quinta-feira, 21 de março de 2019

(Algumas) Histórias da Golden Era (anos 20) do polo aquático português


Cascais, assistiu à primeira demonstração
de polo aquático em Portugal, no ano de 1907

Num país – como o nosso - louco por futebol é natural que o tempo de antena para outras modalidades seja diminuto, ou muitas vezes, inexistente. Modalidades há cujo encanto tarda em conquistar plateias maiores… em exibir-se em palcos de destaque. O exemplo do pólo aquático bem pode ser encaixado neste cenário, já que no presente é uma modalidade que se passeia bem longe das luzes da ribalta do nosso desporto.
Contudo, nem sempre foi assim. Houve uma década em que o polo viveu, digamos que, a sua Golden Era em território nacional. Entusiasmo, competitividade, qualidade, acesa rivalidade e acima de tudo mediatismo, foram ingredientes que tornaram o polo aquático em Portugal um fenómeno de popularidade nos anos 20 do século passado.
Viajemos pois a bordo da máquina do tempo até esse período da História, para reviver alguns capítulos que marcaram a melhor fase do polo nacional.

Ainda antes de ancorarmos no início da década de 20, há que primeiro recordar a chegada do polo aquático a Portugal, algo que, de acordo com os historiadores, aconteceu em 1907, pela mão de marinheiros ingleses que aqui trabalhavam. Relatos apontam que a primeira aparição oficial do polo em solo – ou melhor, em mar – nacional ocorreu em Cascais, a 13 de outubro do citado ano, quando no âmbito de um festival náutico esse grupo de marinheiros deu vida ao que muitos de pronto apelidaram de… andebol de água!
Com este arranque, o polo aquático tornava-se assim na segunda modalidade coletiva a ser introduzida em Portugal… a seguir ao futebol.
Contudo, este match experimental não cativou logo a nação, demorando cerca de uma década a afirmar-se cá pelo burgo. 

Foi na região de Lisboa que a modalidade viria a desenvolver-se em meados dos anos 10. Há escritos que apontam que na Doca do Espanhol e na Doca de Santo Amaro se desenrolavam por esta altura grandes jogos de polo aquático, aos quais assistiam numerosas pessoas.
É também em 1915 que é fundado aquele que muitos consideram ser o clube que deu um grande impulso à modalidade, o Sport Algés e Dafundo. Inúmeras páginas históricas foram escritas por este emblema na sequência de acalorados e épicos duelos travados a sul com o rival (de então) Sporting e mais a norte com o FC Porto. ´
E igualmente na reta final dos anos 10 que começam a realizar-se os primeiros campeonatos regionais: primeiro em Lisboa (1915) e depois no Porto (1921).
O interesse em torno do polo ultrapassa nos anos 20 as duas maiores cidades do país, estendendo-se até à Pérola do Atlântico, vulgo, a Madeira.
Graças à sua condição geográfica, a ilha torna-se igualmente num animado centro do polo aquático, criando mesmo um campeonato próprio, isto é, à margem do campeonato nacional, cuja primeira edição acontece em 1922.

Lisboa: palco das primeiras batalhas lendárias

Sporting, campeão nacional em 1922
Pode dizer-se que os primeiros duelos de polo aquático empolgantes e acesos – com uma dose de picardia e dureza à mistura – aconteceram em Lisboa e foram protagonizados pelo Algés e pelo Sporting, as duas grandes potências da época. Os leões criaram a secção de polo aquático em 1917, precisamente no mesmo ano em que é fundada a Liga Portuguesa dos Clubes de Natação, organismo que haveria de tutelar os primeiros campeonatos regulares (regionais e nacionais) no país.
Mas é no início dos anos 20 que o polo leonino ganha projeção com a chegada de alguns reforços de peso, oriundos do Clube Naval de Lisboa, entre outros, Joaquim Oliveira Duarte. Este médico e oficial da Marinha foi nadador, remador, futebolista, e atleta de polo aquático (era guarda-redes) de um clube do qual anos mais tarde viria a ser presidente!
Aliás, grande parte da equipa do Sporting em 1921 era multifacetada no plano desportivo, senão vejamos: António Silva também jogava rugby; Francisco Leote praticava também atletismo e rugby; Mário Garcia jogava rugby e hóquei em campo; Emile Renou era campeão nacional de salto em altura; e Guilherme Coopers era um craque em saltos para a água, onde chegou a ser campeão nacional.

