quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Os pesos pesados do halterofilismo nacional

Fazemos hoje uma viagem pelo universo de uma modalidade em que Portugal está longe de ser um peso pesado a nível internacional. Uma modalidade onde é exigida uma mescla de técnica, flexibilidade, coordenação, equilíbrio, e força, muita força, há que sublinhá-lo. Falamos do halterofilismo, cuja iniciação diz a história pertencer às primeiras civilizações terrestres. Seria, contudo, na segunda metade do século XIX que a arte de levantar a maior quantidade de peso possível conhece as suas primeiras competições organizadas, cabendo ao continente Europeu o papel de grande dinamizador desta modalidade.

Como já frisámos inicialmente Portugal está hoje em dia longe de ser considerada uma potência do halterofilismo planetário, conforme comprova a sua ausência - nas últimas décadas - dos grandes certames internacionais, com realce neste aspeto para os Jogos Olímpicos. Mas... nem sempre foi assim.
Para conhecer-mos o período dourado do halterofilismo português há que fazer uma longa viagem até ao início do século XX, onde efetivamente o nome de Portugal se fez notar além fronteiras. Halterofilismo que é considerada como uma das modalidades mais antigas a ser praticadas no nosso país, apontando os historiadores o ano de 1860 como aquele em que ela foi oficialmente introduzida em terras lusitanas.

Mas é só no início do século XX que surge aquele que muitos consideram como o grande nome do halterofilismo nacional, Manuel da Silveira (na imagem de cima). Nascido na Ilha do Pico (Açores) a 21 de outubro de 1867. Manuel da Silveira é aquilo a que podemos chamar de um... herói acidental. Assim o foi porque descobriu o seu enorme talento - e sobretudo força física - devido ao... reumatismo!

Emigrante desde muito novo, andou pelos Estados Unidos da América, e S. Tomé e Príncipe, regressando ao país natal em 1903, e com um problema de saúde às costas, o reumatismo. Consultando um médico foi-lhe dito que com algum exercício físico as dores que o atormentavam talvez o pudessem deixar sossegado. De imediato se inscreveu no Real Ginásio Clube Português, onde com 37 anos de idade se iniciou na modalidade que haveria de lhe conceder a imortalidade.

Revelou-se de pronto um levantador de peso excecional, tendo nos anos que se seguiram alcançado inúmeros recordes nacionais e... internacionais. Em Paris, no ano de 1908, bateu uma série de recordes mundiais, alguns deles só ao alcance de um autêntico super-homem. O destaque na capital francesa vai para o levantamento de um alter com 186,5kg, superando em 36,5kg o recorde mundial anterior!!!

Os sucessores

As façanhas de Silveira tiveram um forte impacto no nosso país, e nos anos seguintes outros atletas de peso, com peso e talento, para sermos mais precisos, seguiram-lhe as pisadas. Entre outros, destaca-se Francisco Padinha, algarvio (de Olhão) nascido em 1870, que à semelhança de Manuel da Silveira bateu vários recordes internacionais.

Sagrou-se recordista nacional (dévoleppé, com dois braços, 116kg; arraché à esquerda 72kg e levantamento do solo, 207kg), e posteriormente abraçou o Mundo após tornar-se campeão mundial na especialidade de flexão de coxas com barra apeada nos ombros, levantando 190,5kg, superando aqui o recorde de Silveira.
Depois destes dois enormes e volumosos campeões a modalidade começou a perder peso em Portugal durante as décadas de 30, e 40. Só nos anos 50 e 60 é que ela dá um ar da sua graça, daquilo o que havia sido num passado não muito longínquo, sendo aqui de destacar a primeira aparição de um atleta lusitano nos Jogos Olímpicos, mais concretamente Luís Ramos Paquete, que no entanto não foi além de um 19º lugar no levantamento de peso na categoria de 57kg.

Na década de 70 a modalidade como que voltou a desaparecer do mapa desportivo, e só em meados dos anos 80 a bandeira portuguesa voltou a surgir nos pódios internacionais, graças à força... feminina. Nesta década surgiram os primeiros grandes nomes do halterofilismo nacional feminino, com realce para Sara Duarte, e Eulália Romão. A primeira sagrou-se campeã da Europa em 1988, conquistando ainda duas medalhas de bronze nos campeonatos da Europa de 1989 e 1992, e uma medalha de prata no Europeu de 1990. Já a segunda arrecadou três medalhas de prata em campeonatos da Europa, mais precisamente em 1989, 1990, e 1992.

Voltando aos atletas masculinos é de sublinhar que também na década de 80 surgiu o nome de Francisco Coelho, que além de ter conquistado uma medalha de bronze nos campeonatos da Europa de 1980 chegou aos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, onde não iria além de um 13º lugar, quando as esperanças de alcançar uma medalha eram elevadas. Em Seul (1988) Paulo Duarte foi 14º, sendo que a derradeira - até à data - aparição lusa nas Olimpíadas remonta a Atlanta (1996) onde Nuno Alves trouxe para casa um 14º posto.
Depois disso seguiu-se uma nova e longa travessia no deserto...

3 comentários:

  1. Boa Noite,

    Gostei bastante do artigo e desde já os meus parabéns por escrever sobre uma modalidade tão pouco acarinhada pelos media.
    Apenas dois reparos:
    Não referir o nome do Raul Dinis, presente em 3 Jogos Olímpicos e a quem foi atribuido o premio de atleta do ano pelo Comite Olímpico Português é uma omissão grave.
    Depois da presença do Nuno Alves em Atlanta, o Halterofilismo português, até 2001, ainda teve alguns resultados de relevo quer no sector masculino e feminino, embora não ao nível dos anos dourados.
    Actualmente os masters (veteranos) têm mantido a modalidade para que esta não desapareça e têm obtido resultados muito meritórios. Neste grupo está presente o Paulo Duarte referido no artigo.

    Cumprimentos deste futuro leitor,

    Alexandre Brás

    ResponderExcluir
  2. sem duvida raul diniz, jorge soares, vitor graça, mas sempre a velha questão de serem atletas num país de futebol

    ResponderExcluir
  3. Ai Alexandre, es também uma referencia de halterofilismo em Portugal, um recordista nacional, um grande atleta e campeão de Portugal de Coimbra!

    ResponderExcluir