos estas duas personalidades da história do desporto português: ambos foram desportistas multifacetados. Por outras palavras, praticaram de forma exímia inúmeras modalidades, sendo reconhecidos e admirados como verdadeiros sportsman. Outro ponto comum reside no facto de ambos terem estudado nas ilhas britânicas e ali terem travado conhecimento com o sport - com o futebol, o rugby, o ténis e o críquete em destaque - e desenvolvido aptidões - e paixões - para que no regresso à pátria implementassem algumas destas modalidades no quotidiano português. No caso de Xavier de Araújo essa incursão estudantil ao Reino Unido aconteceu quando este cidadão nascido em São Tomé e Príncipe (a 6 de abril de 1892) tinha 17 anos, tendo cursado Engenharia Eletrotécnica nas universidades de Manchester e de Glasgow. Concluídos os estudos Xavier de Araújo regressou a Portugal, tendo, como já foi referido, expressado a sua paixão e talento pelo desporto em modalidades como o futebol, o atletismo, o boxe, o críquete, a luta greco-romana, a natação, o remo, o ténis e o rugby, defendendo com brio as cores de emblemas como o Belenenses, o Clube Internacional de Futebol (CIF), o Académico do Porto, o Ginásio Clube Português, o Carcavelinhos, o Sporting, o Benfica, o Braga, o Royal Football Club, entre muitos outros. Um verdadeiro desportista!

É contudo ao rugby que o seu nome mais se destaca, já que ele foi muito provavelmente o principal impulsionador da modalidade no início da década de 20 do século passado. Corria o ano de 1922 quando o Royal Football Club implementa no seu seio o rugby, sendo que por trás desta ideia esteve Xavier de Araújo. A 22 de março desse ano os portugueses têm oficialmente contacto pela primeira vez com a modalidade, na sequência de um jogo entre o Royal e os ingleses do Carcavelos. E melhor estreia não se podia pedir, já que o Royal levou a melhor sobre os mestres ingleses por 9-3. Uma partida onde terá também participado outra figura que deu um forte contributo para a dinamização do rugby em Portugal, não só pelos ensinamentos técnico-táticos do jogo como também pelos aprofundados esclarecimentos sobre as regras do mesmo. Falamos de Maurice Baillehache, um cidadão francês cujo passado guardava o facto de ter sido capitão da famosa equipa do Havre Athletic Club e da seleção da Normandia. As sementes estavam lançadas, não sendo de estranhar que alguns meses mais tarde, em outubro mais concretamente, os frutos tivessem começado a nascer: o Sporting criava a secção de rugby, impulsionado precisamente por Baillehache e por Salazar Correia, último elemento este que havia tomado conhecimento com a modalidade no pioneiro Royal. Não demorou muito tempo para que estas duas equipas medissem forças no campo de batalha, facto ocorrido a 11 de novembro, com o triunfo a sorrir aos leões por 10-0. Dali para a frente outros clubes juntaram-se à aventura do recém-nascido rugby português - como o CIF, Benfica, ou Ginásio Clube Português, por exemplo -, e aos poucos a modalidade começou a institucionalizar-se, isto é, foram com naturalidade criadas as primeiras competições oficiais sob a égide de organismos próprios, fundados com o propósito de tutelar a modalidade. Neste campo específico, o primeiro organismo a ser criado foi a Associação de Rugby de Lisboa, em dezembro de 1926, a qual, a título de curiosidade, organizou o primeiro campeonato oficial da história do rugby luso: o Campeonato de Lisboa, em 1927, o qual seria ganho pelo Sporting. Ainda no rol das curiosidades é de sublinhar o ano de 1935, mais concretamente o dia 13 de abril, no qual ocorreu o batismo internacional de Portugal enquanto seleção. Facto ocorrido em Lisboa, cidade que acolheu um Portugal - Espanha, com o triunfo a sorrir a nuestros hermanos por 6-5. A fortalecer a influência de Xavier de Araújo na história do rugby português fica o facto desta ilustre figura ter capitaneado o XV luso neste célebre duelo ibérico. Após ter abandonado os campos enquanto atleta, Xavier de Araújo deu seguimento ao seu papel de dinamizador do rugby em Portugal, contribuindo agora com os seus conhecimentos técnico-táticos junto dos mais jovens, na qualidade de treinador, tendo orientado equipas como a Agronomia, o Técnico ou a Academia Militar. Esta incursão de Xavier de Araújo junto da comunidade estudantil foi, aliás, preponderante para dar continuidade ao crescimento do rugby português, já que hoje em dia são sobretudo as equipas universitárias que dão vida à modalidade no nosso país.

Voltando atrás nesta nossa viagem ao passado é de relembrar que Xavier de Araújo foi um desportista multifacetado, praticando de forma exímia diversas modalidades. Uma em que também se destacou com reconhecida veia artística foi a patinagem, sendo ainda hoje lembrado o facto de ter ensinado nas imediações do Jardim Zoológico de Lisboa largas centenas de jovens a manusear os patins. Talvez por isso, uma das artérias que circundam o Zoo da capital tenha sido batizada com o seu nome. Mas não se ficam por aqui as vénias públicas, passe a expressão, à pessoa de Francisco Xavier de Araújo, já que em 1977 foi galardoado com o prestigiado Diploma de Honra do Troféu Internacional Pierre de Coubertin, tendo um ano mais tarde sido condecorado com a Medalha de Mérito Desportivo por parte do Comité Internacional de Fair-Play. Xavier de Araújo viria a falecer em Lisboa, a  8 de setembro de 1987, sem ter tido a oportunidade de vinte anos mais tarde ver ser escrita a página mais bela da história do rugby português: a participação da seleção nacional no Campeonato do Mundo.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Já temos uma mão cheia (de anos)!

E pronto, chegamos hoje aos cinco anos de vida, por um lado munidos de um sentimento de felicidade por termos alcançado este número, mas por outro cientes de que as vitrinas deste Museu Virtual do Desporto Português ainda se apresentam muito despidas de factos e histórias que dão vida ao rico historial desportivo do nosso país. Sabemos que a tarefa de evocar os feitos e figuras do desporto nacional exige uma investigação permanente que nem sempre tem sido possível devido à estonteante velocidade que o comboio da vida circula nos dias de hoje, mas também estamos convictos do desejo em ultrapassar este contratempo de modo a dinamizar no futuro imediato este nosso (vosso) espaço virtual.