Foram estes homens que estiveram na génese do reinado do leão no polo aquático regional e nacional em diversos períodos na golden era da modalidade.
Reinado que tem início em 1922, com o Sporting a levar a melhor no Campeonato de Lisboa sobre o Casa Pia e o Algés e Dafundo, as outras equipas que compunham este “triangular” disputado nos meses de julho e agosto. Os verde-e-brancos venceram os quatro jogos disputados, vingando assim a amarga derrota nesta competição averbada no ano anterior diante do seu eterno rival no seio desta modalidade, o Algés.
Ao vencerem o regional lisboeta de forma destacada com 8 pontos, mais 5 que o Algés, que partiu para a 6.ª e última jornada da prova para defrontar o Sporting já ciente de que não iria revalidar o título da temporada transata, os leões classificaram-se para a final do Campeonato Nacional, que iria ser disputada com o campeão do Porto, o Clube Escola Náutica.
Final que decorreu em Viana do Castelo. E que final haveria de ser!
Ao intervalo o Sporting vencia os portuenses por claros 3-0, graças a golos de Emile Renou (2) e Mário Garcia. E eis que para a segunda parte aconteceu algo… insólito! Os campeões do Porto resolveram não comparecer na quadra desenhada no Rio Lima, ao que parece porque não conseguiam agarrar bem a bola, alegando que esta estava encerada e que para a manusear os jogadores do Sporting haviam untado as mãos com cola! E assim a vitória foi atribuída ao Sporting que conquistava o primeiro de quatro títulos nacionais alcançados nesta década.

Madeira: um caso à parte

Império, que em 1922 venceu o Campeonato da Madeira
É a 22 de agosto de 1922 que na Madeira é criada a Liga Madeirense de Desportos Aquáticos (LMDA). Neste dia, representantes do Clube Sport Marítimo, Clube Desportivo Nacional, União Football Club e o Clube Sports da Madeira reúnem-se na sede desta última coletividade para fundar a citada liga cuja missão passava pelo promoção e organização de modalidades aquáticas na ilha, entre outras, o polo aquático. Esta espécie de federação regional teve como grande mentor Álvaro Reis Gomes.
Definidos e estruturados os estatutos deste organismo, arranca neste mesmo ano o primeiro campeonato da Madeira de waterpolo – nome pelo qual era na época designada a modalidade no nosso país. Prova que seria disputada pelo Clube Sport Marítimo, Grupo Desportivo Nacional, Club Sports da Madeira, Império Foot-ball Club e União Foot-ball Club.

E tal como no continente os embates de polo aquático na ilha eram extremamente competitivos, sendo exemplo disso a primeira edição do regional madeirense, que chegou ao final com Marítimo e Império empatados em termos de pontuais. O tira-teimas foi marcado para a Baía da Pontinha, no Funchal, onde o Império haveria de se tornar no primeiro campeão madeirense após derrotar os maritimistas por 3-1. Os relatos desse jogo apontam para uma afluência massiva de público... pagante, tendo a receita sido de 53 escudos.
A liga cresceu nos anos que se seguiram, tendo sido criados os campeonatos das segundas e das terceiras categorias, tal era o elevado número de praticantes da modalidade. O declínio dá-se por volta de 1928, porque de repente começou a haver um desinteresse dos clubes em participar nas provas da LMDA, muito por culpa da acentuada expansão do... football!

De volta ao Continente... com finais (1923 e 1924) envoltas em polémicas

Duelo entre Algés e Sporting, em 1923
O polo aquático desde a sua implementação em Portugal que era olhado como um desporto algo violento. Eram normais as quezílias entre atletas dentro de água, sem que o árbitro se apercebesse do agressivo contacto físico que quase sempre existia, sobretudo nos jogos mais decisivos, como por exemplo o Sporting – Algés de 1923, que iria decidir o título regional lisboeta desse ano. Os dois maiores emblemas da capital terminaram o campeonato com o mesmo número de pontos, sendo que ambos os jogos realizados entre eles terminaram empatados (2-2 e 1-1), pelo que houve necessidade de a 30 de setembro de 1923 ser disputada uma espécie de negra para decidir o campeão.
A violência entre jogadores nos confrontos Sporting – Algés, ou vice-versa, era uma constante. E na finalíssima, digamos assim, esta tendência voltou a confirmar-se. Exemplo disso foi um jogador do Algés que se encontrava fora da água após ter sido suspenso temporariamente pelo árbitro, ter subitamente voltado a entrar na quadra para agredir barbaramente um jogador leonino, no caso Henrique Teles. Após o período de suspensão ter terminado o jogador agressor do Algés voltou ao jogo como se nada tivesse acontecido, facto que motivou o protesto dos sportinguistas. Como o árbitro permitiu a reentrada do dito jogador, o Sporting resolveu abandonar o encontro e assim entregar o título de Lisboa numa bandeja ao Algés, que simultaneamente e sem opositor a norte foi igualmente considerado campeão nacional.
Estes foram os primeiros títulos conquistados por este emblema quer no plano regional, quer no nacional. Algés que assim enriquecia o seu palmarés, juntando estas duas conquistas à “Taça Maria Emília”, arrecadada em 1916 num torneio realizado na Praia da Cruz Quebrada, e que constituiu a primeira vitória relevante do waterpolo deste clube.
Por esta altura, o regional lisboeta já era disputado em três categorias, facto que atestava a popularidade da modalidade.

Um ano volvido e nova polémica fora de água permitiu ao Algés revalidar os dois ceptros. A 1.ª categoria do regional lisboeta foi disputada unicamente pelos dois velhos inimigos durante o mês de outubro. E depois de um empate a uma bola no primeiro encontro a polémica estoirou no segundo jogo.
Tudo porque numa altura em que o Sporting vencia por 1-0 o cronómetro do jogo simplesmente desapareceu! Enquanto isto, os jogadores das duas equipas brindavam o número público com cenas de pancadaria. A Liga Portuguesa dos Amadores de Natação decide então suspender a partida de modo a abrir um inquérito enquanto anunciava um terceiro jogo. O Sporting discordou e decidiu retirar a sua equipa da prova e assim oferecer pelo segundo ano consecutivo os títulos regional e nacional ao seu rival.

1926: ano de estreias e de reconquistas

Hermano Patrone, tem o seu nome perpetuado
numa alameda em Algés
Após um ano (1925) de interregno, fruto de muitas faltas de comparência, eis que em 1926 o waterpolo volta a fervilhar. É por esta altura, aliás, que para o Algés entra aquele que ainda hoje é considerado um dos maiores jogadores portugueses da História: Hermano Patrone. É igualmente neste ano que em Lisboa tem lugar o primeiro jogo internacional de uma seleção nacional de polo aquático, tendo o combinado luso sido derrotado pelos vizinhos espanhóis por 2-1. Entretanto, na Doca de Santos, na Doca do Espanhol, ou na Praia de Algés continuam a realizar-se escaldantes e emotivos matchs em condições... artesanais: um retângulo flutuante onde se desenrolavam os jogos que se deslocava constantemente pela força do vento e das ondas. Nas extremidades do retângulo duas balizas suspensas por bidões! Era assim o waterpolo nacional na sua Golden Era.

E se em 1923 e 1924 o Sporting protestou os duelos decisivos contra o Algés, desta vez foram estes últimos a fazer birra pelo facto de os leões apresentarem ao longo do Campeonato de Lisboa um jogador (Esteban Torok) que não era português. O Algés comandou o coro de protestos, no qual estavam incluídos outros emblemas da capital (e redondezas). Aliás, o regional de 1926 ficou marcado pelo número elevado de participantes no campeonato de 1.ªs categorias, pois além de Algés e Sporting também competiram o Vitória de Setúbal, o Clube Internacional de Football (CIF), o Pedrouços (nada a ver com a localidade da Maia) e o Nacional (que veio fazer uma perninha ao continente).
O protesto do Algés fez com que este clube não comparecesse no derradeiro e decisivo encontro do campeonato, entregando desta forma o título ao Sporting, onde pontificavam agora nomes como Coelho da Costa, Salazar Carreira, ou Jaime Montalvão. O título regional permitiu aos sportinguistas disputarem o título nacional em Aveiro, diante do campeão do Porto, naquele ano o Comercial. A supremacia dos clubes do sul continuava a ser evidente, como comprova o resultado final de 4-0 a favor dos leões.

Águas turbas no plano regional em 1927

Não era apenas a violência em muitos jogos que caracterizava o waterpolo luso por estes dias, era igualmente a discórdia entre clubes e demais entidades. Prova disso é que em 1927 os principais clubes de Lisboa, tendo à cabeça o Algés, decidem criar um novo organismo que tivesse como função a tutela da modalidade, fazendo assim frente à Delegação de Lisboa da Liga Portuguesa de Natação, que tinha como um dos seus poucos aliados o... Sporting.
Esta fidelidade concedeu aos leões mais um título regional, uma vez que o campeonato lisboeta continuava a ser tutelado pela Liga. Desta vez a polémica não se deu dentro de água, onde os sportinguistas não tiveram rivais, mas sim na secretaria. Polémicas à parte, a Doca de Alcântara iria receber em novembro de 1927 a final do campeonato nacional entre Sporting e o campeão do Porto, o Nun' Álvares. Venceram os lisboetas, por claros 5-0, mantendo assim a supremacia do waterpolo sulista no plano nacional.

FC Porto contraria tendência sulista

FC Porto, conquistou para o Norte em 1928
o primeiro título nacional
Porém, no ano seguinte o cenário iria mudar, muito por causa da ação de uma lendária equipa do FC Porto, que entretanto começava a despontar nos jogos realizados no Rio Douro. No dia 30 de setembro de 1928, José Pinto, Luís do Canto Monis, José Sequeira Jr., Florentino Ramalho, Florentino Mota, João Pedro Brenha, António Augusto Antunes e César Machado ascendem à categoria de heróis após derrotarem na sua Cidade os campeões de Lisboa, o Sporting, e oferecerem o primeiro título nacional ao norte do país.
Enquanto isso, na capital continuava a luta pelo controlo da modalidade entre a Federação e a Liga. É também neste ano de 1928 que começa a ser erguida a primeira catedral do polo aquático e da natação em Portugal, isto é, a primeira piscina na verdadeira ascensão da palavra. Trata-se da piscina do Algés e Dafundo, que nos anos que se seguiram tantos e tantos campeões viria a formar... sobretudo na natação, porque o fervor do polo aquático começava a abrandar.

A tentativa frustrada da fusão entre Federação e Liga em Lisboa marcou o ano de 1929. Um ano em que o Sporting (que com esta divisão entre organismos continuava a ser tranquilamente o campeão do regional lisboeta) vingou diante do FC Porto a derrota no ano anterior, recuperando o ceptro nacional após vitória em dia de feriado (5 de outubro) por 2-1.
Depois de um notável fulgor em finais da década anterior que se viria a confirmar na primeira metade dos anos 20, o polo começava a perder notoriedade à medida que se aproximava a década de 30.
E isto numa altura (1930) em que finalmente a sul do país se levantava a bandeira branca em sinal de paz – e concordância – entre Federação e Liga, que ao fundirem-se num só organismo voltaram a trazer tranquilidade e interesse ao Campeonato de Lisboa.

Pela primeira vez o Benfica participou na prova, que seria ganha pelo Algés, que no encontro decisivo derrotou o velho inimigo de Alvalade por 2-1. Sem rival a norte, o Algés sagrar-se-ia novamente campeão nacional.
É a partir deste ano que muitos clubes começam a ignorar o polo aquático, a abandonar os campeonatos regionais e consequentemente os nacionais, e a modalidade perde expressão. Desde logo popularidade, já que órfão de jogos (com interesse) o público começa a afastar-se. A própria comunicação social começa a ignorar o polo aquático que a partir daqui atravessa uma longa travessia no deserto no que a campeonatos nacionais diz respeito, pese embora em 1952 a nossa seleção tenha atingido o seu momento de glória no âmbito desta modalidade: a presença nos Jogos Olímpicos.
Só nos finais dos anos 70, o polo aquático voltaria a ganhar algum dinamismo em termos nacionais, com o regresso dos campeonatos nacionais, em 1985, mas sem o fulgor da Golden Era dos anos 20.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Flashes Biográficos (3): Jorge Theriaga... o maior astro da História do bilhar nacional


JORGE THERIAGA (Bilhar): Numa anterior viagem ao passado da nobre e gloriosa História do nosso desporto, evocámos aquela que foi a primeira conquista internacional alcançada pelo bilhar português. Um feito alcançado por Alfredo Ferraz, que em 1939 venceu, em Lausanne, o Campeonato do Mundo de bilhar livre.
Esta efeméride leva-nos hoje a uma nova incursão ao passado, para recordar a maior lenda do bilhar nacional: Jorge Theriaga.
É unanimemente considerado o maior jogador português de todos os tempos, não só pelas dezenas de títulos nacionais e internacionais conquistados ao longo de mais de três décadas de atividade, mas sobretudo pela sua ímpar perícia enquanto bilharista.
Médico de profissão, Jorge Theriaga nasceu em Lisboa a 8 de março de 1954 e com apenas 18 anos começa a dar nas vistas no clube do seu coração, o Sporting, emblema do qual se fez associado com a tenra idade de 8 anos. Nesse ano de 72, o então estudante de medicina vence o seu primeiro título oficial, o campeonato de juniores de bilhar às 3 tabelas, a variante de bilhar em que se tornou mestre... e lenda.
Esta seria só a primeira tacada coroada de êxitos no que a títulos concerne. Senão vejamos.

Foi por 19 vezes campeão nacional individual (sénior), oito dos quais de forma consecutiva, sendo que o primeiro ceptro foi conquistado em 1979. A solo, venceu ainda uma Taça de Portugal. No plano coletivo foi por 11 vezes campeão nacional, conquistando ainda três taças de Portugal e seis supertaças nacionais.
O seu talento galgou já nos anos 80 as fronteiras nacionais, sendo que a nível individual logrou em 1986 alcançar um brilhante 3.º lugar no Campeonato da Europa às 3 Tabelas, nesse ano disputado na cidade luxemburguesa de Mondorf-les-Bains e onde o craque luso só seria derrotado pelo campeão em título, Torbjorn Blomdhal. 
Três anos mais tarde, na Áustria, o astro do bilhar português tocou finalmente o céu no plano individual, após vencer o Campeonato do Mundo de Triatlo (variante que integra as 3 tabelas, bilhar livre e 71/2).
Em 1994, na localidade alemã de Viersen, chega às medalhas de prata e de bronze no Campeonato do Mundo de 3 Tabelas em termos coletivos (fez dupla com Mário Ribeiro). Ali volta em 1995, para levar para casa, também no plano coletivo (e novamente ao serviço da seleção nacional), uma nova medalha de bronze. Neste mesmo ano, mas agora no plano individual, conquista em Praga uma medalha de bronze no Campeonato da Europa às 3 Tabelas, feito que repete quatro anos mais tarde no Porto.

No meio de tantos e tantos sucessos, há ainda a destacar as duas medalhas de ouro - equivalentes a títulos planetários - arrecadadas por Theriaga na Taça do Mundo às 3 Tabelas, tendo a primeira delas sido conquistada em 1994, no Grande Prémio da Holanda, em Dongen, e a segunda dois anos mais tarde no Grande Prémio da Turquia, em Antalya. No âmbito da Taça do Mundo arrecadou ainda quatro medalhas de prata (95, em Atenas, 97, em Seul, 98, em Korfu, e 99, em Oosterhout), bem como uma medalha de bronze, em 1996, em Atenas.
Tal como diz o velho ditado "quem sabe não esquece", aos 61 anos de idade, Jorge Theriaga volta a fazer história no bilhar nacional. A 17 de fevereiro de 2015, estabeleceu um novo recorde nacional, ao realizar numa só partida 40 carambolas em 10 entradas.
Este seu percurso valeu-lhe, naturalmente, inúmeras distinções, desde o Comité Olímpico Português, até ao Instituto Nacional do Desporto. Porém, a mais pomposa terá sido, provavelmente, a medalha de Bons Serviços Desportivos, que lhe foi atribuída pelo Governo Português em 1989. 

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Hóquei em Valongo – Uma fervorosa paixão sobre rodas


Atreve-mo-nos a afirmar que serão poucas as terras deste nosso Portugal onde o futebol não assume o estatuto (indiscutível) de Desporto Rei. Esta suposição assume contornos de certeza em pelo menos uma localidade nacional, situada a norte, na região do Grande Porto, famosa a nível nacional por ser o berço da regueifa, do biscoito, da ardósia e… do hóquei em patins. Valongo, é o nome da terra em que o hóquei patinado stica para fora do rinque as atenções dadas ao fenómeno futebol, por outras palavras, a terra onde o hóquei em patins é rei, é a modalidade que dita leis em Valongo… onde o futebol passa completamente despercebido!
Vem isto a propósito de uma recente remexida no baú das (minhas) lembranças profissionais, em que dei de caras com uma entusiasmante reportagem sobre a história da Associação Desportiva de Valongo (ADV), o popular Valongo, que ainda há pouco (2014) surpreendeu o Mundo na sequência da conquista do título de campeão nacional da 1ª Divisão de hóquei em patins. Essa incursão profissional à “capital do hóquei em patins nacional” – é assim que os valonguenses se referem carinhosamente à sua terra, alegando que ali se vive a modalidade de uma forma diferente daquela que se vive no resto do país –, que na verdade mais não foi do que uma bela tarde passada na companhia de dezenas de memórias sobre a vincada paixão desta cidade às portas do Porto pelo hóquei, deu-se na abertura da exposição “Hóquei de Valongo – Um percurso sobre rodas”, a qual havia estado patente entre abril e agosto de 2013 no Museu Municipal de Valongo.
É pois o relato dessa viagem por algumas paragens da história da ADV – relato esse efetuado para o órgão de comunicação social para o qual eu trabalhava – que aqui se publica no sentido de perpetuar nestas vitrinas virtuais esta curiosa paixão sobre rodas de Valongo pelo hóquei.

Hóquei de Valongo: uma fervorosa paixão em exposição

«Dúvidas parecem não existir de que o hóquei em patins é de longe a modalidade rainha em Valongo. Uma conclusão muito fácil de tirar não só pela visível paixão semanal que os valonguenses demonstram pela sua Associação Desportiva de Valongo mas também aquando da inauguração da exposição “Hóquei de Valongo: Um Percurso sobre Rodas”, na passada noite de 5 de abril (2013), no Museu Municipal, local onde os muitos visitantes que marcaram presença na abertura do evento – mas também os muitos outros que já lá deram uma vista de olhos nos dias seguintes – puderam embarcar numa fascinante viagem ao passado para conhecer – ou recordar – a história daquela que é uma das grandes marcas de referência do nosso concelho, a Associação Desportiva de Valongo (ADV).

Fundada em 1955, a ADV é para o povo valonguense mais do que uma mera coletividade desportiva, é acima de tudo uma paixão, uma fervorosa paixão, para muitos até um modo de vida. A história do popular Valongo confunde-se com a da própria cidade que lhe dá o nome, e até mesmo com o do restante concelho, não sendo nada exagerado dizer que o hóquei patins foi – e continua a sê-lo – um dos principais responsáveis pela colocação da marca “Valongo” no mapa nacional e internacional ao longo destas quase seis décadas de história. É um pouco essa a ideia retirada após o visionamento desta fascinante exposição que conta de fio a pavio a não menos fascinante vida da ADV.

Percorrendo os caminhos da História

Deambulando pela montra de memórias os olhos arregalam-se quando encaramos de frente as vitrinas espalhadas pelo local, que guardam os rostos das primeiras lendas do clube, das primeiras equipas, tudo envolto na magia do “preto e branco”. Em paralelo encontramos as linhas que traçam a história do Valongo. Os tempos em que grupos de rapazes empolgados com as inolvidáveis campanhas internacionais da seleção portuguesa de hóquei de finais da década de 40 e princípios da de 50 recorre às hortas locais (!) para poder imitar os seus heróis dos rinques. As hortas? Perguntar-se-á por esta altura o leitor. Sim, às hortas, já que sem meios económicos para comprar os sticks de madeira com que se jogava ao hóquei os rapazes de Valongo utilizavam os talos das couves para sticar as bolas de trapo. João Lino do Vale era um desses meninos que sonhava dia e noite com o hóquei em patins, e não demorou muito a organizar jogos inter-ruas na Fábrica “A Separadora”, em Campo. Brincadeiras que seriam oficializadas em 1955, ano em que Lino do Vale e o restante grupo de amigos fundam a ADV. 

De lá para cá a história faz-se com vitórias, muitas, com dezenas de conquistas – que podem ser comprovadas com os muitos troféus de campeões (regionais e nacionais) aqui expostos – com a formação de lendários hoquistas portugueses, e com centenas de factos desportivos que entraram para a história do próprio concelho de Valongo. Factos que estão eternizados em jornais, cujos “recortes” passados estão agora vivos nesta exposição. Um desses recortes – que nos chamou particularmente à atenção – remonta a 1978, ano em que o Valongo garantiu a qualificação para a Taça dos Clubes Campeões Europeus! A história mereceu honras no jornal “A Bola” da época, que dá uma página inteira (!) ao feito alcançado pelo emblema do nosso concelho. Nas páginas esbatidas pelo tempo recordamos o derradeiro jogo do campeonato nacional de 78, quando um empate a dois golos em casa diante do Oeiras garantiu a qualificação para a prova rainha do hóquei patinado europeu da época seguinte. Recordamos os festejos que se seguiram a esse feito, com o povo valonguense a carregar os seus heróis em ombros. A estreia na Europa deu-se então na Alemanha, mais precisamente em Iserlohm, onde nomes como Aguiar, Lino, Armindo, Pires, Américo, Queirós, Camões, e Vítor Francisco ascenderam ao patamar das lendas. Foram eles que apresentaram o Valongo ao “Velho Continente”. E já que falamos em nomes lendários do clube não podemos esquecer Eugénio, Carlos Camões, António Vale, José Nora, José Alves, entre muitos, muitos outros ícones dos patins e do stick que nasceram no Valongo e ajudaram-no a catapultar-se para os patamares mais altos do hóquei nacional e internacional.
E se estes homens tiveram um papel fundamental dentro do campo – ou do rinque, melhor dizendo – outros tiveram-no fora dele. Foram os dirigentes, casos de João Alves Vale, Joaquim Paupério, Álvaro Reis Figueira, e mais recentemente João Carlos Paupério, também eles com direito a destaque nesta exposição.

Nesta viagem pela história da ADV chama igualmente à atenção a vitrina onde estão guardadas algumas memórias alusivas à grande rivalidade existente com o FC Porto. Recordamos jogos emblemáticos daquele a que muitos chamam de dérbi do norte. Ante o rival azul e branco são célebres os jogos realizados (a céu aberto) no rinque da Praça Machado dos Santos, o popular “largo do patos” (já desaparecido), casa do Valongo durante anos a fio, numa época em que o atual Pavilhão Municipal ainda não havia sido erguido. Jogos em que os ramos das árvores em redor da citada praça se transformavam em “explosivas” bancadas repletas de fervorosos adeptos valonguenses que faziam do local um verdadeiro inferno para os adversários, em especial para os portistas, o velho inimigo, por assim dizer.

Histórias e factos que podem ser vistos e escutados pela voz de muitos dos próprios intervenientes desses acesos duelos, num documentário gravado que passa nos ecrãs espalhados pela exposição. Muito bom este pormenor».  
Devo dizer que esta foi das reportagens que mais prazer me deu, muito pela inolvidável viagem no tempo que fiz nessa tarde do não muito longínquo mês de abril de 2013. A ADV assume-se hoje como um dos grandes clubes do hóquei nacional, ombreando sem medo com os chamados “grandes” do desporto nacional: Benfica, FC Porto e Sporting. O ponto alto da vida da popular ADV seria vivido curiosamente um ano mais tarde após esta exposição ter estado patente, altura então em que o sonho de uma cidade inteira se tornou realidade: Valongo era campeão nacional de hóquei em patins. Feito esse que enquanto profissional da comunicação tive igualmente o privilégio de viver  in loco, e o qual passo a aqui a recordar nas linhas que nesse dia me saíram da alma: 

Valongo, campeão nacional da 1ª Divisão em 2013/14
«31 de maio de 2014. Dia em que se decidia o vencedor do Campeonato Nacional da 1ª Divisão. Todos os caminhos iam dar a Valongo, e ao seu pavilhão municipal, que acolhia uma autêntica final entre as duas únicas equipas que poderiam ainda sonhar com o ceptro de campeão, a Associação Desportiva de Valongo e o Futebol Clube do Porto. Aos portistas bastava um empate para revalidar o título, enquanto que para concretizar o sonho de pela primeira vez ser campeão o Valongo precisava de uma vitória. O trajeto que vai do sonho à realidade durou 50 minutos, período de tempo em que o Valongo se tornou gigante e aniquilou por completo o favorito FC Porto, alcançando um triunfo por 5-3 que fez explodir de alegria o para lá de lotado – e infernal – Pavilhão Municipal. Aos 60 anos de idade o Valongo era finalmente campeão nacional de hóquei patins. Ao fim de 60 anos de intensa procura o título mais ambicionado tinha sido encontrado. Hugo Azevedo, André Girão, Nuno Araújo, Telmo Pinto, Miguel Viterbo, Rafa, João Souto, Henrique Magalhães, João Sampaio, Xavi Cardoso, ou Paulo Pereira ganharam a partir daquele dia o estatuto de imortais, de mitos, cujos nomes irão ser recordados para sempre quando de hóquei se falar nas ruas e cafés valonguenses. Hóquei em Valongo é sinal de paixão, sendo pois com sorrisos de orelha a orelha que o povo valonguense extravasa neste dia o que lhe vai na alma».

Nesse dia percebi a verdadeira razão pela qual o hóquei em patins é de longe Rei em Valongo. 

domingo, 15 de abril de 2018

Memórias do I Porto-Lisboa no rescaldo de uma visita ao Museu do Ciclismo (nas Caldas da Rainha)


Charles George,vencedor do I Porto-Lisboa
A recente passagem pela formosa cidade das Caldas da Rainha abre caminho para a memória que hoje vamos evocar nas nossas vitrinas virtuais. A história leva-nos até 1911, ano em que se disputou a primeira grande prova do ciclismo português: a clássica Porto-Lisboa. 

Esta memória foi tema de conversa na nossa passagem pelo Museu do Ciclismo, situado precisamente nas Caldas da Rainha, ao qual efetuamos uma breve mas fascinante visita que nos levou a percorrer inúmeros capítulos da História de uma modalidade popular e muito acarinhada em Portugal. Ali, fomos guiados pelo conhecido entusiasta e profundo conhecedor da(s) História(s) do ciclismo nacional e internacional, Mário Lino, figura ilustre da modalidade (enquanto historiador) que nos deixou verdadeiramente encantados com as suas memórias velocipédicas. Uma delas abordou precisamente a primeira edição da corrida Porto-Lisboa, realizada a 5 de novembro de 1911. Esta foi, como já foi referido, a primeira grande competição velocipédica a surgir no nosso país, e que para muitos historiadores terá servido de rampa de lançamento para a atual prova rainha do ciclismo luso, a Volta a Portugal. 


Recuando um pouco mais no tempo, e em jeito de nota de rodapé, para lembrar que os primeiros registos de competição velocipédica em Portugal remontam ao século XIX. Reza a História que em 1885 no âmbito das competições de atletismo organizadas pelo Ginásio Club Português decorrem no Hipódromo de Belém corridas de bicicletas, tendo nelas participado e triunfado nomes como Domingos Basto, Jorge Norton, ou Herbert Dagge, este último tido como o pai do ciclismo em Portugal. É nesse mesmo século XIX que aparece o primeiro grande ciclista português, o figueirense José Bento Pessoa, que até finais deste século vence inúmeras provas – realizadas, sobretudo, em velódromos – que se vão disputando em Lisboa e no Porto, mas também no estrangeiro.

Nos inícios do século XX o ciclismo ganha força em Portugal, com a ocorrência das provas de estrada, como é o exemplo do Caldas-Lisboa (1901), do Grande Prémio de Outono (1906), ou do Campeonato da Rampa (1908), entre outras. Esta popularidade terá levado a que em 1911 a União Velocipédica Portuguesa (UVP) idealizasse uma prova de maior calibre, à semelhança do que acontecia em França e Itália, por exemplo, onde clássicas de uma só etapa como a Bordéus-Paris ou a Milão-San Remo começavam a centrar em si os olhares de um número crescente de entusiastas. Ainda segundo a História, a primeira vez que a UVP tentou colocar em prática o Porto-Lisboa, a intenção saiu gorada por falta de participantes! Facto ocorrido em 1910, quando dos inicialmente 20 inscritos naquela que seria a primeira edição da clássica apenas três marcaram presença na linha de partida! Face a isto, a realização da prova foi cancelada.  


Tal não iria acontecer no ano seguinte, quando a UVP lançou de novo a ideia de realizar a prova. Assim, no dia 5 de novembro, 15 ciclistas compareceram na Praça da Batalha, no Porto, para dar vida aquela que hoje encarada como a primeira grande competição de ciclismo a ter lugar em Portugal e que durante a sua existência foi considerada a grande clássica velocipédica cá do burgo. Nesse dia, ou melhor, nessa noite, já que os ponteiros do relógio marcavam a uma e meia da manhã, partiram da Praça da Batalha os seguintes ciclistas: Alberto Albuquerque, Luís Baptista, Joaquim Marques de Sá, Artur de Campos, Charles George, Joaquim Dias Maia, Carlos Fernandes, Luís Policarpo da Silva, Joaquim de Oliveira, João de Lacerda, José da Costa Nascimento, Joaquim Delgado, Faustino Rosa da Silva, Silvério Rocha e Laranjeira Guerra. Homens cujos nomes entram pois na História. Segundo registos da atual Federação Portuguesa de Ciclismo, a prova teve inúmeras peripécias ao longo dos seus 340km – a distância entre as duas maiores cidades do país –, como, por exemplo, o facto de um grupo ter seguido por Espinho e outro pelos Carvalhos. Outro episódio caricato alude ao acordo para divisão do prémio final entre Laranjeira Guerra, João Lacerda e Faustino Rosa, os quais estavam certos da desclassificação dos seus colegas que haviam seguido pelo lado errado. Porém, a caravana lá chegou a Lisboa, 17 horas/48minutos/34 segundos após a partida, tendo o francês Charles George (do Lusitano) cortado a meta na primeira posição. No entanto, este seria um falso arranque para a clássica, tendo a UVP anulado a prova pelas irregularidades atrás descritas. 


Como já foi dito, o Porto-Lisboa foi até ao aparecimento da Volta a Portugal a prova mais popular do ciclismo nacional, juntando nas estradas por onde serpenteava, e desde a sua primeira edição, largos milhares de pessoas para ver e incentivar o pelotão. A clássica realizou-se até 2004, sendo que ao longo da sua história teve algumas interrupções, umas vezes por falta de verbas para a colocar na estrada, outras devido às duas Guerras Mundiais. O já referido aparecimento da Volta a Portugal (em 1927) e o facto de nos anos 70 a clássica ser dividida em duas etapas acabaria por anunciar uma lenta morte anunciada, algo que iria acontecer no início do novo milénio. 


Estes foram alguns dos factos históricos que tivemos oportunidade de conhecer, ou reavivar, na vista ao Museu do Ciclismo, pela mão da verdadeira enciclopédia humana sobre tudo o que rodeia esta modalidade, o senhor Mário Lino. Ele é o grande dinamizador deste espaço sagrado do ciclismo, foi ele que doou o seu imenso e rico espólio para criação deste museu, que além de deliciosas fotografias que nos levam a visitar décadas e décadas de história do ciclismo em Portugal, agrega ainda troféus, camisolas, páginas e recortes de jornais, bicicletas (pois claro) e muitos outros documentos históricos que nos deixaram deslumbrados. «Esta é apenas uma pequena parte do meu espólio. Tenho muito mais!», palavras do próprio Mário Lino, que ofereceu então parte da sua coleção não só à sua cidade das Caldas da Rainha, como também, e sobretudo, ao ciclismo e à sua História. Bem haja. 


Terminamos esta nossa evocação à primeira clássica Porto-Lisboa com uma série de fotografias por nós registadas na inesquecível visita ao Museu do Ciclismo, destacando as primeiras duas imagens da série, onde em primeiro lugar surge a histórica ficha de participação no I Porto-Lisboa assinada pelo vencedor da prova, Charles George, ou como Carlos Jorge, como o próprio se apresentou – e aqui reside um apontamento curioso! – e também a vitrina dedicada única e exclusivamente a esse histórico dia 5 de novembro de 1911.